A melhor definição que encontrei para o Le Freak, o frenesi entre os restaurantes recém-inaugurados, é trompe l’oeil, termo importado da pintura, uma técnica que adota a perspectiva e o realismo para criar uma ilusão de ótica. O menu faz acreditar que a culinária é francesa, mas não é bem assim. Até conseguir chegar aos pratos, houve um longo hiato. Depois de esperar pacientemente 1h30 em uma corriqueira noite de quarta-feira na companhia de um clássico dry martíni (R$ 42,00) feito com habilidade pelo bartender Giovanni Augusto, uma mesa se materializou (críticos de verdade pagam contas e não
se queixam de filas — elas são um termômetro de sucesso de público). A clientela, ávida por novidades, parece não se importar. E a gentileza do atendimento se evidencia na chegada. Até onde minha vista alcançou, estavam por lá uma modista — filha de uma apresentadora de quem sou fã — com o marido cantor e mais uma amiga dela atriz que costuma desfilar em passarelas internacionais de cinema. E também os irmãos grafiteiros mais internacionais do país e uma editora de beleza. No reduzido cardápio do chef chileno Juan Pablo Montes, que passou pelo extinto Clos Wine Bar, na Vila Madalena, um primeiro passo pode ser o cremoso patê de foie de galinha servido com pães tostados. Custa R$ 24,00. Aliás, um dos chamarizes do bistrô são os preços razoáveis. Os mexilhões aparecem de duas maneiras. Em vez dos clássicos moules frites (R$ 64,00), preferi a versão gratinada (R$ 56,00). Ricas em sabor, as conchas não muito graúdas saem do forno na manteiga de ervas e uma camada tostada de queijo parmesão e farofa de pão. Não por acaso, um dos maiores sucessos é uma versão do steak ao poivre feita com denver com a parte externa da carne bem tostada e o interior ao ponto, rosado escuro. É também um dos pratos mais caros do cardápio, cotado a R$ 120,00 e indicado para duas pessoas, mas que precisa ainda de uma guarnição. Pedi o creme de espinafre (R$ 15,00), de ótima textura. Pelo visual, o arroz caldoso de pato com morcilla e aïoli (R$ 105,00) desanimou. Compensou no sabor dos grãos cozidos com ave desfiada, que poderia vir em maior quantidade, e uns trocitos de morcilla. O toque ácido veio dessa maionese e uma fatia de limão adicionada ao prato, que será defenestrado. A île flottante (R$ 44,00), sobremesa de claras cozidas em água com especiarias e servidas sobre creme inglês seria o mais tradicional dos itens franceses, caso não ganhasse frutas vermelhas e um excesso de amêndoa laminada e tostada. Sim, os acertos valem a visita ao Le Freak e eu voltarei com certeza.
Nine
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