O surgimento do punk nos anos 1970 teve efeito duradouro no rock. Não apenas no mainstream. Uma geração de crianças e adolescentes foi exposta à doutrina do “faça você mesmo”, expandindo além da sonoridade clássica do gênero. Nasce, assim, o rock alternativo.
Em entrevista citada no livro Our Band Could Be Your Life, o baixista do Minutemen, Mike Watt, explicou como as lições foram internalizadas por essa juventude. Segundo o músico, o movimento buscava empoderar pessoas a tomarem controle próprio de sua jornada musical:
“Punk era mais do que simplesmente começar uma banda. Era começar um selo independente, era sobre sair em turnê. Tomar o controle. Era sobre composição, de simplesmente fazer. Você quer fazer um disco, você paga a fábrica pra prensar. Era sobre isso.”
Isso gerou um movimento no qual o underground refez a estética do rock de acordo com o que gostaria de ouvir, em vez das músicas tocadas no rádio. Isso significou uma recontextualização de toda a história do estilo através de uma lente mais moderna, cujo resultado viria a redefinir a música nos anos 1990.
Marcas registradas do rock alternativo
- Guitarras distorcidas, com afinações estranhas ou usos diferentes do instrumento comparado ao mainstream
- Letras poéticas com influências literárias e ponto de vista introspectivo
- Visual despojado
- Postura politizada
Rock alternativo vs. indie rock
O termo rock alternativo começou a ser usado no começo da década de 1990 para se referir a bandas cuja sonoridade não se encaixava nos padrões da indústria. Entretanto, não há uma origem bem definida do subgênero. A confusão fica ainda maior quando leva-se em conta a existência do indie rock, cuja definição é bem parecida.
A principal diferença entre os dois é a abordagem. O rock alternativo, como o próprio nome sugere, oferecia uma nova versão do gênero. Isso significava influência de artistas de rock clássico, mas com aplicação das lições aprendidas no punk e pós-punk. Distorção mais suja, arranjos mais aventureiros, afinações estranhas, produção crua e letras para além do clichê sexo, drogas e rock’n’roll.
Apesar disso, o rock alternativo tinha claro foco em conquistar um público grande. O objetivo ali era criar uma disrupção na ordem vigente ao se apresentar como algo diferente, mas ainda palatável.
No indie, não havia desejo de alcançar um grande público, então se esses artistas se davam o luxo de serem mais estranhos e idiossincráticos. Sucesso não era algo ativamente evitado, mas tais grupos viam com suspeita qualquer atenção do mainstream.
Além disso, a relação de ambos os estilos com elementos icônicos do rock era diferente. O rock alternativo demonstrava uma apreciação sincera por riffs, solos e a mitologia em geral do clássico. O indie tinha uma postura mais ácida, de considerar tudo isso “clichê” e só fazer uso de tais recursos sob uma ótica irônica.
Origens do rock alternativo
Nos Estados Unidos, antes do rock alternativo ou indie rock, havia o college rock, usado para descrever artistas populares em rádios universitárias espalhadas pelo país durante a década de 1980. Nomes como R.E.M., Hüsker Dü, Minutemen e The Replacements são bons expoentes desse estilo, criando uma estética ainda bem baseada no punk e no hardcore, mas com sensibilidades diferentes.
Ao fim dos anos 1980, o rock mainstream estava bastante desgastado. O glam metal havia se tornado paródia de si próprio e os artistas responsáveis por vender dezenas de milhões de cópias durante a década se viam sem inspiração, exaustos ou ambos. Dinossauros do gênero se recostavam nos seus louros, sem vontade de se arriscar em nada.
Por isso, gravadoras estavam à procura de artistas mais jovens, capazes de rejuvenescer o cenário do rock. Algumas bandas já estavam na estrada há anos e simplesmente foram catapultadas ao estrelato. Outras, ainda nos primórdios, se beneficiaram da maré que levou todo mundo. Além disso, houve aquelas incapazes de surfar a onda naquele momento. Entretanto, estas conseguiram seu momento ao som mais tarde.
Artistas famosos do estilo
R.E.M.
Fundado em Athens, Georgia, R.E.M. era formado por Michael Stipe (vocais), Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo) e Bill Berry (bateria) era a queridinha das rádios universitárias. Seu sucesso cresceu ao longo da década de 1980 e serviu quase como prova de conceito para a viabilidade do alternativo como força comercial. Vieram a se tornar um dos grupos mais populares do planeta nos anos 1990 e 2000.
Dinosaur Jr.
Power trio que consiste de J Mascis (vocais/guitarra), Lou Barlow (baixo/vocais) e Murph (bateria). São arquitetos sonoros do alternativo graças à combinação de riffs e solos de guitarra incendiários (marcas registradas do hard rock e heavy metal) com letras mais introspectivas e energia punk. Quando estavam prestes a pular para o mainstream, brigas e a saída de Barlow atrapalharam tudo. Os integrantes fizeram as pazes nos anos 2000 e continuam juntos até hoje.
Pixies
Enquanto o Dinosaur Jr. ressignificava o hard rock para uma geração punk e hardcore, o Pixies tinha um ouvido mais pop. As influências do período psicodélico dos Beatles são grandes, mas a maior inovação da banda foi desenvolver a dinâmica “loud-quiet-loud”, copiada pelo Nirvana em “Smells Like Teen Spirit”. O grupo foi incapaz de atingir sucesso nos anos 1990 e terminou, mas retornou durante os anos 2000 para turnês esgotadas.
Smashing Pumpkins
Banda de Chicago formada por Billy Corgan (vocais/guitarra), James Iha (guitarra), D’Arcy Wretzky (baixo) e Jimmy Chamberlin (bateria) que misturava hard rock, heavy metal, prog e psicodelia dos anos 1960 numa roupagem noventista. O Smashing Pumpkins foi uma das bandas mais populares da década de 1990 antes de uma guinada temporária para sonoridade mais eletrônica minar a popularidade do grupo.
Radiohead
A única banda inglesa dos anos 1990 que se encaixa bem no termo calha de ser uma das mais importantes dos últimos 40 anos. Formado por Thom Yorke (vocais/guitarra), Jonny Greenwood (guitarra), Ed O’Brien (guitarra), Colin Greenwood (baixo) e Philip Selway (bateria), o Radiohead correu perigo de ser one-hit wonder graças ao single “Creep”, do álbum Pablo Honey (1993), mas deu a volta por cima em OK Computer (1997) e foi creditado por reinventar a linguagem do rock na virada do milênio.
Jane’s Addiction
Hedonistas de Los Angeles que misturavam elementos de heavy metal com pós-punk, funk e um elemento visual espalhafatoso, o Jane’s Addiction trazia Perry Farrell (vocais), Dave Navarro (guitarra), Eric Avery (baixo) e Stephen Perkins (bateria). O legado da banda vai além da música: Farrell criou o festival itinerante Lollapalooza no começo dos anos 1990 como uma turnê de despedida e acabou criando o evento definitivo do rock alternativo na década. O grupo se reuniu algumas vezes ao longo dos anos, mas parece ter acabado após uma briga no palco entre integrantes em 2024.
Sonic Youth
Nascido em Nova York nos rastros do punk e dentro da cena avant-garde conhecida como No Wave, o Sonic Youth desenvolveu uma linguagem musical em torno de afinações estranhas e dissonância, cortesia dos guitarristas Lee Ranaldo e Thurston Moore. Enquanto isso, a baixista Kim Gordon e o baterista Steve Shelley seguravam o groove. O grupo nunca teve sucesso comercial expressivo, mas influenciou quase todo mundo e foi responsável por indicar artistas como Nirvana para grandes gravadoras.
Red Hot Chili Peppers
O que nasceu como uma banda funk de garotos brancos em Los Angeles evoluiu para um dos grupos mais bem-sucedidos do rock. Ao longo de 40 anos, Anthony Kiedis (vocais) e Flea (baixo) foram as figuras constantes do Red Hot Chili Peppers, com John Frusciante (guitarra) e Chad Smith (bateria) sendo os integrantes mais longevos além dos dois. Um dos maiores exemplos de sobrevivência e ressurreição da história da música popular.
Menções honrosas
Alternativo é um tópico tão abrangente a ponto de alguns artistas não se encaixarem tão bem na definição. Os já citados Hüsker Dü e Minutemen eram punks demais, além de terem terminado antes da virada dos anos 1990. The Replacements se encaixa quase perfeitamente nas definições, mas a veia autodestrutiva do grupo impediu o sucesso.
The Breeders, projeto paralelo da baixista do Pixies, Kim Deal, ficou mais popular que sua banda original, mas é experimental demais. Enquanto isso, nomes mais associados ao indie rock, como Pavement e Sleater-Kinney, não se encaixavam esteticamente no estilo musical.
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