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Melly abandona a insegurança para se sentir ‘100% confiante de si’ em ‘Mais Forte Que a Dúvida’ – Rolling Stone Brasil

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Uma das vozes femininas em rápida ascensão no cenário musical brasileiro, Melly lançou seu primeiro álbum de estúdio, Amaríssima — uma “reflexão amarga” sobre o amadurecimento, como a própria o descreve — em 2024, e recebeu uma indicação ao Grammy Latino. Agora, aos 24 anos, o grande objetivo da cantora é encontrar a si mesma. Com o intuito de “colocar a alma” no papel e tomar as rédeas de sua própria narrativa, sua pesquisa percorreu referências afro diaspóricas, literatura esotérica e muita autorreflexão. E o resultado pode ser compreendido em seu mais novo álbum, Mais Forte Que a Dúvida, que chegou às plataformas digitais nesta quinta, 28. 

Apesar da extensa dedicação conceitual necessária para criar o disco, Melly não se deixa levar pela densidade: ela entrega uma coletânea de músicas em sua maioria dançantes, que pulsam em ritmo de celebração e liberdade. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, a artista descreve o gênero que classifica como “pop Bahia” ou “afropop”. 

“Minha base sempre vai ser esse estudo afropercussivo. Tenho esse olhar muito voltado para o groove — não para a rítmica acelerada, mas para o que faz pulsar, aquilo que é pele, aquilo que acende coisas mais ancestrais da gente”, explica. “No tipo de música que eu estabeleci, há influência de gêneros internacionais que também são fruto da minha pesquisa, como R&B, e da música brasileira, como a MPB. Tento transmutar isso para o que chamo de pop Bahia, ou afropop”.

Inspiração

Além das referências sonoras, Melly também se atentou mais do que nunca para incorporar sua pesquisa na estética do disco. “A alma é algo difícil de configurar”, afirma. Ela tentou transmitir a sensação do álbum através de vibrações e cores, transformando imagem e música em uma coisa só. 

Como elemento central, Melly trouxe “tecnologias de linguagem e comunicação afro-diaspóricas”, resgatando símbolos associados à ancestralidade do povo africano. 

O principal exemplo é o SUNSUM, símbolo Adinkra do povo Akan, de Gana, que representa a conexão entre o corpo físico (Honam) e a alma (Kra). Melly explica que os adinkras, utilizados como forma de comunicação, posteriormente inspiraram ornamentações como o Sankofa, espécie de “coração” encontrado em portões de casas, por exemplo. “Achei isso muito interessante, pensei que cada música poderia ter um adinkra, e o disco inteiro poderia ser norteado por esse conceito”.

A frase “A dúvida é da cabeça / a certeza é da alma” sintetiza o eixo poético do trabalho. Segundo Melly, Mais Forte que A Dúvida é, acima de tudo, sobre a intuição. “Na maioria das músicas eu falo sobre esse sentimento único de quando você se depara com uma questão que te tira o chão. Não existe nada mais importante do que escutar aquilo que está aqui dentro”, diz. 

Às vezes a gente cala pelas outras milhões de vozes que estão falando ao mesmo tempo. Mas se você não tiver certeza da sua identidade, se você não se conhecer, você vai fazer péssimas escolhas dentre essas milhões de possibilidades [que existem] na nossa geração.

Uma das maiores fontes de inspiração para a composição de Mais Forte Que A Dúvida foi A Tábua de Esmeralda (1974) de Jorge Ben Jor. “Principalmente porque ele está falando sobre esse processo de se reconhecer no mundo, sobre o funcionamento de tudo que é extracorpo”, explica. Ela menciona o livro O Caibalion, por Ramacharaka, que aborda questões do ocultismo e do esoterismo. 

Para sair de sua perspectiva individual, Melly comenta que outra grande referência foi Chico Buarque. “Às vezes, para falar sobre uma temática, a gente precisa criar um personagem, e eu voltei muito em obras de artistas que fazem isso com frequência e com excepcionalidade”, explica.

O álbum também carrega elementos das rodas de samba da Bahia. “É indissociável de mim. Eu não consigo fazer música e não haver esse tipo de interferência, porque eu cresci ouvindo isso. Tá na minha pele, no meu ouvido.”

Faixas

Melly recusa pré-determinações. Apesar de explorar experiências individuais em algumas faixas, ela define sua música como um espaço de encontro, troca e coletividade. Em um cenário onde cada vez mais mulheres ocupam espaços de destaque na música brasileira, a artista comenta sobre fazer parte deste movimento e combater as desigualdades enraizadas na indústria.

Só [a possibilidade] de estar onde estou hoje já é um ato político, uma afirmação [da minha identidade]. Sou uma mulher nordestina, vinda da Bahia para São Paulo, bissexual, negra, tantas questões que muitas das vezes são marginalizadas, mas é muito bonito que, hoje em dia, a gente tem encontrado espaço e pessoas dispostas a ouvir e a catalisar esse movimento.

O primeiro single lançado por Melly foi “ME LIVRA DE TODO MAL”. Inspirada em um costume do Candomblé, a letra traduz um percurso de superação e fortalecimento pessoal.

Antes de pedir qualquer coisa ou adentrar em qualquer caminho, é preciso fazer uma oração, pedir proteção para seguir com força, sabedoria e apoio das energias diversas do universo. Nada mais justo pra falar sobre a alma, conexão entre corpo, espírito e mundo do que seguir esse costume.

A cantora destaca duas faixas que a marcaram no processo de criação, devido à honestidade necessária para tirá-las do papel: “Mirante” e a canção de encerramento, “A Voz do Coração”. “As duas tratam de uma sensação mais de contemplação do que de primeira perspectiva”, explica. 

Em “Mirante”, Melly amplia o olhar sobre a existência, convidando o ouvinte a se distanciar de si para enxergar o todo com mais clareza. “Me emocionei muito depois de terminar de compor e produzir essa faixa, eu acho que tem um tom esperançoso que eu estava precisando no momento.”

Parcerias

Em “Ela Gosta de Menina”, parceria com Anitta, Melly explora sua sexualidade e o amor entre mulheres. “A composição é a forma que eu tenho de lidar comigo e com a forma como eu percebo o mundo e a forma como eu percebo as minhas relações. Então, vou amadurecendo ali nesse processo de colocar para fora”, diz.

Além de Anitta, outras parcerias do disco são Luedji Luna em “Amanhã” — “sou declaradamente uma grande fã” —, Liniker em “Ana” — “uma grande amiga [que] me apoia desde o início da minha carreira” — e Léo Santana em “Devagar Sem Agonia”. “Eu fico muito feliz de poder trocar com artistas tão interessantes, e [poder] absorver todo esse conhecimento dessas pessoas que a gente se rodeia”.

Para Melly, Mais Forte que A Dúvida foi um momento de abandonar inseguranças do passado. 

A gente tem que ser muito visceral na música. Mas eu sempre duvidava muito do caminho, eu sempre seguia a voz da insegurança e isso fazia com que eu não tivesse certeza do que de fato eu queria ali na música. Depois de ver [o impacto de] Amaríssima e aceitar que eu sou artista, [eu decidi] que preciso assumir a postura de representar as outras milhões de vozes que me escutam e se sentem semelhantes a mim. Eu decidi que em Mais Forte que A Dúvida eu ia me tornar o eu lírico que eu criei, 100% confiante da sua vontade, 100% confiante de si.

Questionada sobre o que gostaria que seus fãs compreendessem melhor após escutar Mais Forte que A Dúvida, Melly respondeu prontamente: “Não quero nem que as pessoas me conheçam melhor. Eu quero que elas se sintam inspiradas a se conhecer melhor”. 

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