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Vinho sul-americano precisa ser redescoberto, diz crítico | Notas Etílicas – Por Saulo Yassuda

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Argentina, Chile, Uruguai, Brasil, Peru e Bolívia. Esses países, nem sempre entre os mais prestigiados pelos consumidores de vinho mais tradicionalistas, ganham luz no Guia Descorchados (Inner Editora, 1 253 págs., R$ 295,00).

Criada em 1999 e inicialmente focada no Chile, a publicação transformou seu autor, o crítico chileno Patricio Tapia, 57, em uma das vozes mais influentes do vinho sul-americano — para cada edição, ele prova mais de 4 000 rótulos. Jornalista de formação, especializado em degustação e enologia em Bordeaux, colabora com revistas internacionais e escreve resenhas em linguagem acessível.

No Brasil, o guia é um sucesso, refletido no evento anual de lançamento — a feira, realizada desde 2012 em parceria com o Inner Group, no último dia 7, reuniu 1 320 visitantes. Foi em um intervalo do evento que Tapia concedeu a entrevista para falar do panorama sul-americano, com Brasil incluído — São Paulo e Minas Gerais estão entre seus novos queridinhos.

Existe hoje um “estilo latino-americano” de vinho?

Não, porque eu acho que o estilo de vinhos que está sendo feito hoje na América Latina ou na América do Sul mudou muito nos últimos vinte anos. Principalmente porque os produtores passaram a focar muito mais nos vinhedos, no clima, no solo, mas também abriram um pouco mais a mente. Antes, há trinta anos, a grande referência era Bordeaux ou a Califórnia. Agora não — o espectro do mundo que se observa é muito maior. Se eu sou o compositor de uma banda de rock e se minha única referência forem os Rolling Stones, eu vou fazer só um tipo de música. Mas se eu tenho Rolling Stones, Radiohead, The Cure, minha riqueza musical é muito mais ampla, e o que eu posso criar musicalmente será muito mais interessante. Isso se aplica também ao vinho.

Na mais recente edição do guia, você elogiou vinhos de São Paulo e Minas Gerais. Em anos anteriores, disse que vinhos brasileiros, em especial tintos, podiam ser decepcionantes…

Me interessa muito a dupla poda (técnica de manejo para a videira deslocar a colheita para o inverno) e a viticultura em regiões de mata. Mas também me interessa o resultado que esses vinhos apresentam (em São Paulo e Minas Gerais) — são muito bons. Fui com muito preconceito à região, achando que não iria gostar, mas foi uma grande surpresa.

Qual variedade você acha que melhor se adaptou à técnica?

Syrah é o que todos dizem. Mas a syrah se adapta a quase todos os lugares — deserto, litoral, montanha. E havia syrahs muito bons. Mas a casta que mais me interessou foi a cabernet franc, porque é mais desafiadora, e os resultados foram excelentes.

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Espumante é o melhor tipo de vinho do Brasil?

Sim, é o estilo de maior qualidade.

Qual é a importância do vinho sul-americano no mundo?

Sim. Posso pensar: “Eu não compraria esse vinho”, mas sei que muitas pessoas vão gostar. Então dou uma boa nota. No começo, foi um problema — avaliava só pelo meu gosto, mas percebi que isso era egocêntrico.

 

“Eu avaliava só pelo meu gosto, mas depois percebi que isso era muito egocêntrico”

 

E o consumo está mudando. Como vê o mercado daqui a dez anos?

Espero que o vinho não seja julgado pela cor. Um tinto leve não é pior. Também espero que não se julgue pela concentração ou corpo. O consumidor tende a achar que quanto mais encorpado, melhor — mas não é assim. Acho que o mercado está caminhando para vinhos mais leves, mais frescos. Uma das coisas mais importantes que aprendi foi quando um produtor me disse: “O vinho foi feito para ajudar a comida a descer”. Ou seja, o vinho é para acompanhar a comida, não para substituí-la.

As mudanças climáticas estão redesenhando o mapa do vinho?

Estão impactando a produção. Hoje é possível fazer vinho em lugares onde antes não era possível. É um desafio, algo a que os produtores estão se adaptando bem.

Rótulos caros são realmente melhores?

Não necessariamente. A maioria dos vinhos abaixo de 10 dólares não será melhor que um de 50. Mas vinhos de 500 ou 1 000 dólares muitas vezes têm preço ligado a prestígio, história, marketing — não apenas ao que está na garrafa. Em degustações às cegas, as diferenças costumam ser menores do que os preços sugerem.

A formação em jornalismo influencia seu trabalho?

O tempo todo. Na busca por novidades e na forma de contar histórias. Eu gosto de contar histórias — de uma garrafa, de um vinho.

Você sofre pressão de produtores?

Procuro conversar com eles, entender suas motivações. A história por trás do vinho influencia a percepção das pessoas. Alguns que sabem que não gosto dos vinhos deles simplesmente deixam de enviar amostras.

Como funciona seu processo de avaliação?

Primeiro, provo os vinhos com os produtores, não às cegas, conversando sobre tudo. Depois, em uma segunda etapa, fazemos degustações às cegas com a equipe.

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Você vem com certa frequência a São Paulo. Aproveita a cidade?

Junto com Lima e Cidade do México, é uma das capitais gastronômicas da América Latina. Venho comer e beber aqui. Eu amo o Mocotó, vou muito ao Tordesilhas, eu amo o Pirajá.

Nesses lugares você toma vinho?

(Pausa e risos) Tomo vinho, claro, Mas tomo muita caipirinha. E cerveja.

Há planos de expandir o guia para outros países?

Não, por enquanto. Pensamos em Espanha e Portugal, mas isso exigiria dedicação total, e eu não quero passar o ano inteiro provando vinhos. Gosto de fazer outras coisas também: escrever, passar tempo com a família, ir à praia, ler, jogar tênis. Então, por enquanto, seguimos na América do Sul.

Publicado em VEJA São Paulo de 17 de abril de 2026, edição nº 2991.

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