Poucas conquistas da história do futebol brasileiro são tão lembradas quanto o tetracampeonato mundial conquistado nos Estados Unidos, em 1994. Mas para o diretor Luis Ara, responsável pelo documentário Tetra: Acreditar de Novo, que chega ao catálogo da Netflix neste domingo (7), revisitar aquela campanha significava ir muito além da famosa disputa de pênaltis contra a Itália. Confira a conversa completa a seguir:
“A equipe foi o que fez ganhar essa Copa”
Em entrevista concedida com exclusividade à Rolling Stone Brasil, Ara confessou que a história lhe revelou muito mais camadas do que imaginava inicialmente: “Quando você começa a pesquisar, a mergulhar dentro da história, começa a encontrar muitas tramas que fazem que seja uma história apaixonante“.
O documentário combina depoimentos dos campeões brasileiros com imagens inéditas registradas pelos próprios jogadores durante a Copa. O material foi gravado principalmente pelo goleiro Gilmar Rinaldi e pelo lateral Jorginho, que documentaram o cotidiano da seleção longe das câmeras de televisão.

Conhecido por trabalhos como Ronaldinho Gaúcho, Para Sempre Chape, Brasil 2002: Bastidores do Penta e Higuita: El Camino del Escorpión, Ara revelou que uma das principais diferenças entre contar a história do tetra e realizar documentários centrados em figuras individuais foi justamente descobrir, ao longo do processo, quem realmente seriam os protagonistas da narrativa.
“O ponto de partida é totalmente diferente quando você tem que centrar a história em um só personagem e quando vai contar a história de uma equipe“, explicou. “Você pode ter uma ideia prévia de quem deveria ser esse personagem principal, mas até que você não comece a falar com todos, você não sabe exatamente quais serão os personagens mais importantes para a história.“
Embora nomes como Romário, Bebeto e Dunga sejam naturalmente associados ao título, o diretor destaca a importância de personagens menos lembrados pelo público.
“Tem alguns personagens no filme que talvez você não falaria de imediato. Jorginho, Gilmar, Ricardo Rocha. São personagens super importantes para a história que contamos. Alguns pelo que faziam dentro de campo, outros pelo que faziam fora dele e, no caso de Jorginho e Gilmar, porque tinham essas fitas com arquivos inéditos.“

Dar voz aos rivais
Outro aspecto que chama atenção em Tetra: Acreditar de Novo é a presença dos adversários. Além dos brasileiros, o filme reúne depoimentos de jogadores italianos, holandeses e norte-americanos que enfrentaram a seleção ao longo do torneio.
Segundo o diretor, ouvir quem perdeu era fundamental para compreender o tamanho da conquista. “Quem ama o esporte sabe que se perde muitas mais vezes do que se ganha“, afirmou. “A visão de quem perde também é importante por dois motivos: para compreender o peso da derrota e para acrescentar valor ao triunfo.“
Ara lembra que muitos daqueles jogadores carregam até hoje as marcas de terem ficado tão próximos da glória. “Os italianos falam algo muito interessante: ‘Nós somos vice-campeões do mundo e a história se esquece de nós’. Isso também é um pouco injusto. A diferença foi um pênalti.“
Para ele, trazer essa perspectiva ajuda o público a enxergar o torneio de forma mais ampla. “Faz com que a audiência pense um pouco mais no valor do triunfo e também no valor da segunda equipe, que foi a Itália nesse caso.”

A presença de Romário
Ara insistiu porque acreditava que a história só estaria completa com a presença do Baixinho. “Nós falamos para ele que não seria o protagonista. Queríamos que todos falassem. Depois o convidamos para visitar o Rose Bowl, em Los Angeles, e ele gostou da ideia.“
O resultado é uma das passagens mais emocionantes do documentário, quando Romário retorna ao estádio onde levantou a taça mais importante de sua carreira.

Momentos cruciais
Para quem não acompanha futebol ou sequer viveu a Copa de 1994, Ara acredita que o filme pode funcionar também como uma história universal sobre pessoas e emoções. Se tivesse que escolher apenas alguns minutos para convencer alguém a assistir ao documentário, ele apostaria justamente nos momentos em que os personagens deixam de falar sobre partidas e passam a falar sobre sentimentos.
“Quando você vai para o interior das pessoas que viveram isso e elas falam do que sentiram, automaticamente fica algo muito mais universal.“
Ele também destaca a célebre comemoração de Bebeto após marcar contra a Holanda, quando simulou embalar um bebê ao lado de Romário e Mazinho. “Essa cena encerra muitas coisas. Mostra um cara vivendo algo tão importante longe da família, longe de um momento tão importante como ser pai. E também dois amigos dizendo: ‘Como eu não vou comemorar com ele?‘”
O que vem a seguir?
E, pelo visto, o diretor ainda não pretende abandonar o universo esportivo. Embora não possa revelar detalhes, ele confirmou que já trabalha em novos projetos. “Tem muitas histórias para contar, inclusive não só do esporte. O Brasil tem histórias muito lindas, inspiradoras, que conectam muito com a audiência.“
Seu objetivo permanece o mesmo: permitir que o público revisite momentos marcantes do passado. “Quando alguém me agradece por ter a oportunidade de lembrar e reviver algo, para mim esse é o objetivo cumprido.“
Qual é a história de Tetra: Acreditar de Novo?
Esta é a história do Tetra, a quarta Copa do Mundo vencida pelo Brasil em 1994, contada através de seus principais protagonistas – jogadores da seleção brasileira e seus rivais – e construída a partir de material inédito de bastidores, registrado pelos próprios atletas ao longo do campeonato. É a história da conquista que marcou o retorno do Brasil ao círculo do privilégio desde a época de ouro de Pelé. Uma seleção que chegou à Copa questionada pela imprensa, desacreditada pela torcida e que, graças ao trabalho em equipe, à liderança de seu capitão Dunga e aos gols de Bebeto e Romário, conquistou o Tetra para o Brasil.
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