Proust chamou o amor de tortura recíproca, Bukowski disse que era mais estranho que grama em chamas, e Olivia Rodrigo admitiu que era constrangedor pra caramba. No entanto, em “Drop Dead”, a faixa de abertura de seu novo álbum, ela está em queda livre, com o coração na manga, pronta para arriscar tudo enquanto a esperança e a possibilidade cintilam sobre uma noite mágica — que se danem poetas, filósofos e lições do passado. A música é uma pura descarga de dopamina, construída sobre uma percussão pulsante e sintetizadores brilhantes, a emoção do romance e a expectativa aumentando a cada verso eufórico: “Me beije, e eu posso cair morta”.
Este pode muito bem ser o trabalho mais eufórico que já ouvimos de Rodrigo, que não teve medo de rechear seus álbuns de sucesso, Sour (2021) e Guts (2023), com energia punk e revoltada, além de hinos angustiantes e com os quais é fácil se identificar. Para seu terceiro lançamento, poderia parecer que ela estava pronta para uma era mais simples, de garota apaixonada e ingênua — mas, vamos lá, todos sabemos que ela é espirituosa demais, autoconsciente demais e uma compositora talentosa demais para se contentar com confissões cor-de-rosa sobre um novo relacionamento.
O título já era uma pista: You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love deixa claro que este projeto é uma jornada emocional complexa, que vai subverter clichês e suposições sobre o amor. Havia easter eggs sonoros em “Drop Dead”, que também foi o primeiro single, como uma referência a “Just Like Heaven”, do The Cure, e a distorção nebulosa das guitarras que ela e o produtor de longa data, Dan Nigro, buscaram, evocando deuses da New Wave e a imagem de um Robert Smith de coração solitário (falaremos mais sobre ele daqui a pouco). Tudo isso cria uma atmosfera mais próxima da vida real, enquanto Rodrigo percorre todo o ciclo de um relacionamento — a fase da lua de mel, os primeiros sinais de conflito, a despedida devastadora — para alcançar seu álbum mais completo e musicalmente ousado até o momento.
Mas primeiro, fogos de artifício. As primeiras músicas capturam aquela sensação de se apaixonar em tempo real (Rodrigo disse que o álbum é sobre seu primeiro relacionamento “adulto”; muitos fãs acham que ela está se referindo ao ator Louis Partridge, com quem namorou por mais de um ano). Ela ainda está em êxtase em “Stupid Song“, uma faixa que parece uma balada sublime antes que acordes saturados dos anos 80 entrem em cena. “Honeybee” é uma música mais tranquila que diminui a energia crescente, mas serve como um momento terno que estabelece a profundidade de suas emoções.
Mas então as ansiedades começam a aumentar — e se há algo que Rodrigo faz bem, é mergulhar em suas inseguranças com uma mistura de humor e honestidade. Há uma festa de sintetizadores melancólica em “Maggots 4 Brains“, um retrato da saudade e da carência que tomam conta quando há distância da pessoa que ela ama: “Tudo parece mofado como as frutas na minha geladeira / E tudo que é engraçado eu queria poder contar para ele.” As costuras se desfazem um pouco mais a cada faixa, um testemunho de quão perfeitamente ela e Nigro sequenciaram o projeto, capturando a espiral descendente do relacionamento.
Rodrigo sempre exibiu com orgulho suas referências, inspirando-se no rock dos anos 90 e em bandas riot grrrl como Hole e Babes in Toyland em trabalhos anteriores, mas aqui, ela vai além de prestar homenagem; ela teceu uma tapeçaria sonora na qual qualquer um de seus ícones se encaixaria. Fãs que anseiam por uma energia pop-punk mais agressiva podem ter dificuldade em se adaptar ao novo som inicialmente, mas a participação de Smith é uma prova de quão bem ele funciona. A efervescência eletro-distorcida de “Expectations“, que parece ter brotado de uma semente plantada pelo The B-52s, adiciona outra camada, mantendo o ouvinte em constante expectativa.
Um dos maiores trunfos do álbum é a maturidade da narrativa de Rodrigo. Para uma garota que alcançou o estrelato cantando sobre desilusões amorosas adolescentes em “Drivers License” aos 17 anos, há uma nova sabedoria ao chegar à brutal constatação de que você pode adorar alguém mais do que tudo e ainda assim ter que deixá-lo ir. Ela entrega versos devastadores: “Se me amar significa me deixar ir e me desejar o melhor, então eu gostaria, gostaria, gostaria que você me amasse menos”, ela canta em “Less”. Na última faixa, “Cigarette Smoke”, Rodrigo encontra uma espécie de paz — ainda que não uma resolução completa — enquanto tenta seguir em frente. “As memórias se tornam sombrias”, ela repete várias vezes. Talvez elas eventualmente desapareçam, mas as músicas permanecem.
+++ LEIA MAIS: The Cure: Robert Smith afirma que tem novo álbum ‘pronto’ e mais um projeto também a caminho
