Pela primeira vez desde 1994, a Copa do Mundo da FIFA voltará à América do Norte. A organização compartilhada entre Estados Unidos, Canadá e México deveria ser uma celebração do crescimento continental do futebol e do poder unificador do esporte mais popular do mundo. Mas isto é 2026, e Donald Trump está no comando.
O torneio acontece em meio a um cenário de nativismo violento imposto à força e intervencionismo estrangeiro por parte dos Estados Unidos. O governo Trump transformou políticas anti-imigração em uma máquina mortal de vigilância e deportação, além de impor restrições severas a viagens e turismo vindos de países de maioria negra e muçulmana. Atualmente, o governo trava uma guerra contra o Irã — um dos países classificados para o torneio — e provoca uma escassez global de combustível que elevou drasticamente os custos de viagem e logística antes da competição.
Os países estão sendo encurralados, grupos de direitos humanos estão preocupados e torcedores cogitam viajar apenas para o Canadá ou o México — ou até ignorar completamente a Copa do Mundo — para evitar possíveis encontros com um governo que parece decidido a usar estrangeiros como exemplo.
A Copa do Mundo sempre esteve cercada por certo grau de turbulência política e oposição; é impossível reunir dezenas de países no mesmo evento sem algum tipo de tensão geopolítica. O escrutínio aumentou depois que os dois últimos torneios aconteceram no Qatar e na Russia, países conhecidos por históricos notoriedade em violações de direitos humanos. A FIFA talvez esperasse que levar o torneio de 2026 para a América do Norte ajudasse a amenizar sua reputação instável, mas o retorno de Trump apenas trouxe mais controvérsia.
Este talvez seja “o pior momento para os direitos humanos nos Estados Unidos, talvez desde o Movimento dos Direitos Civis”, afirmou Jamil Dakwar, diretor do Programa de Direitos Humanos da American Civil Liberties Union, à Rolling Stone em entrevista sobre o monitoramento do grupo em relação ao torneio. De cima a baixo, a ACLU e uma coalizão de organizações de direitos humanos, direitos civis e imigração tentam pressionar o governo, a FIFA e os organizadores locais a, como Dakwar define, “levar a sério sua responsabilidade de garantir que os direitos básicos das pessoas sejam protegidos — sejam viajantes e torcedores, repórteres cobrindo os eventos esportivos ou manifestantes que desejem protestar dentro dos seus direitos previstos pelas leis dos EUA e pelo direito internacional dos direitos humanos”.
Desde o retorno de Trump ao poder, o endurecimento da política migratória levou à detenção arbitrária de portadores legais de visto e residentes por longos períodos. O sistema rapidamente expandido de centros de detenção usados para abrigar o crescente número de imigrantes detidos é desumano e cada vez mais letal, e o governo Trump parece acreditar que pode agir sem consequências, independentemente da lei. Em meio à repercussão, o novo secretário do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos — o ex-senador de Oklahoma Markwayne Mullin — fez questão de tranquilizar o público ao afirmar que, embora o ICE esteja presente como reforço de segurança em eventos ligados à Copa, os agentes não estarão lá para “sair prendendo pessoas em massa”.
Alemanha, França e Irlanda emitiram alertas sobre a possibilidade de violência em resposta aos protestos ocorridos em Minnesota no início deste ano, nos quais agentes de imigração atiraram e mataram dois cidadãos americanos. A França orienta viajantes “a evitar gestos bruscos ou agressivos e elevar a voz ao falar com autoridades policiais americanas”. A Austrália alertou turistas de que autoridades americanas podem tentar “inspecionar aparelhos eletrônicos, e-mails, mensagens de texto ou contas em redes sociais” e que “participar de protestos ou manifestações (inclusive online) pode ser considerado violação de status migratório e motivo para deportação ou recusa de visto e/ou pedidos de imigração”. A Nova Zelândia elevou seu nível de ameaça para cidadãos que visitam os Estados Unidos, alertando para risco maior de ataques em massa e incidentes terroristas vindos tanto de ameaças domésticas quanto internacionais.
As recomendações de países que atualizaram suas orientações geralmente giram em torno de garantir que visitantes carreguem comprovantes de identidade e situação legal o tempo todo, caso encontrem autoridades migratórias. Algumas nações também foram afetadas pela onda isolacionista americana e viram seus cidadãos simplesmente proibidos de viajar aos Estados Unidos. Sob as restrições ampliadas de viagem do governo Trump, visitantes de quase 40 países passaram a estar sujeitos a proibições totais ou parciais de entrada.
As preocupações com viagens são particularmente intensas entre possíveis visitantes da África e do Oriente Médio. A Copa do Mundo ampliou o número de participantes neste ano, e a África enviará 10 países classificados pela primeira vez na história do torneio. Ebenezer Obadare, pesquisador sênior de Estudos Africanos do Council on Foreign Relations, lamenta à Rolling Stone que, em vez de a Copa ser cercada por uma narrativa sobre o crescimento do esporte e o aumento do nível técnico entre continentes, o evento esteja dominado pela “incerteza” em torno das viagens e do governo Trump. “É extraordinário”, afirma.
Obadare relata que muitos torcedores africanos interessados em acompanhar os jogos estão considerando assistir às partidas no México em vez dos Estados Unidos. “Eles dizem: ‘Esta é a primeira vez na minha vida que tenho essa oportunidade, e o México não transmite a mesma vibe que os EUA estão transmitindo. Então vamos todos para o México’, e ‘Se não der para ir ao México, vamos para o Canadá.’”
Esses riscos, somados às restrições ampliadas de viagem, estão “tornando a Copa do Mundo menos universal, menos aberta e acolhedora”, diz Dakwar. “O governo Trump demonstrou repetidamente sua intenção de violar direitos humanos sem qualquer responsabilização. Mas a FIFA não revogou, até onde sei, seu compromisso com os direitos humanos.”
A Amnesty International, uma das principais organizações globais de direitos humanos, também publicou seu próprio alerta de viagem, advertindo sobre “fiscalização migratória violenta e inconstitucional, incluindo perfilamento racial”, repressão à liberdade de expressão, revistas invasivas e “grave risco de tratamento cruel, desumano ou degradante e, em alguns casos, morte, em centros de detenção migratória ou sob custódia”.
Daniel Noroña, diretor de advocacy da Amnesty International para as Américas, enfatiza à Rolling Stone que, em resposta a preocupações anteriores sobre o histórico de direitos humanos de países-sede, a FIFA assumiu compromissos públicos que é obrigada a cumprir. Em 2017, a entidade máxima do futebol ratificou sua primeira “Política de Direitos Humanos”, que determinava que direitos humanos e civis fossem considerados na escolha dos países-sede, criava mecanismos de denúncia para supostas violações relacionadas à Copa do Mundo e incentivava o desenvolvimento de estratégias para proteger “direitos trabalhistas, combate à discriminação, liberdade de imprensa e liberdade de expressão”.
“Quando nos reunimos com a FIFA e com cidades-sede, e eles dizem que estão fazendo tudo o que podem para obter garantias de que certos cartazes e determinadas mensagens não serão proibidos por agentes de segurança nos estádios, não há nenhuma certeza, da nossa parte, de que isso realmente será implementado”, acrescenta Noroña sobre a real falta de mecanismos de fiscalização.
Ele aponta para a perseguição do governo a manifestantes e defensores da causa pró-Palestina, que foram detidos por agências de imigração apesar de possuírem status legal. “O que acontece se alguém entrar no torneio com uma bandeira palestina? A Palestina é, na verdade, membro da FIFA, porque é uma entidade nacional, então isso está [teoricamente] protegido neste momento.”
“A FIFA tem bastante margem de manobra para pressionar o governo a flexibilizar certas regras para que o torneio aconteça normalmente, mas não vimos isso de fato”, acrescenta.
Na quarta-feira, o governo Trump anunciou que abriria mão de cauções de visto consideradas caras (algumas chegando a US$ 15 mil por pessoa) para solicitantes de países com seleções classificadas para a Copa do Mundo, incluindo Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Senegal e Tunísia.
O anúncio veio em meio à preocupação internacional sobre a possibilidade de que as rígidas restrições de viagem fossem aplicadas também às seleções e suas equipes de apoio. A Casa Branca também negou que integrantes da seleção nacional de futebol do Iraque tenham tido vistos de entrada recusados. Solicitantes de países do Oriente Médio, incluindo Turquia e Jordânia, relataram dificuldades para atravessar o burocrático processo de aprovação.
Segundo uma reportagem publicada em abril pelo The New York Times, um conselheiro de Trump tentou pressionar o presidente e a FIFA a substituir o Irã pela Itália — que não se classificou para o torneio — poucas semanas antes do início da competição. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, afirmou repetidamente que o Irã não será excluído do torneio apesar das hostilidades em curso com os Estados Unidos.
Na visão de Obadare, a FIFA e Infantino caminham em uma linha delicada diante do governo Trump. “O que eu faria se fosse o presidente da FIFA, preso entre o diabo do presidente Trump e a necessidade de organizar um torneio bem-sucedido?”, questiona. Um Trump irritado poderia retirar vistos de países sem dar muita importância à posição da entidade sobre o assunto. “Eu não consigo prever esse homem, certo? Então o que eu faço? Dou a ele esse troféu especial. Puxo o saco dele”, acrescenta, referindo-se ao controverso “Prêmio da Paz” da FIFA concedido por Infantino a Trump em 2025.
Todos esperam que a Copa do Mundo seja um mês bem-sucedido, com excelente futebol e um ambiente seguro para torcedores e jogadores dentro e fora de casa. Na visão de Obadare, o governo Trump está projetando suas “ansiedades sobre imigração e religiões [não cristãs]” em um evento esportivo global que historicamente sempre serviu como espaço de intercâmbio cultural. A maior parte da apaixonada torcida do futebol — e de sua cultura histórica de torcedores — existe fora dos Estados Unidos. Considerando a atual instabilidade do país, especialmente no que diz respeito aos imigrantes, muitos dos fãs que “vão dançar, gritar, cantar e contribuir para a energia da atmosfera” serão justamente aqueles que permanecerão em casa.
