O terceiro álbum de estúdio de Bebé Salvego, Dissolução, apresenta um momento de construção e transformação da artista. Para a cantora, a energia inquieta e da expansão fazem parte de seu modo de ser, transformando suas músicas em mais um aspecto de sua personalidade sagitariana. Com lançamento na próxima quarta, 20, o projeto almeja representar a fluidez da musicalidade e hibridismo da cantora: “Não consigo me prender a uma única coisa, e acho que isso aparece em tudo que eu faço”.
Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, a cantora explica que o processo de criação do álbum foi íntimo e caseiro, pensado em atrair uma sensação de crueza, aconchego e conforto para o público: “Preservei bastante as ideias que vieram de forma espontânea, deixando que elas chegassem sem forçar”. Para Bebé, seus gêneros musicais do coração também simbolizam esse espaço íntimo da criação musical, e serviram como fonte para a criatividade.
“As inspirações vieram de um desejo genuíno de voltar às minhas raízes no MPB e no jazz, mas trazendo tudo isso para o meu próprio universo, do meu jeito”, explicou. “A maioria das músicas surgiu como inspiração pura, a canção e a poesia vieram primeiro, sem harmonia, sem nada estruturado. Depois, fui construindo e moldando cada uma de acordo com o caminho que o disco ia pedindo.”
Como produtora, a artista também sentiu ainda mais liberdade para criar. Em parceria com o produtor Felipe Salvego, seu irmão, pôde explorar suas “imperfeições” de modo autônomo, escolhendo como moldar sua própria voz. “Eu quis criar um desapego do perfeccionismo que tenho, deixar que as partes mais bonitas se mantivessem independente de imperfeições, que o que tivesse emoção ficasse”, explicou.
Bebé já havia sido coprodutora de seu segundo projeto, SALVE_SE! (2024), mas ressalta a importância da nova experiência. “Quis deixar as coisas muito soltas e vivas, porque isso tem muito a ver com a dissolução, com esse movimento de deixar fluir. Essa liberdade foi muito significativa”, afirma. “Ao mesmo tempo, considero esse como se fosse o meu primeiro disco, também. Como se tivesse recomeçado. Porque o próximo álbum que eu produzir, vai ser com muito mais vivência e bagagem. Foi uma experiência que mudou minha vida.”
Para ela, a esfera da sonoridade “caótica” faz parte de sua essência e ajuda a definir sua assinatura: “Sempre soube que o disco teria essa cara de várias coisas ao mesmo tempo, assim como os meus outros projetos. Eu acho que vou ser sempre uma artista que vai ter vários universos dentro do mesmo disco”. Bebé também se sente cada vez mais atraída pelos elementos do jazz, entre eles o piano e a guitarra. “Amo guitarra, sou guitarrista. Pensando numa sonoridade de jazz mineiro, indie brasileiro, queria tudo misturado ao mesmo tempo. Gostode tudo misturado. Não existe uma organização de verdade, existe mais um caos que se organiza sozinho, sabe?”
Adentrando o espaço da produção, Bebé se viu livre para exercer o “controle sem controle”. A fluidez que acompanha Dissolução já nasceu atrelada ao nome do álbum, escolhido antes mesmo do fim da concepção das faixas. A dissolução, que para a artista “não é sobre destruir, mas sobre mudar de estado”, é um movimento que trouxe a posição de escolha em relação aos arranjos, à energia “feminina” do projeto e às várias participações de peso do álbum.
Bebé explicou que as participações no disco foram “uma realização de sonho”. Entre memórias de ouvir as agora parceiras na música Tássia Reis e Tuyo ainda adolescente, a cantora conseguiu transformar algumas de suas maiores “ídolas” em amigas. “Quando penso em participação, sempre penso em trazer pessoas com quem tenho um vínculo além do musical. São aquelas pessoas que você olha e pensa: quando eu crescer, quero ser igual a elas. Estar no mesmo disco faz parte do meu próprio processo de evolução, ou da Dissolução!”, afirma.
As convidadas também representam diferentes escolas musicais que vivem em harmonia dentro da cantora: “Tássia Reis conversa com a minha parte de jazz e hip hop. Tuyo conversa com a minha parte do house. Marissol conversa com a minha parte mais lúdica. Brisa Flow conversa com a minha parte do rap. E Ana Karina conversa com a minha parte de musicista”. A participação de cada uma dessas artistas também se torna um reflexo de quem Bebé quer se tornar.
Pensando na transformação e “dissolução” pela qual passou desde seu primeiro álbum, Bebé explica que a maior mudança foi na sua autoconfiança. Conhecida pelo público pela primeira vez como uma garota de apenas 12 anos no programa The Voice Kids e cantando profissionalmente desde os nove, a artista está alcançando novos níveis de autoconhecimento e, consequentemente, empoderamento. “[Me sinto] cada vez mais segura na minha comunicação, no que quero dizer e em como quero dizer. E às vezes não saber exatamente o que quero, mas ter a coragem de me deixar levar mesmo assim.
Falo muito sobre verbalizar, porque nós, mulheres negras, temos isso muito cortado da nossa vida. Somos programadas para baixar a cabeça. Nesses dois anos vivendo a música autoral, aprendi a não baixar a cabeça e a confiar na minha intuição”, afirma.
Na motivação e apoio no início da carreira, Bebé aponta sua família “de músicos” como sua grande rede de apoio. “Quando comecei a aparecer desde nova, aprendi a enxergar o ego que o capitalismo coloca pra gente, especialmente na arte. Mas sempre tive consciência disso. Nunca deixei esse sentimento se instalar em mim.” Fã de biografias, a artista sempre leu livros sobre as vidas dos grandes astros dos quais é fã, desde Billie Holiday a Michael Jackson.
Aos poucos, entendeu ferramentas para lidar com as críticas, elogios, e experiências que acompanham a fama. “Isso me antecipava muita coisa, porque a história da música se repete. De alguma forma, a informação nos blinda. Vivi coisas muito intensas nos bastidores, coisas que poderiam ter me desviado do caminho, mas meu autoamor e a minha consciência não me deixaram me perder por isso”, explica.
Se autodenominando “curiosa e questionadora”, Bebé também teve também uma grande conexão com a filosofia, tornando-se uma mulher corajosa, que sabe “o que fica e o que precisa ir embora”. Sobre a entrada (e agora concretização total) no mundo da música, afirma: “Foi um processo bonito, mas também muito doído. A gente descobre que nem tudo são flores. Mas tenho pessoas maravilhosas ao meu redor, e me sinto muito forte para continuar nessa montanha russa que é viver de música no Brasil”.
Com a fama ainda na infância e o processo de criação de três álbuns, ela também aprendeu cada vez mais a utilizar sua voz, musicalmente e socialmente. A relação com o seu público — nos palcos e fora deles — é uma das grandes preocupações da artista: ”Sei que tenho uma responsabilidade grande de influenciar pessoas, então preciso estar muito bem comigo mesma primeiro. E cada disco me ensina isso. Dissolução foi um ato de muita coragem, e cada próximo disco vai ser uma revolução. Estou construindo, estou vivendo, e nunca vou parar”.
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