Você acredita no acaso? Já encontrou alguém na rua que não via há anos, justamente no dia em que estava pensando nessa pessoa? Já tomou uma decisão “do nada” que mudou o rumo da sua vida? Já sentiu que certas coisas “simplesmente acontecem”, “sem explicação”, “sem lógica”, “sem planejamento”, mas que acabam funcionando melhor do que qualquer estratégia meticulosamente traçada?
Se sim, você entende Yago Oproprio. Porque essa espontaneidade, esse deixar as coisas acontecerem, esse confiar no acaso como método, é algo recorrente na carreira do rapper paulistano de 28 anos. Não é preguiça. Não é falta de profissionalismo. É filosofia de vida. É aceitar que nem tudo precisa ser controlado. Que, às vezes, o melhor caminho é aquele que você não viu vindo.
E foi exatamente assim que nasceu À La Carte, a nova mixtape que chegou nesta quinta, em 21 de maio, pela SomLivre. Não foi planejada. Não foi arquitetada. Simplesmente aconteceu. “É o acaso, cara. O acaso, mano. Assim como tudo na minha vida”, conta Yago em entrevista à Rolling Stone Brasil.
Para entender À La Carte, é preciso voltar um pouco no tempo. Julho de 2024. Yago lançou Oproprio (2024), seu álbum de estreia. O disco explodiu, conectou pessoas, virou trilha sonora de vidas inteiras. “As pessoas se viram naquelas letras, naquelas melodias, naquelas histórias. Ver o trabalho envelhecer e as histórias tomarem dimensões é bom, né? As pessoas sentirem cada vez mais as canções nos shows, se conectarem com a vida de um monte de gente. Puxa, muita coisa mudou, cara. Muita coisa mudou”.
E não foi só o trabalho que envelheceu. Yago também. De lá para cá, em quase dois anos, a vida inteira se reconfigurou: casamento, implante de cabelo e — talvez o mais significativo — paternidade. Essa última mudou tudo. “Com certeza. Acho que eu tô mais responsável. Acho que, na vida no geral mesmo, não só no jeito de fazer música”.
Ser pai é uma sensação que ele diz não ter como explicar. Uma vida ali que importa mais do que a sua própria. Forte demais. Transformador.
“Se eu sou tão eu, a minha arte é tão eu, e eu sou tão ela, é impossível não mudar. Conforme a gente muda, tudo também muda”.
E agora volta. Com À La Carte, uma mixtape de sete faixas, 15 minutos de música. Um projeto menor, mas não menos importante. “É muito mais legal lançar um projeto de 15 minutos, né? Do que três, quatro singles”.
Lançar um projeto depois de O Próprio poderia ser um peso. A barra ficou lá em cima. O álbum explodiu, mas, para o rapper, não: “Eu vou dizer que não, porque esse projeto tá tão lindo quanto”.
E não é arrogância. Ele sabe o que fez. Sabe que, musicalmente, não perde nada. Claro que uma mixtape é diferente de um álbum. O álbum tem conceito que vai além da estética, além do “invólucro”. Tem linha narrativa que se continua. A mixtape é mais frouxa nesse sentido. “Mas, musicalmente, não se perde nada. Eu acho que até tô descobrindo lugares novos, velhos lugares novos meus”.

O novo projeto
À La Carte nasceu do acaso. Puro acaso. Yago tinha recortes aqui e ali: faixas soltas, antigas, não lançadas, composições de 2018, de 2021, músicas que voltavam para assombrar a memória de tempos em tempos. “E elas foram se juntando naturalmente até formar esse projeto”. Mas não tinham forma. Não tinham conceito. Eram só músicas ali, flutuando, esperando algo que desse sentido a tudo aquilo.
Mas eram só isso: músicas soltas. Sem invólucro. Sem amarração. E foi aí que entrou a SomLivre, produtora. Porque o acaso trouxe as músicas, mas foi a produtora que deu forma. Na primeira reunião de alinhamento criativo, a equipe trouxe um conceito que amarrava tudo: um restaurante. Cada música seria um prato. Cada prato, uma mesa. Cada mesa, uma história. Yago pirou. “Putz, que ideia legal, né? Quando eles me passaram isso, eu pirei”.
A mixtape tem atmosferas diferentes, sabores distintos, mas precisava de algo que unisse tudo sem forçar uma narrativa que não existia. “A ideia do nome veio desse lugar de cardápio e fez muito sentido para mim”. As músicas já estavam lá, mas foi o conceito que fez tudo fazer sentido.
Sobre elas, “O Meu Melhor” fala de intimidade. “Hong Kong” mistura malandragem com romantismo. “O Mais Novo Malandro do Centro” desenha a boemia do centro de São Paulo com traços de autoconhecimento e descontrole. “Encruzilhada” canta as idas e vindas de relacionamentos que insistem em existir. “O Jeito Que Cê Gosta” encerra com leve conformidade diante de términos inevitáveis.
São histórias dele — mas também não são. São histórias de quem já se viu em situações parecidas. “Eu faço músicas a partir de dores e vivências que são minhas, mas também são de outras pessoas. E, quando a música é lançada, ela deixa de ser minha e passa a ser de quem ouve”.
Mexendo os pauzinhos
Yago não sabe exatamente o que vem depois — nem se um próximo álbum está chegando. Segundo ele, “Vou começar as sessões de estúdio em breve. Daí vai sair coisa boa, mas não sei o quê”. É melhor que não saiba; afinal, essa é a filosofia dele.
“Eu costumo nunca saber exatamente o que fazer e, ao mesmo tempo, ter certeza do que estou fazendo”.
Parece contraditório. Mas não é. É o acaso funcionando. É deixar a vida acontecer e pegar carona nela. É abrir mão do controle sem abrir mão da direção. É confiar que tudo vai dar certo.
À La Carte é exatamente isso. Uma foto de um momento. Uma captura de um instante pós-álbum, dois anos depois, com a vida toda diferente. “Ela representa uma foto de um momento que é esse momento de agora. Esse ponto final de uma nova linha”.
“Essa mixtape vem num momento muito bom. Eu estou feliz com o que a gente construiu. Ela já aponta novos caminhos, é um encerramento, mas, ao mesmo tempo, anuncia o que vem pela frente”.
Se o acaso existe, ninguém sabe. Mas Yago Oproprio age como se existisse. E parece que funciona. Simples assim.
