Em algum momento por volta de 2018 ou 2019, Wiu fez uma pergunta para Matuê: “Cara, será que um dia essa parada que a gente gosta de fazer, essa parada que a gente gosta de ouvir, vai ter um festival disso aqui no Brasil?” A resposta chegou alguns anos depois, na forma do Plantão Festival — que neste sábado, 25, realiza sua terceira edição no Marina Park, em Fortaleza, celebrando ao mesmo tempo os dez anos da 30PRAUM, a gravadora fundada por Matuê e Clara Mendes que se tornou o principal polo independente do trap e do hip hop brasileiro. Wiu e Teto estão no lineup e se apresentam juntos, com um show inédito construído em torno de Colapso Global (2026), o álbum colaborativo que lançaram neste mês.
Colapso Global é um projeto que mistura house music, jazz, bossa nova, funk carioca e trap num mesmo espaço — 11 faixas que os próprios artistas descrevem como um “manifesto sonoro”, construído sem amarras de mercado e com participações de Don L, Yuri Redicopa, Franco, The Sir! e Melissa Hartman, entre outros. O álbum nasceu de uma parceria que vai muito além do estúdio: Teto e Wiu são amigos, vizinhos de label e, agora, parceiros de show. Montar o setlist foi um processo de negociação — às vezes intensa — sobre quais músicas entram e quais ficam de fora. “Toda vez que a gente faz isso, tem briga entre nós”, brincou Teto. “Brincadeira! Briga não, mas tem discussão.”
O Plantão tem um peso especial para os dois. Wiu cresceu vendo o festival se tornar o maior evento de trap do Norte e Nordeste e sente que se apresentar em Fortaleza é um ato de devolução — a cidade que sempre compareceu com calor e amor, e para a qual qualquer show é “1% da vontade de devolver o que a cidade já me inspirou.” Teto, por sua vez, revela que mora pouco no imaginário de Fortaleza, apesar de ter vivido dois anos na cidade no início de sua carreira. “Pouca gente sabe”, disse ele. Para ambos, o contexto dos dez anos da 30PRAUM transforma a noite de sábado em algo reflexivo: um olhar para músicas feitas sobre o futuro, realizadas agora dentro do presente que elas imaginavam.
A Rolling Stone Brasil conversou com Teto e Wiu nos dias que antecederam o festival sobre a expectativa para o show, a construção do setlist, o papel deles na cena e o que vem por aí depois do Plantão. A conversa está a seguir.
O que significa, para vocês, estar no lineup do Plantão Festival, especialmente nesta edição que celebra os 10 anos da 30PRAUM?
Teto: Eu, por mim, posso responder assim, na minha parte: é muito, muito massa poder estar em mais uma edição, concretizando o nosso movimento do Nordeste ali, tá ligado?
Ainda mais junto com meu irmão, Wiu, já que é um show em conjunto, e neste ano a gente fez um álbum junto agora há pouco. Eu fico feliz, cara, porque, a cada ano, quando tem uma oportunidade de elevar o nível, tá ligado, da parada, tanto com o show quanto com a entrega, quanto com a dimensão, a proporção que esse festival pode estar atingindo e tudo mais, eu fico feliz. Então, basicamente, eu acho que é isso para mim, cara.
Wiu: Eu acho muito massa. Tipo, há um bom tempo, eu não sei nem dizer o ano, cara, mas algo por volta de 2018, 2019 ali, eu tive uma conversa com o Matuê e falei, tipo assim: “Cara, será que um dia essa parada que a gente gosta de fazer, essa parada que a gente gosta de ouvir, vai ter um festival disso aqui no Brasil?”.
E eu acho muito massa ver o quanto andou. Então, para mim, todo Plantão é um clima de celebração, sabe? Parece que eu tô dando uma festa na minha casa. É muito feliz, é muito massa.
Você acabou de falar que é o mesmo sentimento de “estar dando uma festa em casa”. Rola um sentimento diferente quando vocês se apresentam lá em Fortaleza, no Nordeste?
Teto: Para mim, é a mesma fita. Eu sou um cara que, eu acho que, da 30PRAUM, eu sou o que menos tocou em Fortaleza até hoje, digamos assim. Acho que, se eu toquei em Fortaleza, foi no Plantão, na última edição, e fiz um show, acho que ano passado, tá ligado?
Duas ou três vezes, no máximo. Então, para mim, é uma expectativa grande poder encontrar esse público, que é fiel, que fomenta o nosso bagulho, de onde a gravadora veio, de onde o nosso bagulho tem toda a força de início, e de onde também eu morei um bom tempo da minha vida. Pouca gente sabe, mas eu me mudei para Fortaleza bem no começo da contratação e morei dois anos aí. Então, eu tenho um carinho muito grande por esse lugar, mano. Absurdo.
O Plantão, pelo menos no material que eu recebi, diz que é um evento que “reúne artistas que ajudam a definir os rumos da cena atual”. Como vocês se enxergam nesse papel?
Wiu: É muito legal ver a quantidade de vezes que fazem essa pergunta, em momentos diferentes da cena, né? Eu acho que, quando a gente fala da cena, eu enxergo muito uma parada que tem vida própria, sabe? Que tem caminhos nem um pouco previsíveis, e o que vai acontecendo a cada ano vai gerando esse desenho, vai gerando essa obra, essa história sendo escrita.
E eu acho que o que permanece muito forte no meu coração, em todos os momentos em que essa pergunta é feita, é que não é só uma responsabilidade, como também uma alegria muito grande ver que tem gente que se inspira em mim e vê que algo é possível, tá ligado? Que vencer um obstáculo é possível. Que criar é possível. E viver da sua arte também. Eu acho que nós, da 30PRAUM em geral, somos ótimos exemplos do que acontece quando você acredita, com a quantidade de fé certa, num sonho. Cara, para mim, é isso. Eu fico muito, muito feliz e, ao mesmo tempo, tento tomar como uma responsabilidade, sim. Mesmo que, quando eu tô criando, eu não leve isso comigo, eu acho que, no meu dia a dia, o que eu posso fazer aqui pode ser um bom caminho, um bom exemplo. Pode ser uma mão que eu estendo a alguém, tá ligado? Pode ser uma ponte que a minha arte vira para que alguém chegue no lugar certo, tá ligado? Isso é massa.
Teto: Eu também acredito que isso é uma frase que todo artista que vai tocar nesse palco, com certeza, tem para si, tá ligado? É uma frase que, tipo assim, se o cara não tiver e não fizer esse esforço para se reinventar, para acreditar que é capaz de ser o precursor, de ditar os caminhos da cena e tudo mais, a gente não tem uma cena que evolua. A gente tem uma cena que fica estagnada, tá ligado? Então, eu levo essa frase como um chamado para geral mesmo, tá ligado?
Agora, falando do show em si: como vocês fazem para montar a lista de músicas? Como vocês decidem que música entra e que música fica de fora?
Teto: Difícil, hein, véi? Eu vou falar a verdade para você: toda vez que a gente faz isso, tem briga entre nós… brincadeira! Briga não, mas tem discussão. A gente fica tipo assim: eu, particularmente, inclusive, gosto de muita música do Wiu. Eu fico dando palpite para ele botar no show e ele não quer, e aí rola essa parada às vezes. Mas, óbvio, com respeito, tá ligado?
Wiu: Eu acho que tanto eu quanto o Teto, a todo momento, a gente pondera, inicialmente, o quanto a gente gosta daquela música e o quanto a gente vai se divertir fazendo ela ao vivo. Tem música que é muito massa, mas, tipo assim, ao vivo eu penso: “Caraca, eu não quero deixar de tocar essa aqui para botar essa aqui”, tá ligado? Então, eu equilibro muito isso.
Na minha cabeça, eu vejo muito uma parada de diversão. Então, eu quero tornar o show divertido para mim, porque eu acho que, quando o show é divertido para mim, ele é muito divertido para quem tá lá. As pessoas se conectam com essa energia. Não tem outro jeito mais literal de explicar, tá ligado? As pessoas literalmente se conectam com a nossa energia.
Então, independente do momento ali, a gente fica vendo qual é a música certa. Eu mando ideias para o Teto, a gente troca ideia com os nossos músicos também para tentar montar esse mundo que represente um Colapso Global, essa pluralidade absurda que tem dentro da minha carreira e dentro da carreira do Teto, tá ligado? Esse monte de diferença.
Teto: Que, inclusive, foi uma missão nova para a gente montar. Você falou de lista de músicas, e esse show, por sinal, é um show completamente novo, diferente de todos os shows que eu e o Wiu já fizemos juntos. Porque é um show focado, não vou dizer apenas, mas integralmente… como é que é a palavra, mano? Integralmente, acho que é isso. Um show focado no álbum que a gente fez, sabe?
Quero dizer: a gente teve um desafio, por não conhecer como as músicas seriam recebidas, de ter esse impasse da discussão sobre qual música a gente acredita mais, qual música a gente acha que vai significar mais naquele momento do show. Então, é uma experiência nova a cada show. A gente construiu uma narrativa em que, atualmente, a gente tem sucessos e sucessos para poder escolher, colocar no show ou não. E é sempre um desafio, mano.
Tem algum artista do lineup que vocês estão a fim de ver o show?
Teto: Pô, muito, mano. Você é louco. Eu quero muito ver o show do TZ, mano.
Wiu: Mano, eu queria ver o show da Ajuliacosta e queria ver o show dos moleques todos lá: Brandão, Matuê e até os locais. Só tenho que saber os horários.
O que vocês querem sentir antes, durante e depois do show?
Teto: Eu já tô sentindo uma sensação de que esse show vai ser um show de gratidão, sabe? Até pelo marco de serem 10 anos de 30PRAUM. É um bagulho reflexivo para caralho, em que a gente se pega imaginando que, porra, a gente tem 10 anos de corre e diversas músicas em que a gente fala, a gente cita como se vê daqui a 10 anos ou como se vê no futuro.
E, assim, acredito que, para nós, 10 anos atrás, estar no Plantão hoje, realizando esse bagulho dentro da nossa casa, é um bagulho que a gente jamais imaginaria. Então, pô, eu tô grato para caramba. Eu quero que esse sentimento permaneça até o final ali. Fé em Deus.
Wiu: Mano, eu acho que o que eu quero sentir antes do show, que eu já tô sentindo, é aquele sentimento de, tipo assim, o cara que parece que vai fazer aniversário amanhã, tá ligado? Eu quero que chegue logo. Tipo, antecipação.
O que eu quero sentir durante o show, mano… quero ouvir o barulho da galera muito. Eu quero um público alto, tá ligado? Quero um público presente, bagunceiro, assim, para caramba. Eu acho que a galera tá nessa energia.
E depois, eu quero sentir o cheiro de passar na frente da Beira-Mar, ali em Fortal, mano.
Agora, uma pergunta que não tem muita relação com o show, mas hoje em dia rola muito boato na internet de que a 30PRAUM está rachada. Enquanto vocês dois estão fazendo música mais tranquila, tipo Colapso Global, o Matuê e o Brandão estão fazendo música pesada, tipo XTRANHO. Eu queria saber como vocês recebem esse rumor.
Teto: A 30PRAUM tem quatro artistas com potencial absurdo, individualmente, tá ligado? E cada um com uma narrativa muito forte da sua carreira, em que cada um sabe aonde quer chegar. O Wiuzin desde o começo; eu também; o Brandão também já veio com uma energia muito forte, carregando; e o Tuê é um cara que sempre está aí se reinventando, né? Desde o lançamento, sempre fazendo uma nova narrativa para a sua história.
Quero dizer que a gente tem uma parada muito forte, que não dá para a gente negar mesmo, sabe? Então, esse lance de o Brandão estar fazendo tal tipo de música, eu estar fazendo outro tipo, o Wiu outro tipo, é a resposta disso: a gente está se experimentando, se conhecendo. A gente está num momento de carreira também que eu diria confortável, sabe? Diferente do começo, em que a gente conquistou muita coisa, e em que a gente tem a oportunidade de parar e poder construir novamente, ver tudo o que foi feito.
E é isso que vem acontecendo ultimamente. Assim, pô, cada um tem sua carreira, com seus funcionários individualmente na estrada, seus shows mensais, suas entregas, sabe? Suas vontades. Eu também tenho minha família atualmente, sou pai. E a gente vem aprendendo muita coisa um com o outro, mas cada um vivenciando a sua experiência única, né? Vamos dizer assim.
Wiu: Eu acho que isso sempre foi uma questão muito natural, mano, para a gente também, tá ligado? Tipo, nunca foi algo… É muito doido você ver esses rumores, né? Os rumores provam que existe um mistério por trás da coisa ainda, e eu fico muito feliz com isso. Mas é muito doido, porque entre nós nunca existiu essa discussão, sabe? Eu sempre vi todo mundo que tava ali, ou que foi entrando para dentro daquele ambiente da gravadora, fazendo um milhão de coisas malucas que nunca lançaram, tá ligado? Fico até meio puto com meus amigos, assim, porque os caras têm umas que não lançam. Mas eu acho que a verdade é que, dentro da 30, mano, até pela quantidade muito seleta de artistas, que é notável quando você compara com vários outros lugares, assim… Nós somos tipo assim, mano… O Teto, tá ligado? Uns bichos já muito avançados de ouvido, assim, eu acho. A gente escuta muita coisa, tá ligado? Tanto eu quanto o Brandão, o Matuê, o Teto… A gente escuta todo tipo de música, a gente sabe.
Tipo assim, você pega as playlists do Spotify de cada um, e a gente sabe curtir tudo o que tem de bom na arte, na música, tá ligado? A gente tem um gosto muito, muito seleto.
Teto: Cada um tem suas referências muito fortes, né?
Wiu: É, e é exatamente nisso que eu ia concluir, mano. Por causa disso, eu sinto que a gente tem o nosso jeito de dar a nossa visão de vida ali, a nossa mensagem, a nossa arte, só que cada um tem uma escola diferente.
Eu acho isso muito foda. Tipo, eu tenho muita brisa ali da coisa latina e tal, do negócio. Tipo assim, do forró, conversa bem com a minha parada. O Teto gosta muito de ouvir afrobeat, tá ligado? De house também, assim, música baiana. O Tuê brisa nos bagulho meio indie, assim, tá ligado? Então todo mundo tem meio que a sua maneira de se comunicar. Mas, de ouvir mesmo, a gente nunca teve essa loucura não, tá ligado? Se a galera visse o quanto que, fora do palco, a gente sempre deixa claro para o outro o quanto a gente é fã um do outro, a galera ia mudar de ideia completamente.
Para encerrar: o que a gente pode esperar de cada um de vocês para depois do Plantão?
Teto: Eu já falei na minha rede social, mas eu tô trabalhando. Não tenho previsões de lançamento ou datas, mas estou explorando um novo disco, mano, e fazendo um bagulho único para mim, para a cena, para a minha carreira também, sabe? Então, prometo um bagulho daí logo mesmo.
Wiu: Cara, eu tô num momento em que eu tô fazendo muita música. Acho que as melhores que eu já fiz, obviamente. Mas tô buscando absorver o máximo de essência do que tá na cultura que permeia a rua, tá ligado? De toda a maneira como a minha influência, o que eu gosto e o que eu escutava quando eu era pivete, de como isso conversa. Eu tô nesse momento absorvendo muito, vivendo muita coisa também, tá ligado? Mas acho que, com certeza, o meu foco no momento é o show no Plantão.
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