Aos 65 anos, com mais de vinte investidos na carreira como atriz, Rejane Faria encara o desafio de viver a sua primeira protagonista nos cinemas em Yellow Cake, novo longa de Tiago Melo (Azougue Nazaré), que abriu a 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.
Porém, após dividir o protagonismo de Marte Um (2022) com Carlos Francisco (O Agente Secreto), Camilla Damião (Salve Geral: Irmandade) e o jovem Cícero Lucas, a atriz abraça o novo trabalho reconhecendo a responsabilidade que tem, mas com uma mentalidade amadurecida pela experiência anterior: apesar de agora ser o centro dela, Rejane não se esquece que uma história não é contada sozinha.
“A experiência em Marte Um me colocou em um lugar de protagonismo coletivo e, com esse mesmo pensamento, eu vim para Yellow Cake“, diz à Rolling Stone Brasil. “Apesar de a Rúbia ser a pessoa que conta essa história, eu contei com todo o elenco para que essa história tivesse um peso. Eu não me senti, em momento algum, sendo a pessoa que estava levando aquela história, e isso facilitou muito para mim.”
“É evidente que a gente sente uma responsabilidade maior. Você quer atender às expectativas do diretor, mas o Tiago me deixou muito à vontade”, acrescenta. “E por ser uma ficção científica, um gênero pelo qual eu nunca tinha transitado… Nunca fui apaixonada por filmes [do gênero], então não tinha um repertório, mas ele me mandou alguns filmes, alguns textos, e eu fui me aproximando dessa linguagem. Ficou tudo muito na mão dele, ele que foi conduzindo. E eu fiquei muito feliz de fazer esse filme.”

Em Yellow Cake, Rúbia é uma cientista nuclear, que se embrenha em Picuí, no sertão da Paraíba, para acompanhar mediar a relação entre norte-americanos e os moradores da cidade enquanto os estrangeiros trabalham na exploração das reservas de urânio locais para, a partir do minério, desenvolver uma solução para o problema da epidemia do Aedes aegypti, responsável por transmitir a dengue, entre outras doenças.
Como mulher preta, a personagem se distancia bastante de outras vividas por Rejane na TV e no cinema e, para a atriz, essa mudança no padrão é uma oportunidade que o cinema e a arte deu a ela de ampliar a discussão de questões importantes, mas que normalmente são negligenciadas:
“Por que nós, mulheres pretas, temos mais dificuldade de ascensão? Quando vem um filme me dá essa possibilidade de ser uma mulher negra com poder, uma mulher LGBTQ+, coordenando uma equipe de homens estrangeiros… Isso me faz ter mais desejo de fazer e mostrar que essas situações são possíveis, de a gente estar nos lugares que escolhemos estar. E sem medo”, afirma.
“É necessário que a gente ocupe cargos, que a gente tenha salários iguais e todas essas questões que nós já sabemos, mas que, infelizmente, são sempre atravessadas por preconceitos estruturais. Então, acho que [Yellow Cake] é uma oportunidade incrível. Tanto para mim, pessoalmente, quanto por fazer essa personagem, que pode levar um olhar diferenciado para o que acontece atualmente”, completa a atriz.

Segundo Rejane, a fúria que abraça Rúbia e a move nos momentos derradeiros do filme vem muito de si mesma e o que precisou enfrentar na vida: “Por mais que eu esteja insegura, por mais que eu tenha receios, eu sempre me posiciono de uma forma muito firme nas coisas que eu desejo. Porque eu acho que tem que ser assim. Deixar para chorar em casa. Aqui você tem que enfrentar e fazer o papel mesmo de ir avançando, de ir largando essas pessoas que ainda conseguem pensar de forma diferente para trás”, conta.
“E eu sei que não é todo mundo que consegue fazer isso. A gente é muito oprimido mesmo. Todos os dias nós sofremos um tipo de opressão. Seja pelo olhar, pela escassez de oportunidade, pelo comportamento da sociedade. Vários coisas”, continua. “Mas levo de mim muita coisa para essa mulher. Ela que ter um olhar firme, ela não pode abaixar a cabeça, principalmente porque ali, para além disso, ela ainda estava certa.”
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