Nine

O amadurecimento do Arctic Monkeys em ‘Suck It and See’

Nine

O Arctic Monkeys é uma das maiores histórias de sucesso da música na era digital. Sem apoio de gravadora, a banda capturou a atenção do Reino Unido graças a usuários compartilhando suas demos na rede social MySpace.

Entretanto, após três álbuns de estúdio no topo das paradas britânicas, o grupo estava enfrentando sua primeira crise de identidade.

O método usado por Alex Turner (vocais, guitarra), Jamie Cook (guitarra), Nick O’Malley (baixo) e Matt Helders (bateria, vocais) para combater isso é simples e veio de suas origens na cidade de Sheffield. Os integrantes apostaram na espontaneidade. O resultado foi Suck It and See (2011).

Queimou a largada

O terceiro álbum de estúdio do Arctic Monkeys, Humbug (2009), havia sido produzido por Josh Homme, líder do Queens of the Stone Age. Isso por si já era uma mudança considerável, após dois discos trabalhando com James Ford, mas a banda também aproveitou a oportunidade para explorar estilos sonoros diferentes dos seus primeiros álbuns.

O grupo despontou na cena indie inglesa em meio ao revival pós-punk dos anos 2000, que trouxe bandas como The Strokes, The Killers e Franz Ferdinand. Entretanto, a vontade de transcender essa cena já se manifestava desde o primeiro disco, Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not (2006). No trabalho seguinte, Favourite Worst Nightmare (2007), a segunda metade da tracklist já apontava para uma sonoridade mais cinematográfica.

Em entrevista à Interview Magazine, Turner explicou como sua abordagem de composição no Arctic Monkeys mudou. Parte como influência do The Last Shadow Puppets, seu projeto paralelo com o músico Miles Kane, focado em pop orquestral dos anos 1960:

“Em algum momento ao longo do caminho, por volta da experiência com os Shadow Puppets e depois Humbug, percebi que algo mudou em termos da maneira como eu abordo a composição. Não sei. Antes, tudo era apenas meio que montado; e cada vez mais hoje em dia, eu tenho músicas completas—acordes, letras, uma melodia—e aplicamos a essas músicas o que sentimos que é necessário. Isso aconteceu muito mais neste álbum do que em qualquer outro.”

Além disso, Alex Turner estava apaixonado. O vocalista e guitarrista havia começado a namorar a modelo Alexa Chung em 2007, uma relação que o fez se mudar de sua cidade natal para Londres e depois Nova York. Seus horizontes estavam se expandindo e, assim também, seu senso de identidade. Isso se manifestou em canções com influência de psicodelia, assim como músicas mais românticas, tal qual “Cornerstone”, “Secret Door” e “The Fire and the Thud”.

O que era para ser o momento de amadurecimento do Arctic Monkeys e lançamento para um novo patamar no rock, entretanto, não se concretizou. O público não estava pronto. Queriam continuar ouvindo os dois primeiros álbuns. Por isso, a banda retornou à prancheta de desenhos.

Alicerce

Adicione a isso o fato que, pouco antes do Arctic Monkeys entrar no estúdio para trabalhar em Suck It and See, no começo de 2011, Alex Turner fez a sua única obra solo da carreira. O cantor gravou um EP de canções compostas para o filme Submarine (2010), uma comédia coming of age dirigida por Richard Ayoade. As músicas são, tal qual “Cornerstone”, a mistura ideal de romance e humor, com destaque para “Piledriver Waltz”, rearranjada depois para o álbum do grupo.

Entretanto, o primeiro gosto de Suck It and See foi pura galhofa. “Brick by Brick”, que trazia Matt Helders nos vocais, soava como uma paródia do stoner rock de Humbug. Em entrevista ao NME, Turner explicou as origens espontâneas e humorísticas da letra:

“Estávamos em Miami em uma turnê uma vez e acabávamos de sair de um longo voo até lá quando tivemos uma ideia para uma música chamada ‘Brick by Brick’ e então a escrevemos naquela noite, meio que em um bar. Mas estava bem solta, pensamos nela como o conceito de uma música e todas essas coisas que você quer fazer – tijolo por tijolo – e apenas fizemos uma lista delas que provavelmente era três vezes mais longa do que acabou se tornando naquela noite e nas semanas seguintes.”

Essa abordagem também foi usada em “Don’t Sit Down Cause I’ve Moved Your Chair”, na qual o vocalista lista coisas estapafúrdias e supostamente perigosas – como quebrar um espelho,  abrir um negócio com um urso pardo, dançar a Macarena no antro do diabo – que alguém deveria fazer ao invés de tentar se sentar. Porque, é claro, a cadeira não está mais lá. Tudo embalado por riffs incendiários.

Sonicamente, a banda deu outro passo à frente nos arranjos, incorporando influências clássicas de country e pop psicodélico de guitarra britânico, como The Smiths e Echo and the Bunnymen. Ótimos exemplos disso são as músicas que abrem e fecham Suck It and See: “She’s Thunderstorms” e “That’s Where You’re Wrong”.

Quanto às baladas românticas, Turner tem talvez seu melhor conjunto de composições. Desde a deslumbrada “Reckless Serenade” à faixa-título e “Love is a Laserquest”, que apesar do título bobo, é uma pedrada com versos tais quais esse:

“Do you look into the mirror to remind yourself you’re there
Or have somebody’s good night kisses got that covered?
When I’m not being honest
I pretend that you were just some lover”

[“Você se olha no espelho pra se lembrar que ainda está aqui
Ou será que os beijos de outro alguém resolvem isso
Quando não quero ser honesto
Me convenço que você foi só mais uma amante”]

Legado

Um elemento muito importante sobre Suck It and See também é o fato que o álbum marcou o ponto no qual o Arctic Monkeys decidiu levar adiante a ideia de fazer sucesso nos Estados Unidos. Até ali, a banda era vista no país mais como atração exclusiva para anglófilos, dada a dificuldade do americano comum gostar de indie britânico.

Em discos anteriores, o grupo era relutante a se promover no país, quase ao ponto de ignorar a imprensa local. Isso mudou em Suck It and See. A turnê americana foi a maior até ali, mesmo que não na mesma dimensão do seu sucesso no Reino Unido, onde era capaz de ser headliner de festivais e lotar arenas.

Essa excursão americana também viu outra mudança decisiva na imagem da banda. Alex Turner cortou seu cabelo em agosto de 2011 no meio da temporada de festivais, adotando um topete estilo anos 50 – talvez uma homenagem ao seu ídolo, o músico de Sheffield Richard Hawley – e alterando sua persona ao vivo quase que completamente. O vocalista tímido de antes deu lugar a um frontman confiante num nível quase cômico. Isso mudou a percepção do público do país sobre a banda.

No começo de 2012, oito meses após o lançamento de Suck It and See e ainda durante a turnê do álbum, a banda soltou um single novo chamado “R U Mine?”, outro salto criativo que apontava o caminho a seguir. Quase um ano e meio depois, seria lançado AM (2013), álbum no qual todo esse processo de investimento nos Estados Unidos daria fruto.

+++ LEIA MAIS: As 10 músicas de rock mais ouvidas no Spotify em todos os tempos
+++ LEIA MAIS: As duas bandas de rock mais citadas no Tinder Brasil em 2025
+++ LEIA MAIS: Arctic Monkeys lança gravadora e alimentam rumores de novo álbum


Fonte: LEIA A NOTÍCIA COMPLETA

Compartilhe esta história
Deixe um comentário

Apoios

COMPRAR CURSO