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‘Reign in Blood’: uma autópsia da obra-prima do Slayer e do thrash metal

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O ano de 1986 foi o epicentro do thrash metal. Diversos expoentes do gênero contribuíram com álbuns que se tornaram clássicos — de Master of Puppets, do Metallica, a Pleasure to Kill, do Kreator, passando por Darkness Descends, do Dark Angel. Entre tantos lançamentos grandiosos, porém, nenhum foi tão cirúrgico, violento e transformador quanto Reign in Blood, do Slayer. Insuperável em sua velocidade, brutalidade e morbidez, o terceiro disco da banda de Los Angeles (EUA) é o manifesto definitivo do estilo.

Para compreender o impacto de Reign in Blood, é preciso resgatar o cenário fonográfico de meados dos anos 1980. O thrash emergia do circuito de fitas cassete para o mainstream, liderado por Metallica e Megadeth, mas o Slayer continuava caminhando na direção oposta à domesticação comercial.

Nada de aliviar seu repertório com introduções acústicas, mudanças de andamento pretensiosas ou melodias mais acessíveis. Kerry King (guitarra), Jeff Hanneman (guitarra), Tom Araya (baixo/vocal) e Dave Lombardo (bateria) mantiveram-se radicais — atrelados às raízes do movimento —, privilegiando agressividade, contestação e raiva de espírito.

Com apenas 28 minutos e 55 segundos, distribuídos em 10 faixas implacáveis, Reign in Blood alcançou o que havia de mais urgente e cruel em termos de riff, bateria e vocal. Apesar de levar todos esses elementos às últimas consequências, o conjunto da obra funciona de forma rigorosamente harmoniosa, num encaixe meticuloso de fúria e rara precisão.

A própria intensidade do álbum denuncia que não há excessos ou acomodação. Só entraram as composições mais inspiradas, executadas à perfeição.

Uma análise de ‘Reign in Blood’, do Slayer

Em seguida, o entrosamento milimétrico entre as guitarras de Hanneman e Kerry King em faixas como “Piece by Piece”, “Necrophobic” e “Altar of Sacrifice” funcionam como um rolo compressor contínuo na metade inicial do disco, sem espaço para massagem. Seus riffs imponentes e solos caóticos, caracterizados pelo uso da alavanca de trêmulo e por digressões atonais, mimetizam o pânico e o desespero da guerra, tal como na arte do australiano Larry W. Carroll para a capa, uma espécie de Guernica blasfema adaptada para o submundo de Satã.

Se no debut Show no Mercy (1983) Jeff Hanneman e Kerry King ainda estavam completamente imersos em Iron Maiden, Judas Priest e Mercyful Fate, aqui a dupla praticamente ignora as melodias do heavy metal tradicional europeu e injeta o ímpeto herdado do hardcore/punk de bandas como Verbal Abuse, D.R.I. e Minor Threat, devidamente homenageadas 10 anos depois no disco de covers Undisputed Attitude (1996).

“Criminally Insane” e “Postmortem” também são exemplos valiosos dessa predileção por temas que envolvem disfunções mentais e crimes motivados pelo fascínio macabro diante da morte. Qualquer correlação com o desenrolar de gêneros ainda mais perversos, sobretudo o death metal, não é mera coincidência. O legado de Reign in Blood para a ramificação e compreensão da música extrema é incontornável. Bandas seminais como Possessed, Death, Morbid Angel, Autopsy e Cannibal Corpse foram e serão eternamente tributárias ao Slayer dessa fase — incluindo o antecessor Hell Awaits (1985).

O ápice conceitual do disco vem em seu encerramento com “Raining Blood”. A introdução com o som de uma tempestade e três pancadas isoladas no tom da bateria prepara o terreno para um dos riffs mais famosos da história do thrash metal. A música sintetiza a atmosfera apocalíptica do trabalho, culminando em um colapso que simula uma chuva infernal antes de silenciar abruptamente. Em Still Reigning, DVD lançado em 2004, a banda fez questão de realmente fazer “chover” sangue no palco para celebrar a execução na íntegra de sua obra-prima.

Produtor inesperado

A gênese de Reign in Blood também está intrinsecamente ligada à parceria com o produtor Rick Rubin e a gravadora Def Jam Recordings. Rubin eliminou os excessos de reverberação comuns na época, “limpando” o som das guitarras e destacando a bateria, o que resultou em um impacto sonoro sem precedentes no underground do metal.

O peso e a violência das palhetadas continuaram lá, mas de forma cristalina. Dessa forma, foi possível ouvir detalhes e nuances que, muitas vezes, se perdiam em meio ao caos de informações.

Repercussão

Lançado em 7 de outubro de 1986, Reign in Blood quebrou barreiras e alcançou a 94ª posição das paradas americanas mesmo sem grande apoio das rádios ou da MTV. Aclamado como um lançamento brutal, porém cativante em sua beleza funesta, o álbum forçou até mesmo a crítica dita especializada a olhar para a ala radical do thrash metal não como uma piada barulhenta, mas como movimento estético legítimo, capaz de dar significado artístico à sua produção.

Quatro décadas após o parto, o suposto filho bastardo na verdade reina absoluto no império do thrash metal. Não há semelhantes, apenas súditos perante Reign in Blood, e talvez somente o Sepultura no auge — Beneath the Remains (1989) e Arise (1991) — tenha esboçado algum tipo de ameaça ao trono do Slayer.

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