O automobilismo sempre ocupou um lugar especial no imaginário brasileiro, impulsionado por ídolos que transcenderam as pistas, como Ayrton Senna, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e, mais recentemente, nomes como Felipe Massa e Rubens Barrichello. Ainda assim, boa parte dessa paixão sempre esteve concentrada na Fórmula 1, deixando outras categorias e competições igualmente fascinantes em segundo plano, muitas vezes esquecidas pelo grande público.
É o caso das 24 Horas de Le Mans, uma das provas mais tradicionais, exaustivas e estratégicas do automobilismo mundial, cuja grandiosidade e drama renderiam por si só material digno de cinema — é exatamente isso o que 2DIE4: 24 Horas no Limite, longa dirigido pelos irmãos Salomão e André Abdala, da produtora Abdala Brothers, ajuda a mostrar ao colocar essa experiência intensa no centro da narrativa.
O filme não quer apenas contar uma história sobre automobilismo; ele quer simular, com o máximo de fidelidade possível, a experiência de estar dentro de um carro de corrida. E não como metáfora: como sensação física mesmo. Ao apostar no IMAX® — este é o primeiro filme brasileiro a adotar a tecnologia — como diferencial e principal combustível, o longa transforma sua ambição técnica em parte inseparável da narrativa e da experiência do espectador.
O resultado é um híbrido que desafia classificações fáceis. Mais do que documentário, o filme se estrutura como uma espécie de ficção sem roteiro, construída a partir da realidade bruta captada durante as 24 Horas de Le Mans. A câmera não apenas observa — ela participa, ou melhor, nos convida a participar. Ao acompanhar o piloto Felipe Nasr em tempo real, o filme elimina a distância tradicional entre espectador e personagem, substituindo explicações por imersão. Não há entrevistas, contextualizações didáticas ou respiros: tudo é urgência, decisão e consequência.
Essa abordagem encontra sua forma mais potente na maneira como o filme lida com imagem e som. A escolha de filmar com câmeras de cinema tratadas como se fossem equipamentos de ação — quase como GoPros de altíssimo nível — cria uma estética paradoxal: ao mesmo tempo crua e extremamente sofisticada. Já o desenho de som, pensado milimetricamente para salas IMAX, é o que realmente completa a experiência. O engenheiro fala “atrás” do espectador, o motor vibra ao redor, e cada mudança de marcha ou batida é sentida. Não é exagero dizer que o filme funciona tanto com os olhos quanto com o restante do corpo.
Mas o que impede 2DIE4 de se tornar apenas um exercício técnico é seu eixo humano. Ao mergulhar na mente de Nasr, o filme revela um protagonista movido por obsessão, disciplina e, principalmente, resiliência. A corrida deixa de ser apenas um evento esportivo e passa a ser um campo psicológico, onde o limite físico se mistura ao emocional. O momento em que tudo parece prestes a desmoronar é também quando o filme encontra sua maior força dramática.
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