Gus Van Sant, diretor de Gênio Indomável, Elefante, Paranoid Park e Milk: A Voz da Igualdade, construiu uma filmografia marcada pelo interesse por personagens à margem da sociedade, pela observação de indivíduos deslocados e por uma câmera que frequentemente prefere acompanhar seus personagens a simplesmente conduzi-los e julgá-los.
Em Refém Por um Fio, seu retorno aos cinemas após hiato de 7 anos, essa identidade aparece novamente a partir de uma história no mínimo curiosa: em 1977, Tony Kiritsis — vivido por um intenso e hilário Bill Skarsgård (Nosferatu) —, sequestrou o filho de um executivo de uma empresa de hipotecas (personagem de Dacre Montgomery, Stranger Things) e o manteve preso com uma arma conectada ao pescoço por um fio. Durante mais de 60 horas, o caso paralisou os Estados Unidos enquanto milhões de pessoas acompanharam ao vivo uma negociação cada vez mais imprevisível.
Apesar da obviedade do thriller policial, Van Sant parece menos interessado em transformar o caso em uma fita convencional do gênero para se apropriar dele e submetê-lo à sua própria linguagem: A câmera na mão, a estética crua e a montagem fragmentada fazem com que o acontecimento seja constantemente reorganizado a partir de diferentes perspectivas: a da vítima, do sequestrador, do pai do sequestrado, e da mídia. Ele percebe que há algo essencialmente cinematográfico naquela situação e decide explorá-lo ao seu modo.
É curioso, portanto, que um filme com Al Pacino (O Irlandês), que vive o ganancioso pai do sequestrado, e Colman Domingo (Michael), um radialista e DJ de voz poderosa, tenha os dois em posições secundárias. São participações pontuais, mas fundamentais para o equilíbrio do filme. Pacino representa o poder e a ganância corporativa que ajudam a alimentar o ressentimento de Kiritsis, enquanto Domingo funciona como a voz que humaniza o sequestrador aos nossos olhos. É por meio dele que percebemos que, apesar do crime que está cometendo, Kiritsis ainda é capaz de demonstrar compaixão, admiração e até afeto por alguém. Entre o “monstro” criado a partir do ódio pela corporação e o homem escondido por trás do sequestrador, os dois personagens ajudam a embaralhar ainda mais as fronteiras morais da história.
E, ainda que Kiritsis seja um sequestrador, Van Sant não está interessado em transformá-lo em um vilão fácil de odiar. Há espaço para compreender sua revolta, ainda que isso jamais signifique justificá-la. É um equilíbrio que conversa diretamente com uma das características mais marcantes de sua filmografia: o interesse por personagens deslocados, incompreendidos ou empurrados para as margens. Em Refém Por Um Fio, essa perspectiva aparece de maneira menos sentimental e mais provocadora. O diretor não pergunta exatamente se Kiritsis está certo, mas por que, diante de uma situação tão absurda, somos capazes de enxergar alguma humanidade nele e compreender suas atitudes, ainda que criminosas.
É aí que o filme encontra seu melhor jogo. Cada personagem parece carregar uma versão diferente daquele acontecimento, e Van Sant evita entregar uma perspectiva definitiva. Para a polícia, há um criminoso. Para a imprensa, um espetáculo. Para a corporação, um problema a ser controlado. Para a vítima, uma situação de sobrevivência. Para Kiritsis, uma espécie de acerto de contas que vale a própria honra. O sequestro deixa de ser apenas o centro da narrativa e passa a funcionar como um prisma através do qual cada personagem revela seus próprios interesses e contradições.
A trilha de Michael Giacchino e a seleção de músicas dos anos 1970 ajudam não apenas a construir a estética do período, mas também a tornar essa história ainda mais envolvente. Soul, funk e rock não aparecem simplesmente como referências de época, mas acompanham a transformação do sequestro em espetáculo público. De Donna Summer a B. J. Thomas, as canções dão ritmo ao absurdo enquanto a narrativa se torna progressivamente mais tensa, transformando Refém Por Um Fio em uma espécie de cápsula do tempo — uma que preserva não apenas a atmosfera daqueles anos, mas também a maneira como um acontecimento extraordinário podia ser consumido como entretenimento — e a voz do Fred Temple de Domingo adiciona combustível a isso.
Em suma, Refém Por Um Fio não é o retorno mais urgente possível para Gus Van Sant — e talvez nem pretenda ser. É, antes, o reencontro de um diretor com algumas de suas obsessões: personagens à margem, instituições opressoras, voyeurismo, mídia e a tênue fronteira entre tragédia e espetáculo. Ao transformar um sequestro real em um inquietante jogo de perspectivas, Van Sant encontra justamente no absurdo a possibilidade de experimentar novamente com sua linguagem, sem precisar transformar o filme em manifesto. E aí está o maior charme desse retorno: vê-lo brincar novamente com essas ferramentas já é, por si só, uma experiência muito bem-vinda.
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