Desde criança, Shavo Odadjian enxerga movimento na música. “Cores, visões, sabe?”
Embora não atraia tantos holofotes como seus colegas de System of a Down (SOAD), o baixista também é um personagem peculiar. Todavia, seu perfil mais discreto talvez faça o público não notar sua importância para uma das maiores bandas da história da música pesada.
Clássicos como “Sugar” e “Toxicity”, por exemplo, nasceram de suas mãos, e foram lapidados pelo guitarrista Daron Malakian. Ele, que também é artista plástico, ainda dirigiu os icônicos videoclipes de “Aerials”, “Question!” e da já citada “Toxicity”, bem como cuidou dos visuais de palco em turnês. Daí o comentário sobre enxergar música de um jeito diferente. “Isso me completa”, diz ao abordar seus trabalhos audiovisuais.

Odadjian também se plenifica pelas iniciativas musicais paralelas ao System. A mais recente delas é o Seven Hours After Violet (SHAV), banda fundada em 2024 — ano de lançamento de seu primeiro e, até agora, único álbum, homônimo. Aqui, Shavo está acompanhado de Taylor Barber (Left to Suffer) no vocal, Michael “Morgoth Beatz” Montoya (Winds of Plague) na guitarra, Alejandro “Scarypoolparty” Aranda (vice-campeão do American Idol 2019) na guitarra e vocal e Josh Johnson (Winds of Plague) na bateria. Soa como metalcore, mas tem swing e melodia típicos do SOAD.
“Após as pessoas nos assistirem ao vivo, a reação é sempre muito boa. Quando fiz o álbum de 2024, sequer sabia quem estaria na banda”, conta Shavo, que criou a banda após conhecer Morgoth. Canções como “Paradise”, “Radiance”, “Alive” e “Cry” vieram primordialmente de Odadjian, responsável por baixo e também guitarra. A ideia era que o material se tornasse uma espécie de disco solo, com cantores convidados — incluindo Jonathan Davis (Korn) —, mas como pensava-se em realizar turnês, a preferência recaiu sobre o formato de grupo fixo. Daí surgiram Barber, Aranda e Johnson.
O público brasileiro pôde assisti-los em São Paulo, também em 2024, no festival Knotfest Brasil e/ou abrindo para o Babymetal. “Não havia praticamente nenhum celular na plateia: todos estavam pulando e cantando”, diz sobre os fãs do grupo japonês de kawaii metal. Agora, retornam em apoio ao Korn, com quem excursionaram em 2025. “Korn são como família, irmãos, eu os conheço há 30 anos”, declara Odadjian a respeito dos baluartes do nu metal.
O baixista deixa claro que S.H.A.V. representa, acima de tudo, seu desejo artístico. “Eu já tenho o System of a Down, então isso não é algo que eu preciso e, sim, algo que eu quero”, afirma, também antecipando que o próximo lançamento será um EP. “Temos cinco músicas e não quero esperar até conseguir gravar um álbum inteiro, pois tenho muitos shows marcados, inclusive com o System.”
System of a Down, aliás, segue ativo. O ritmo é mais lento, mas está começando a acelerar: em 2025, ocorreram 15 apresentações, cinco delas no Brasil; neste ano, serão 14 datas, na América do Norte e Europa. Os compromissos em território nacional, em maio último, ficaram gravados na memória de Odadjian.
“E tenho certeza de que qualquer pessoa que a presenciou se lembrará dela para sempre”, garante, brincando que os vídeos daquelas performances surgem no feed de seu Instagram até os dias de hoje. “Os planetas se alinharam. Foram alguns dos melhores shows de nossas carreiras e isso nos abriu para querer fazer mais.”

O discurso é cauteloso, porém, quando Shavo é convidado a falar sobre o futuro do SOAD, que, em meio a divergências criativas anteriores entre o vocalista Serj Tankian e o guitarrista Daron Malakian, não lança um álbum há mais de duas décadas.
“Estamos apenas fazendo shows e curtindo, pois, após 30 anos, não precisamos fazer nada além do que queremos”, reflete, admitindo ainda que a agenda enxuta do System em anos anteriores “não era tão boa” para ele. “Estamos planejando mais shows para o futuro, mas não precisamos fazer turnês longas: gostamos de criar momentos especiais.”
Shavo Odadjian comenta sua discografia
System of a Down (System of a Down, 1998):
“Vejo como o nosso começo. A raiz, o alicerce. Levou mais tempo para fazer esse disco do que qualquer outro, porque começamos a criá-lo entre 1994 e 1998, embora só tenha sido lançado em 1998. Além disso, tocamos esse álbum ao vivo mais do que qualquer outro no começo, enquanto estávamos sem contrato com gravadora e tocando em Hollywood.”
Toxicity (System of a Down, 2001):
“É como a nossa graduação. Subiu um degrau, sabe? Vários degraus, na verdade. Em termos de som, de temas, de composição. Sinto que o álbum mostrou uma evolução. E até hoje, ele é reconhecido por isso.”
Steal This Album! (System of a Down, 2002):
“Originalmente, fazia parte do álbum Toxicity. Adoro esse disco. A gente chamava de ‘lados B’, mas tem umas músicas muito boas ali. Lembro que quando fomos lançar o disco, decidimos não fazer qualquer divulgação, marketing, nada. E deu certo. Vendemos um milhão de cópias sem nada, sem rádio, nada. É subestimado, mas eu adoro. É o álbum nosso que eu mais ouviria.”
Mezmerize/Hypnotize (System of a Down, 2005):
“Esses dois estão juntos, foram feitos juntos. Fiquei pouco mais afastado naquela época. Traz mais de Daron, ele meio que assumiu o controle daquela era e fez muitas coisas lindas com Serj. É como uma grande produção, conta histórias e traz coisas sinceras ali. Uma obra, uma peça, algo diferente. Vejo os dois álbuns juntos, apenas lançamentos separadamente. Não consigo separá-los, nem sei qual música está em qual disco. Nós apenas o lançamos separadamente.”
EPs do North Kingsley (2020):
“Como o AcHoZeN [que nunca lançou um álbum formalmente], outra época estranha. Eu estava de volta à ativa e me juntei a outros caras para fazer um som que não se parecesse com nada. Compus bastante no baixo, com distorção. Fiz algo intermediário entre o peso do System of a Down e o hip-hop do Ray [Hawthorne]: era um hip-hop pesado, mas não exatamente rap rock, tinha só batidas de hip-hop. Além dos EPs que lançamos, ainda tenho um álbum completo que nunca foi lançado. John [Dolmayan] toca em várias delas. Porém, não fiquei 100% satisfeito com isso. Talvez seja lançado algum dia, mas precisa ser mixado.”
Seven Hours After Violet (Seven Hours After Violet, 2024):
“Meu renascimento. Amo música pesada desde sempre. Poder fazer isso com essas pessoas é o início de um novo capítulo.”
Rolling Stone Brasil: revista especial com Korn
À VENDA: O Korn estampa a capa da nova edição da revista Rolling Stone Brasil. Com um show especial no Allianz Parque marcado para 16 de maio, a lendária banda de nu metal narra seus próximos passos — incluindo um álbum que está sendo preparado — e reflete sobre como seus contemporâneos estão mais relevantes do que nunca. Também há entrevistas com Iron Maiden, Black Pantera, Spiritbox, Shavo Odadjian (Seven Hours After Violet), entre outros. Compre no site Loja Perfil.
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