×
Nine

Titãs celebram ‘Cabeça Dinossauro’ com show pesado e sem baladas em SP

Nine

Originada ainda em 1934, a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) da Polícia Federal foi, como seu nome indica, o órgão fiscalizador e censor de conteúdos culturais e midiáticos. Foi instaurada de modo mais notório em 1972 e permaneceu ativo até 1988, ano em que se estabeleceu a atual Constituição Federal, marco do processo de redemocratização pós-ditadura.

Em 1987, já num de seus atos finais, a DCDP não liberou a execução pública integral em mídias de “Bichos Escrotos”, hoje uma das músicas mais populares de Cabeça Dinossauro (1986), terceiro álbum de estúdio dos Titãs. O problema estava no trecho “vão se f#der”. “A versão analisada deixa vazar em seu discurso um sentimento de pessimismo, ao mesmo tempo que projeta uma imagem escatológica da realidade”, afirma o texto de 22 de maio do ano citado, presente no site do Arquivo Nacional. “Julgamos viável a liberação irrestrita da letra, uma vez suprimida ‘in totum’ a expressão ‘vão se f#der’ conforme pleiteia o interessado.”

A leitura do documento citado foi responsável por abrir o show especial dos Titãs no Espaço Unimed, em São Paulo, no último sábado, 28, em celebração aos 40 anos de Cabeça Dinossauro — iniciando, também, uma turnê com quatro datas anunciadas e outras por vir. Talvez por isso, na hora de tocar “Bichos Escrotos”, o público tenha enchido a boca para gritar, junto do grupo, todos os “vão se f#der” previstos na letra.

Conforme prometido em entrevista à Rolling Stone Brasil, o repertório de 25 músicas tocado por Sérgio Britto (voz e teclados), Branco Mello (voz e baixo) e Tony Bellotto (voz e guitarra), com apoio dos guitarristas Beto Lee e Alexandre de Orio e do baterista Mário Fabre, é essencialmente pesado. Das 25 músicas — as 13 de Cabeça Dinossauro na ordem original e 12 de outros trabalhos —, talvez apenas uma possa ser encaixada como balada (“Anjo Exterminador”), mas a letra faz caber no conceito, enquanto outra tenha o reggae como fio condutor (“Família”), todavia em versão evidenciando mais os riffs do que o ritmo sincopado.

Sérgio Britto durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)
Sérgio Britto durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)

Em matéria de riffs, aliás, os Titãs estavam bem servidos. A formação com três guitarristas caiu como uma luva nesta turnê. Beto e Alexandre ofereceram a Tony a consistência necessária para que este se preocupe mais com solos e outros detalhes, além de vocais em canções como “Estado Violência”, a já citada “Família” e “Canção da Vingança”, esta dedicada aos médicos que operaram seu recente câncer no pâncreas.

Tony Bellotto durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)
Tony Bellotto durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)
Branco Mello durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)
Branco Mello durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)

Desconsiderando-se as 13 faixas de Cabeça Dinossauro, o álbum mais representado no repertório foi Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1988), com a punk “Armas pra Lutar”, o hit “Diversão”, a despojada “Lugar Nenhum” e, já no bis, a tipicamente b-rock “Desordem”. Titanomaquia (1993), citado por um editor amigo de Bellotto como “o Cabeça Dinossauro da geração seguinte”, veio com a pesadíssima “Será que é Isso que Eu Necessito?” e a já mencionada “Nem Sempre se Pode Ser Deus”. Outros álbuns completaram as demais escolhas, que felizmente não envolveram músicas como “Sonífera Ilha”, “Marvin”, “Epitáfio”, “Televisão”, “Pra Dizer Adeus”, “Go Back” e afins.

Sérgio Britto durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)
Sérgio Britto durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)

Já sobre o disco homenageado, discutir sua relevância mantida em tempos atuais é chover no molhado. Da anárquica faixa-título na abertura ao encerramento com a post-punk experimental “O que” — quase uma ponte ao trabalho sucessor Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas —, tudo se encaixou e soou vívido no palco. Agradaram a plateia em especial a visceral “AA UU”, a paulada “Polícia” e o mega-sucesso “Homem Primata” (introduzido a capella por Sérgio), mas a plateia, de modo geral, parecia conhecer até os lados B. Teve até quem tentasse cantar junto o hardcore “A Face do Destruidor”.

Ainda que turnês comemorativas de álbuns clássicos possam soar como iniciativas caça-níquel, os Titãs se safaram dessa com o show Cabeça Dinossauro 40 Anos. Obtiveram êxito ao dispensar as músicas mais lentas e apostar numa apresentação forte e de conceito claro. Marcado também por pouco falatório e muito som — 25 canções em aproximadamente 90 minutos —, o espetáculo será levado a Belo Horizonte (BeFly Hall, 25/04), Rio de Janeiro (09/05, Qualistage), Curitiba (18/07, Igloo Super Hall) e possivelmente a outras cidades ainda não anunciadas.

Branco Mello durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)
Branco Mello durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)

Titãs — repertório

Tony Bellotto durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)
Tony Bellotto durante show dos Titãs em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie para Rolling Stone Brasil)

Veja também:

+++ LEIA MAIS: Titãs falam à RS sobre turnê ‘Cabeça Dinossauro 40 Anos’ e legado do álbum
+++ LEIA MAIS: Como o Titãs abraçou o primitivo em ‘Cabeça Dinossauro’ e dominou o Brasil

+++ LEIA MAIS: Cidade Negra fala à RS sobre show em SP, novo álbum, rock e cancelamento por ‘Girassol’
+++ Siga a Rolling Stone Brasil @rollingstonebrasil no Instagram
+++ Siga o jornalista Igor Miranda @igormirandasite no Instagram


Fonte: LEIA A NOTÍCIA COMPLETA

Compartilhe esta história
Deixe um comentário

Apoios

COMPRAR CURSO