“A música é a única forma artística que permite a recriação da obra a qualquer momento, a cada vez que você a toca. Não é como uma pintura que está feita, fica na parede e pronto”. Este foi o lema de Ritchie, cantor inglês há décadas radicado no Brasil, ao regravar a música “Voo de Coração” 43 anos após seu lançamento. Para esta missão, ele — que creditou Joni Mitchell pela frase que abre o parágrafo — convocou ninguém menos que o guitarrista original da canção para reeditar a parceria: Steve Hackett, notório por sua passagem pelo Genesis na década de 1970.
O resultado, já disponível nas plataformas de streaming e com videoclipe no YouTube, traz diferenças pontuais em relação à gravação original. A primeira está no próprio canto de Ritchie, que, embora siga um performer de alto nível, celebrou seu 74º aniversário em março. Influenciado pela rouquidão de nomes como David Gray, Rod Stewart, Joe Cocker e Paul Young, ele confidencia à Rolling Stone Brasil ter adotado uma persona “muito mais velha” e uma voz “propositalmente mais surrada”, sob a proposta de mostrar a passagem do tempo e, 43 anos depois, soar “um pouco menos otimista e mais sofrido”.

Quanto à guitarra agora menos carregada de efeitos de Steve Hackett — músico que conheceu no Brasil durante o Carnaval de 1980 —, o cantor declarou:
“Por ter sido tocada com slide, a guitarra ficou com aquela cara de lamento. Meio chorada, à la George Harrison. E você não imagina como é difícil fazer aquilo, pois o slide não foi feito para essas linhas melódicas, mas Steve tem tanto domínio do instrumento que foi para esse lado e deu uma polida. Devemos tudo à influência de George Harrison.”
Com uma letra que cita hologramas e computadores em pleno início da década de 1980, “Voo de Coração” tem uma pegada futurista para sua época. Nas palavras de Ritchie, a regravação é “quase uma nostalgia desse futuro” previsto em tempos nos quais até a gravação em estúdio dispunha de menos tecnologia. Ele relembra:
“Naquela época, ninguém tinha computador em casa. Aquela música, com letra do Bernardo Vilhena, surgiu da total falta de tecnologia e foi para uma fantasia sobre um futuro próximo, no qual todos teriam computador em casa. Até para gravarmos: o Liminha [produtor] nos conseguiu uma salinha para gravarmos essa música no escritório da Warner, nem estúdio ele conseguiu. A gravação era em oito canais e Steve queria três só para a guitarra. Agora, o computador é lugar comum — até banalizado.”

A canção regravada dá nome ao álbum lançado em 1983 por Ritchie. É o seu disco mais vendido e traz, ainda, faixas como “Menina Veneno” e “A Vida Tem Dessas Coisas”. Embora estas duas tenham feito mais sucesso, “Voo de Coração”, a música, é definida como “uma das mais importantes” de seu repertório.
“Foi a primeira música do meu repertório que eu gravei. É a música que mais me satisfaz enquanto composição, pois ela tem uma certa estranheza. Não tem refrão, a estrutura é inusitada dentro do mundo pop. Soa mais como progressiva.”
A importância de revisitar o legado
Uma ideia parecida o levou a gravar o DVD Outra Vez (2009), gravado ao vivo em estúdio com seu antigo repertório em roupagem mais crua e próxima do que se vê nos palcos. Muitos — como este que vos escreve — conheceram a obra do artista por meio deste material, que chegou ao YouTube, em 2010, após a edição física ter esgotado.
“Pessoas mais jovens ouviram o DVD online e não foram influenciadas pelas ‘playlists’ de antigamente. No YouTube, ‘Menina Veneno’ é tipo o quarto lugar de execução lá. Todo mundo fala: ‘Ritchie é ‘Menina Veneno’, só tem um hit’. Mas você vai e descobre que ‘A Vida Tem Dessas Coisas’ quase vinte vezes mais execuções que ‘Menina Veneno’. ‘Pelo Interfone’ tem dez vezes mais. E ‘Voo de Coração’ está logo na esteira de ‘Menina Veneno’. É interessante ver para onde as pessoas vão.”
Ritchie, aliás, ancora seu show ao vivo atual nas versões presentes em Outra Vez. Nada de tentar recriar a sonoridade oitentista. Inclusive, ao analisar seu grande hit da época, o artista revela algumas ressalvas.
“A estética da ‘Menina Veneno’ é muito anos 1980 mesmo, até na letra. Tem a ver com a estética da MTV, dos videoclipes. Uma coisa ‘kitsch’ (estilo decorativo que, no linguajar popular, também pode significar ‘brega’). O público de agora busca outros tipos de abordagem musical: outro arranjo, outra interpretação.”
“No último fim de semana, estávamos em Inhuma, no Piauí, ao norte de Teresina. Antes, em Salinas, interior de Minas. Estamos tentando entrar cada vez mais nos interiores, pois estamos encontrando muitos jovens curiosos, além de pessoas que, por estarem ali na festa, descobrem nosso som pela primeira vez. Tem sido maravilhoso. Vamos continuar com esses shows de festas de cidades. É um público que não está indo necessariamente te ver, mas estamos confiantes de que as pessoas vão assistir e se encantar, independentemente da idade ou gosto musical.”

Futuro — e tecnologia
O restante do ano de 2026 reserva a Ritchie uma sequência de shows em Aracaju (25/07), Salvador (26/07), Belém (08/08), Belo Horizonte (15/08) e São Paulo (19/12), além de uma turnê conjunta com Pato Fu que começa no Rio de Janeiro (26/09) e deverá ter mais compromissos anunciados em breve.
“Vou fazer 75 anos e ainda estou vivendo de música! Jamais imaginava que seria possível. Quando fiz ‘Menina Veneno’, só queríamos tocar dois meses na rádio. Mas mexeu tanto na minha maneira de encarar a vida. Estou na reta final e com muito gás pra fazer show. Não trocaria essa comunhão com o público por nada. Não há aposentadoria que me atraia.”
Além da relação com o público, Ritchie ainda se fascina pela música devido a seu aspecto imperfeito e ao processo criativo. Ferramentas como inteligência artificial acabam por afetar os elementos citados, mas para o cantor, o público logo irá se cansar desse “excesso” de tecnologia.
“Em dias de inteligência artificial — que ajuda tanto as pessoas em outros segmentos —, acho que as pessoas estão acordando para a vulnerabilidade do fator humano e querendo ter cada vez mais contato com a parte humana da arte. As máquinas meio que se extrapolaram. Virou bagunça. Acho que ainda há muita salvação para o garoto que está estudando guitarra em casa. O legal do que é feito por humano é o humano ser falível. A imperfeição é o grande trunfo da música ao vivo.”

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