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Kneecap: ‘o que acontece com os palestinos é punição coletiva — nunca é aceitável’

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Os últimos dois anos da carreira do Kneecap foram cheios. O grupo de hip-hop de Belfast, Irlanda do Norte, ganhou o mundo graças ao filme que dramatiza sua origem (Kneecap: Música e Liberdade) e seu álbum de estreia, Fine Art (2024). Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí chamaram a atenção do público pelo fato de suas letras serem primariamente em gaélico irlandês, um idioma perseguido durante os séculos de ocupação inglesa da Irlanda.

Além disso, os integrantes demonstraram, de cara, que são altamente politizados. Não só com relação ao país dividido, mas também pautas do resto do planeta. Principalmente a Palestina.

Kneecap em 2025 (E-D): Móglaí Bap, Mo Chara e J. J. Ó Dochartaigh (Foto: Samir Hussein / WireImage via Getty Images)
Kneecap em 2025 (E-D): Móglaí Bap, Mo Chara e J. J. Ó Dochartaigh (Foto: Samir Hussein / WireImage via Getty Images)

Em conversa com a Rolling Stone Brasil, Mo Chara – nome artístico de Liam Óg Ó hAnnaidh – discutiu parte da jornada do Kneecap neste período, que culminou na produção do segundo e mais novo álbum de estúdio, o já lançado Fenian (2026). Inclusive, revelou como foi descartado um disco quase inteiro de material:

“Podemos fazer uma música e, ao retornar a ela alguns meses depois, o momento passou — mesmo que ainda gostemos. Foi isso com todo o álbum descartado. Havia boas canções, mas estávamos sob pressão e dava pra sentir no material. Não batia. Não estávamos apaixonados pelo que estávamos fazendo. O segundo álbum é tão importante; precisava ser melhor que Fine Art ou ao menos tão bom quanto.”

Percepções erradas da cultura

Após tomar a decisão de recomeçar praticamente do zero, o Kneecap recrutou o produtor britânico Dan Carey, famoso por trabalhar com Wet Leg e Fontaines D.C. A indicação veio justamente de Grian Chatten, vocalista da segunda banda citada e convidado especial de Fine Art. O trio até havia considerado chamar o profissional anteriormente, mas as agendas não batiam.

No primeiro dia de teste da parceria, três ou quatro ideias de qualidade surgiram. Carey compreendeu de cara a proposta musical do Kneecap: aliar o político com o cotidiano e o humorístico ao som de uma mistura anárquica de hip-hop, punk, pós-punk e rave.

“Por causa da nossa origem, um lugar tão politizado, mas também com senso de humor, é o melhor jeito de transmitir qualquer mensagem, seja política ou não. É típico da Irlanda: sempre que a coisa tá feia, nós nos apoiamos no humor como ferramenta para lidar com a vida. Aparece naturalmente quando fazemos algo criativo.”

Fenian lida com temas sérios, principalmente relacionados à percepção internacional da cultura irlandesa e como essa percepção foi moldada pela visão opressiva do Reino Unido. O próprio nome do disco representa essa questão, de acordo com Mo Chara:

“O título surgiu quando já tínhamos muitas músicas prontas. É sobre meio que tomar de volta o significado da nossa língua e reaver aquela palavra. Inicialmente, ‘fenian’ se referia a um grupo de guerreiros chamados Na Fianna, mas acabou se tornando um insulto. Quando soubemos que estávamos seguindo por esse caminho de reivindicar nossa língua e cultura, naturalmente começou a ir nessa direção, talvez desmistificando alguns mitos, tipo essa ideia americana de que estamos todos apenas dançando ao redor de trevos o tempo todo.”

Tal visão de reaver símbolos culturais passa sempre pela lente iconoclasta do grupo:

  • “Smugglers & Scholars” rebate percepções condescendentes da população irlandesa, além de chamar atenção para as polêmicas vividas pelo grupo;
  • Em “Big Bad Mo”, Mo Chara e Móglaí Bap trocam rimas sobre como tentam diminuir o impacto cultural do grupo;
  • Já em “Liar’s Tale”, o trio escancara exatamente o motivo: a letra foca especificamente no governo britânico liderado por Keir Starmer e sua posição relativa aos eventos na Faixa de Gaza.

Polêmicas

Durante uma aparição no festival Coachella em 2025, o Kneecap levou ao palco o streamer americano Hasan Piker, conhecido por seu ativismo nas redes para conscientizar o público das ações de Israel contra a população palestina. Em dado momento da performance, o telão do palco mostrou as seguintes mensagens (via BBC):

“Israel está cometendo genocídio contra o povo palestino. Isso ocorre sob permissão dos Estados Unidos. F*da-se Israel / Palestina Livre.”

O governo americano acatou a sugestão de Sharon Osbourne. O fato da agência responsável por gerenciar as turnês do grupo ter cortado laços no meio da polêmica toda facilitou a decisão.

Não parou por aí. A polícia britânica abriu uma série de investigações contra o grupo por apologia ao terrorismo. Em uma delas, Mo Chara chegou a ser indiciado por aparecer num vídeo segurando o que parece ser uma bandeira do Hezbollah — organização política libanesa com milícia anti-Israel considerada uma organização terrorista por vários países ocidentais — jogada no palco durante um show.

Em meio a isso, uma série de reportagens sobre vítimas de kneecapping tentou pintar o uso do termo pelos integrantes como ofensivo. Durante os Troubles — período de guerra civil na Irlanda do Norte —, forças paramilitares atiravam nos joelhos de pessoas acusadas como punição por comportamento antissocial. Mo Chara apontou algo curioso sobre essa campanha:

“Comédia passa por cima da cabeça muita gente. A ironia sobre ‘kneecap’ e o título disso é: se tivéssemos nascido e durante os problemas, durante aqueles tempos em que ‘kneecappings’ estavam acontecendo e estivéssemos falando sobre o que falamos, teríamos sido ‘kneecapped’. Essa é a piada toda.”

O ponto do artista é reforçado até pelo clímax do filme Kneecap: Música e Liberdade. Nele, Móglaí Bap é sequestrado por forças paramilitares republicanas para ser baleado nos joelhos, justamente por causa do conteúdo das canções do grupo.

Causa palestina

O caso de apologia ao terrorismo contra Mo Chara foi oficialmente arquivado em março de 2026, quando a Suprema Corte do Reino Unido rejeitou uma apelação final dos procuradores. Apesar disso, o rapper, orientado por seus advogados, não respondeu a qualquer pergunta da Rolling Stone Brasil sobre as acusações ou sobre a perda do visto — uma vez que ambas as situações ainda estão em curso e todo cuidado é pouco.

Por outro lado, Mo arrumou certo espaço para falar sobre um aspecto que o Kneecap sempre deixou claro: qualquer revés pelo qual o trio passa é nada perto daquilo sofrido pelo povo palestino.

“Tivemos nosso próprio tipo de provações e tribulações este ano e isso pode ser avassalador. Estar sob os olhos do público traz consigo muita crítica e as pessoas adorariam que você cometesse um erro. Acho incrível que estamos todos juntos como amigos e podemos compartilhar o fardo de tudo. Mas sempre que as coisas ficam estressantes… lembro que todos nós temos celulares, redes sociais e coisas assim. Teríamos de viver debaixo de uma pedra para não ver os tipos de dificuldades que os palestinos estão enfrentando e, nos últimos anos, o que está acontecendo é punição coletiva e a punição coletiva nunca, nunca é aceitável.”

A Irlanda sempre apoiou a causa palestina por identificar no sofrimento do povo de lá algo muito semelhante ao que passou sob domínio inglês. Por isso, Mo Chara vê como sua responsabilidade dar plataforma a esse povo:

“Vamos continuar a fazer o certo pelos nossos irmãos e irmãs palestinos e usar nossa plataforma para o bem e usar nossa plataforma para garantir continuamente que eles se sintam vistos e ouvidos neste momento. Há partes que estão ativamente tentando silenciá-los e tentando silenciar pessoas que falam sobre eles.”

Kneecap (E-D): Moglai Bap, DJ Provai e Mo Chara. Na foto, com palestinos sobreviventes da Faixa de Gaza durante o Bilbao BBK Live 2025 (Foto: Aldara Zarraoa / WireImage via Getty Images)
Kneecap (E-D): Moglai Bap, DJ Provai e Mo Chara. Na foto, com palestinos sobreviventes da Faixa de Gaza durante o Bilbao BBK Live 2025 (Foto: Aldara Zarraoa / WireImage via Getty Images)

Esse assunto passa por Fenian como um todo e culmina em “Palestine”, música com participação especial de Fawzi. Protagonista da faixa, o rapper palestino tinha os membros do Kneecap como fãs. Fazia mais sentido trazê-lo, com seu lugar de fala, para discutir o tema.

Curiosamente, o convite veio através de uma conexão familiar. Mo Chara contou que a noiva do irmão de Móglaí Bap nasceu em Ramallah, também a cidade natal do artista, então ela acabou sendo a emissária para estabelecer a conexão.

“Quem é melhor para falar sobre as lutas palestinas do que os próprios palestinos? Então ela conseguiu entrar em contato e perguntamos se ele gostaria de participar. Dito isso, ele não está no álbum só porque é palestino, ele está no álbum porque somos grandes fãs dele e ele é a pessoa perfeita para representar os palestinos nele.”

Vinda ao Brasil

Em meio a tudo isso, Mo Chara deixou claro ao fim da entrevista o desejo do Kneecap de visitar a América Latina. O grupo chegou a visitar o México e fez um show em Cuba no mês de março, como parte de uma caravana de ajuda internacional à ilha em meio ao bloqueio feito pelos Estados Unidos. Entretanto, o trio não quer parar por aí:

“A próxima coisa é que queremos ir mais para baixo. Obviamente ouvi dizer que o Brasil é considerado um dos lugares mais legais do mundo. Acho que vocês são um pouco como os irlandeses: têm famílias grandes, adoram festejar muito, adoram fazer piada. A gente vai se enturmar super bem.”

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