Mais do que celebrar uma das trajetórias mais relevantes do cinema brasileiro, a homenagem a Helena Solberg na 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto abriu espaço para uma conversa enriquecedora com a cineasta. Em coletiva de imprensa realizada em Ouro Preto (MG), a documentarista refletiu sobre o cinema como guardião da memória, destacou a importância da preservação audiovisual e compartilhou os desafios de permanecer em atividade após mais de seis décadas dedicadas ao documentário.
Em uma edição cujo tema é “Um país existe nas imagens que preserva”, Helena afirmou que a preservação audiovisual não é apenas uma questão técnica, mas histórica. Ela lembrou o processo de restauração de seus filmes e citou um exemplo que considera emblemático: a perda de quase toda a produção brasileira de Carmen Miranda antes da ida da artista para Hollywood.
“Encontramos aqui no festival essa história dos filmes da Carmen. Restaram apenas quatro minutos. É um escândalo. A preservação da memória de um país é da maior importância.“
Documentário e ficção
A declaração dialoga diretamente com uma trajetória marcada justamente pelo interesse em registrar personagens e acontecimentos que muitas vezes ficaram à margem da história oficial. Esse olhar também explica por que Helena nunca fez distinção entre documentário e ficção.
Questionada sobre a mistura de linguagens presente em sua obra, respondeu que nunca conseguiu enxergar uma fronteira clara entre elas. “Eu acho que todo filme é um documentário, inclusive a ficção.” Segundo ela, mesmo um filme ficcional registra comportamentos, costumes e o tempo em que foi realizado. “Na ficção você percebe qual é a época, o comportamento, uma série de coisas. Para mim, essa fronteira nunca existiu.”
A própria origem de A Entrevista (1966), filme exibido na abertura da CineOP, surgiu dessa liberdade criativa. Helena contou que inicialmente pretendia apenas entrevistar jovens mulheres, mas quase todas desistiram quando perceberam que seriam filmadas. “Eu tinha uma trilha sonora e não tinha um filme.“
Em vez de abandonar o projeto, voltou às gravações e reinventou completamente a narrativa. “Quando eu voltei, o filme aconteceu. E aconteceu um filme muito mais interessante do que se eu tivesse simplesmente feito um documentário de moças contando suas histórias.“
Helena e o feminismo
“Eu estava interessada nas minhas questões. Queria descobrir quais eram as forças que atuavam na minha educação, na minha formação.” Décadas depois, prefere ampliar o debate. “Existem feminismos, mas eu não gosto de ser vinculada apenas ao feminismo. O feminismo verdadeiro é o humanismo.“
Helena e o Cinema Novo
A diretora também comentou sua relação com o Cinema Novo. Apesar da convivência com nomes como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Mário Carneiro, nunca sentiu necessidade de seguir exatamente o mesmo caminho artístico.
“Eu me considero parte da geração do Cinema Novo. Mas os rapazes estavam na deles e eu estava na minha.” Segundo ela, havia uma convivência intensa entre os cineastas da época. “Nós éramos uma geração muito próxima. Achávamos que íamos mudar o mundo.“
Próximo filme
Esse espírito de investigação continua presente em seu novo documentário, ainda sem previsão de estreia. O filme acompanha Wesley, um jovem negro, evangélico e de esquerda que disputa uma eleição em Duque de Caxias.
Ela admite que ainda procura compreender completamente seu personagem e faz uma confissão que resume sua forma de filmar. “No meio de um documentário você nunca sabe exatamente o que está fazendo, até encontrar o caminho outra vez.“
“Tenho muito medo do planeta hoje”
Ao olhar para o cinema contemporâneo, Helena acredita que a principal transformação veio com a tecnologia digital. Se antes cada metro de película precisava ser cuidadosamente planejado, hoje a facilidade de gravar também criou novos desafios: “Hoje se filma, se filma, se filma.” Ela observa que essa abundância de material muitas vezes dificulta o processo de montagem.
Mesmo após mais de 60 anos dirigindo, Helena diz que ainda aceita se perder durante o processo criativo. “Às vezes você está fazendo um filme e de repente se sente totalmente perdido.” Para ela, essa sensação faz parte da descoberta. “Você pode ser transformado pelo assunto que achava que conhecia.“
Ao final da coletiva, Helena ampliou o olhar para além do cinema. Perguntada sobre os temas que mais a preocupam atualmente, citou conflitos internacionais, o crescimento das tensões políticas e o impacto das novas tecnologias. “Não é só o Brasil. Estamos vivendo uma época muito complicada.”
Entre os exemplos, mencionou a guerra na Palestina, a política dos Estados Unidos e a inteligência artificial. “Tenho muito medo do planeta hoje.“
Confira a programação do 21º CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto:
MOSTRA COMPETITIVA CONTEMPORÂNEA
Pelo segundo ano consecutivo, a CineOP realiza a Mostra Competitiva Contemporânea, intitulada “Arquivos em Questão”. A seleção reúne cinco longas-metragens em pré-estreia nacional selecionados pelos curadores Cleber Eduardo e Juliana Gusman por compartilharem o uso criativo de imagens de arquivo como elemento estruturador de novas possibilidades de linguagem, estruturação e narrativa.
- Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas (Carlos Adriano, SP): ensaio cinepoético que parte do único registro filmado do escritor Marcel Proust para refletir sobre as possibilidades e impossibilidades de adaptação de sua obra monumental.
- Apopcalipse Segundo Baby (Rafael Saar, RJ): documentário que percorre a trajetória de Baby do Brasil desde os Novos Baianos até a carreira solo.
- Universo Circular – Jocy de Oliveira (Dácio Pinheiro, RJ) apresenta o percurso artístico da compositora e pioneira da música eletrônica no país, ainda em atividade aos 90 anos.
- Irritante Prodígio (Luiza Lindner, SP) investiga os limites entre autobiografia, performance e memória ao revisitar uma infância marcada por longos períodos de internação hospitalar e psiquiátrica.
- Notas sobre um Desterro (Gustavo Castro, DF) transforma imagens registradas por uma família brasileiro-palestina na Cisjordânia em uma reflexão sobre deslocamento, colonização e violência.
MOSTRA CONTEMPORÂNEA
Os longas e curtas-metragens em pré-estreia ampliam as discussões sobre memória e trauma, como acontece em Anistia 79 (Anita Leandro, RJ), que retoma imagens realizadas durante a Conferência Internacional pela Anistia, em Roma, em 1979, e revisita reflexões sobre os crimes da ditadura militar brasileira.
Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos, o Documentário (Paulo Severo, RJ) recupera materiais inéditos das gravações do disco lançado em 1995 e reconstrói um período decisivo da música brasileira.
Outro artista representado nos filmes aparece em Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha (Luis Abramo e Pedro Rossi, RJ), dedicado ao realizador do clássico Viagem ao Fim do Mundo (1968) e ao seu projeto de um cinema poético e radical. As Dores do Mundo – Hyldon (Emilio Domingos e Felipe David Rodrigues, RJ) e Vivo 76 (Lírio Ferreira, PE) completam a seleção.
MOSTRA HISTÓRICA E HOMENAGEM
A seleção reúne obras representativas, como Feminino Plural (Vera de Figueiredo, RJ), lançado em 1976; Mar de Rosas (Ana Carolina, RJ, 1977); Que Bom Te Ver Viva (Lucia Murat, RJ, 1989), que articula depoimentos de ex-presas políticas e ficção para refletir sobre as marcas da ditadura; Um Céu de Estrelas (Tata Amaral, SP, 1996), drama de violência doméstica concentrado em uma única noite; e Um Dia com Jerusa (Viviane Ferreira, SP, 2020).
Confira a programação completa do 21º CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, que acontece entre os dias 25 e 30 de junho, clicando aqui.
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