A próxima itinerância da banda Jovem Dionisio tem uma proposta ambiciosa, mas que promete uma experiência verdadeiramente imersiva para os músicos e o público. Ainda com datas a serem anunciadas, a turnê do álbum Migalhas será realizada em um clássico Scania anos 2000 adaptado, que serve como lar temporário, meio de transporte e palco para os artistas curitibanos.
O terceiro álbum de estúdio da banda foi lançado no começo de abril, e foi gravado e produzido em apenas duas semanas. O disco também foi registrado integralmente ao vivo, com todos os integrantes tocando simultaneamente. Vivendo juntos por um mês na Praia do Rosa, SC, para a criação do projeto, os músicos se submeteram ao conceito de “banda”: deixaram de lado a produção individual, e decidiram participar do processo criativo verdadeiramente juntos.
Após o início da nova fase de amadurecimento musical por meio de convivência, o próximo passo lógico era aumentar ainda mais o período em conjunto. Agora prontos para a itinerância no ônibus modificado, onde estarão completamente imersos no universo coletivo e na companhia uns dos outros, Bernardo Pasquali (vocal), Rafael Dunajski Mendes “Fufa” (guitarra), Gabriel Dunajski Mendes “Mendão” (bateria), Gustavo Karam “Gugo” (baixo) e Bernardo Hey “Ber Hey” (teclado) explicaram o projeto à Rolling Stone Brasil.
Em relação às mudanças na dinâmica da gravação ao vivo, todos os integrantes afirmaram sentir uma maior conexão entre si. Para Mendão, um dos maiores benefícios da composição conjunta e registro simultâneo foi a descentralização da tecnologia no processo criativo: “Optamos, realmente, por a dinâmica ditar o que poderia vir a ser o cronograma, no fim das contas. Porque, na últimas vezes, a gente tava com o processo que era mais olhando para o computador, todos reunidos assim, falando ‘O que que a gente vai gravar agora? Vamos gravar uma guitarra? Beleza, tô sentindo a guitarra aqui, vamos gravar’. Enfim, fazia alguns loops de algumas coisas e o computador acabava sendo o centro. E dessa vez a gente quis mudar isso!”.
Segundo o baterista, o fato de cada integrante se concentrar em compor sua própria linha em cada faixa também agregou à experiência de ser uma banda “à moda antiga”. “A gente tirou, basicamente, o computador do centro da sala e colocou cada um em seu instrumento gravando. E acho que o álbum resultou disso, desse processo, dessa dinâmica que foi mais de banda, de gravação ao vivo mesmo”, explicou.
Segundo Pasquali, o novo formato também reforçou a confiança entre os integrantes. O quinteto é formado por amigos de infância, que começaram a jornada musical conjunta em 2019. Mesmo muito unidos desde o início, o vocalista afirma que o processo dos projetos anteriores era baseado em um sistema de “convencimento”, no qual todos os integrantes criavam composições para todos os instrumentos. Assim, quem tivesse uma ideia gravava a linha melódica pensada, e os outros músicos opinavam apenas após a concretização musical da ideia. “Dessa vez, entendemos que esse processo antigo ele exigia muito mais tempo nosso também. Porque todo mundo aqui dentro tem muita capacidade de criação de ideias”, afirma o artista.
A mudança é nítida para o ouvinte, que consegue perceber mais detalhes em cada uma das faixas. Para a banda, a sensação foi a mesma: “Acho que isso mudou muito o som dentro também, e mudou a forma como a gente tava encarando as canções”, completa o vocalista do grupo. “Foi um processo bem mais divertido em forma de grupo e bem mais desafiador também. Eu acho que ele conseguiu dar uma profundidade maior pras músicas. Porque cada pessoa estava muito preocupada nos seus detalhes”.
A nova dinâmica, ao propor mais confiança entre os amigos, preparou a banda a dar um passo ainda maior. Assim como em uma turnê tradicional, o novo álbum será apresentado em performances pelo Brasil. A mudança está no palco e no modo de transporte, unificados em Aquiles. O novo sexto integrante do grupo é um ônibus modificado, adquirido e construído com o intuito de ampliar o acesso às apresentações e se aproximar do público. Em uma espécie de “circo sobre rodas” ou “food truck musical”, as performances se tornam uma catarse coletiva de conexão entre a banda e os fãs.
Segundo Mendão, a ideia funciona especialmente em prol da relação com o público. “O ônibus foi um fator que eu acho que aproximou bastante a gente da galera. Em um palco menor, a galera consegue ficar mais perto. Para mim, eu tenho gostado bastante. Parece que a conexão com o público consegue ver melhor a galera de perto. Sentir mais energia da turma!”
Na nova turnê, os músicos praticamente passarão por um teste de amizade. Aquiles será uma moradia conjunta temporária, e a banda irá passar horas viajando no ônibus. “Eu acredito que é bem mais intensa a convivência. A gente está começando ainda a entender essa jornada do ônibus, mas o ônibus nos gera muitos desafios. A gente tem que se adaptar a todo mundo à realidade que ele está trazendo”, afirma Ber Hey.
Além do confinamento ao espaço, os integrantes também precisam se unir para fazer escolhas nas quais nunca tinham pensado: “Onde vai ficar estacionado o ônibus? Como vai ser esse show? Acho que isso tem sido bom para a gente, estamos tendo vários papos e estamos bem próximos na hora de tomar essas decisões”, continua o tecladista. Foram poucas as apresentações com Aquiles até o momento, porém o grupo planeja ter áreas de descanso, alimentação e uma banheiro completo no ônibus/palco.
Para Pasternali, a imprevisibiladade que acompanha o modelo da turnê é uma das maiores vantagens: “ Uma das graças de show, nem falando do nosso show, mas falando de shows mesmo do mundo, é um acontecimento que se resolve somente naquele momento. Daquela forma que tiver que acontecer, com aquele público ou naquele lugar que seja. E o Aquiles tem enfatizado ainda mais esse aspecto”.
Os integrantes da banda tem se divertido com o conceito de serem um atarção de “circo”, uma itinerância que se aproxima verdadeiramente de seu público. A apresentação em Iraty foi a primeira experiência em que os músicos entenderam seu novo posto. “A gente ficou mais perto do circo, porque era onde a roda gigante ia parar. Que é um lugar bem estabilizado, retinho. A gente parou onde era a roda gigante!”, relembra Mendão.
Migalhas, além de ser um álbum audivelmente coletivo, também é sonoramente nostálgico. Ao escutar as as faixas, o ouvinte pode sentir como se já houvesse ouvido as canções em algum lugar. A sensação não vem por conta de uma falta de originalidade ou inovação, e sim pelo completo oposto. Ao tomar como referência bandas mais antigas e tornar o processo de composição processualmente individual para conseguir faixas mais intrincadas, o Jovem Dionisio criou sucessos instantâneos, faixas tão únicas que delimitaram de uma vez por todas um estilo assinatura para o grupo.
Mendão atribui o sentimento aos mesmos fatores: “Eu acho que o álbum traz um sentimento mais nostálgico. Até porque a gente trouxe bastante referências de bandas que a gente gostava desde o início que a gente começou a tocar junto”. A descentralização do computador também fez parte da criação da sonoridade nostálgica. “A gente fez tudo de forma realmente nossa, independente da gente pegando os estúdios, pegando os nossos equipamentos. Realmente remete a um som mais do jeito que era pensado antigamente”, completou o baterista.
Durante o período morando juntos na Praia do Rosa, o grupo aproveitou para achar seu “ponto de encontro”, referências comuns a todos. O processo foi essencial na descoberta da nova divisão de produção, mas também para entender como lidar com a convivência extrema. “De noite a gente se reunia para assistir o Get Back dos Beatles. E aí lá a gente viu muita coisa. Desde a sonoridade deles, e como eles faziam os estudos dos seus próprios riffs, dos seus temas dentro dos instrumentos. Mas também muita coisa de como eles resolviam os B.O.s deles, sabe? As ‘tretinhas’ internas, as faltas de respeito, o jeito que um pediu pro outro fazer um negócio que nem tá errado de pedir, mas o jeito tá errado. A gente começou a sacar muitas dessas coisas e conversar sobre elas”, afirma Pasquali.
“Invariavelmente a gente se vai levando também, por como são os processos dessas pessoas. Tanto dos Beatles, quanto Mutantes, quanto Clube da Esquina”, explica o vocalista. Assistindo ao documentário com o formato de produção da banda inglesa, os curitibanos entenderam que também precisavam organizar um método criativo. “Existia uma estrutura de criação de ideias ali dentro, em que de uma forma era respeitado em outros lugares era desrespeitado, mas que essa estrutura que eles criaram gerou a música que gerou. Então se a gente criar aqui dentro uma estrutura nossa também, que a gente consiga se comunicar, mas também delimitar até onde que o outro cria, a gente também vai conseguir cuspir uma sonoridade diferente do que a gente já vinha fazendo”, reflete Paquali.
A qualidade e quantidade de projetos do Led Zeppelin também foi essencial nesse pensamento. Ao perceberam que a banda criou quatro álbuns “clássicos” nos dois primeiros anos de formação, entenderam que o processo criativo poderia ser mais simples. Pasquali reforçou: “Como que você faz quatro discos em dois anos? É simples: é só um confiar pra c****** no outro e falar ‘vamos entrar no estúdio e vamos sair com uma música pronta’. Só que até chegar nisso tem que ralar muito, tem que ensaiar muito, tem que conversar bastante. E principalmente deixar levar!”.
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