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‘Vivo 76’ apresenta a origem, o caos e a invenção de Alceu Valença – Rolling Stone Brasil

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Alceu Valença já é, hoje, uma dessas figuras que parecem ter ultrapassado a própria biografia: artista de assinatura inconfundível, atravessado por humor, invenção e uma espécie de eletricidade criativa constante. Mas Vivo 76, novo longa de Lírio Ferreira (Baile Perfumado), apresentado na 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, se interessa justamente pelo que vem antes desse símbolo — pelo momento em que essa presença ainda estava em construção, ainda testando caminhos, linguagens e intensidades. O filme volta ao disco homônimo ao documentário como ponto de inflexão, mas o que busca mesmo é o instante em que um artista começa a deixar de ser apenas promessa para se tornar figura.

O documentário recupera lembranças de infância, deslocamentos e os primeiros impulsos criativos de Alceu como peças soltas de um quebra-cabeça em formação. Surge um jovem que queria ser palhaço, que cresceu em forte vínculo afetivo com a mãe e que parecia já operar com uma imaginação fora de eixo, sempre inclinada ao exagero e à cena. O filme sugere que essa identidade artística não nasce pronta: ela é resultado de uma série de desvios, como o caos da contracultura dos anos 70 e os encontros que moldaram sua persona.

Esse percurso desemboca no que o filme trata como um estado de explosão estética: a cena pernambucana dos anos 1970, onde diferentes linguagens se misturam sem hierarquia clara. Em vez de organizar esse ambiente, Lírio Ferreira o apresenta como uma atmosfera instável, em que música, teatro, poesia e artes visuais se atravessam. Alceu aparece ali não apenas como centro fixo, mas também como alguém que circula por esse turbilhão e, ao mesmo tempo, ajuda a dar forma a ele. É nesse ambiente de excesso criativo que o artista começa a ganhar contorno próprio.

O filme de Lírio observa como o músico vai se afirmando ao mesmo tempo em que se expande — seja na consolidação de sua linguagem musical, seja na experiência no cinema, como em A Noite do Espantalho, que amplia seu campo de atuação e é considerado um ponto de virada de carreira do artista. Há uma sensação de que tudo está em movimento ao mesmo tempo, como se o artista estivesse sempre um passo à frente da própria definição. A passagem para o reconhecimento se dá por insistência e reinvenção.

No fim, Vivo 76 assume que não está diante de uma história fechada, mas de um processo em permanente fabricação. Lírio Ferreira filma Alceu com evidente fascínio, deixando que ele próprio conduza grande parte da narrativa, o que reforça essa ideia de autoformação contínua. O resultado é um filme mais interessado na vibração do personagem do que em um enquadramento histórico rígido. E é justamente nessa escolha que o documentário encontra sua força: ele não explica o mito, mas o acompanha no momento exato em que ele começa a se tornar inevitável.

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