Você lembra do primeiro vinho que bebeu? Eu lembro do meu. Foi um vinho de garrafão, anônimo, servido em uma caneca, na Adega Velha Raposa, na Ilha do Governador, no final dos anos 80. Quem servia era o Eurico, um gaúcho figuraça que comandava o pequeno bar como extensão da própria casa. Lá pela madrugada, depois de algumas canecas, ele abria espaço no salão e dançava uma chula gaúcha, batendo os pés com energia que parecia brotar do chão.
O vinho era de garrafão, sem rótulo, sem origem clara. No menu só havia tinto suave e tinto rascante. Mas havia ali algo muito mais forte do que o vinho em si: o ritual de beber, a descoberta, a sensação de entrar num mundo adulto até então proibido. Eu bebia escondido dos meus pais e voltava para casa a pé, tentando suar o álcool antes de chegar, com a regra tácita de não abrir a boca — senão minha língua roxa me denunciaria.
Depois vieram os espumantes doces, os Asti moscatéis, e nos anos 1990 os brancos alemães de garrafa azul. Em ocasiões especiais, surgia o Liebfraumilch — o original alemão, que para muitos brasileiros foi a porta de entrada nos vinhos importados.
Depois veio a fase da potência. No final da década de 90 o Chile trouxe tintos frutados e maduros; no início dos anos 2000, a Argentina veio com os potentes malbecs. Era o estilo da época — moderno, poderoso — e eu me encantei por aqueles exemplares sul-americanos como praticamente todo mundo que acompanhava o vinho naquele momento.
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Hoje meu gosto mudou. Ultrapassei faz tempo a marca dos 100 000 vinhos provados e provo milhares por ano, quase sempre por trabalho. Quando chegam as raras horas livres, percebo algo curioso: tudo o que eu não quero são tintos jovens e encorpados.
Busco vinhos que já fizeram o trabalho duro do tempo: safras antigas, onde os taninos viraram seda e os aromas se transformaram em camadas complexas. Ou então champanhes e rieslings alemães — aqueles mesmos das garrafas azuis da juventude, agora em versões muito mais sérias e fascinantes.
De certa forma, dei uma volta completa. Comecei com vinhos simples e doces, passei pela fase da potência e hoje encontro prazer na delicadeza, no frescor e na moderação alcoólica. Com o tempo aprendemos que força não é tudo, que elegância fala mais baixo — e, exatamente por isso, diz mais.
O gosto muda porque nós mudamos. E há algo de reconfortante em perceber que o vinho continua evoluindo conosco. Ou, quem sabe, que somos nós que finalmente aprendemos a escutá-lo.
Carpineto Chianti Classico Riserva 2019
80% sangiovese e o resto de canaiolo e outras castas da região de Chianti, com doze meses em barricas de carvalho francês e eslaveno. Cor granada. Aromas de frutas vermelhas maduras, especiarias doces, café, florais, cedro e tabaco. No paladar, mostra estrutura firme, acidez vibrante e taninos polidos. R$ 219,90, na Wine.
Gustav Riesling Trocken Rheinhessenn
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