A primeira experiência da Lucélia no Airbnb foi por um motivo tão especial quanto inusitado: levar seu filho adotivo para conhecer a mãe biológica em uma grande reunião familiar.
“Eu precisava de um lugar que fosse bem especial, além de espaçoso, porque precisava comportar 27 pessoas! E queria uma casa pé na areia, que também tivesse piscina. Estava difícil de achar porque eu tinha muitos requisitos”, brinca. E foi aí que uma amiga dela recomendou o Airbnb.
Mas para entender direitinho essa história, é preciso voltar um pouco no tempo. Lucélia, de São José dos Campos (SP), vive na Califórnia com o marido, João, desde 1999. Em 2007, tiveram conhecimento de um menino recém-nascido disponível para adoção no Brasil. “Na hora, soubemos que era nosso filho”, conta. Depois de um processo difícil e desgastante, conseguiram adotar John Rafael e levá-lo para os Estados Unidos, onde cresceu. Seu passado e sua origem, porém, sempre ficaram vivos no cotidiano da família.
“Eu fui contando aos poucos, de forma natural e gradual, que ele era filho do coração, e não da barriga. Dizia que ele tinha uma outra mãe, e a gente rezava por ela antes de dormir”, diz.
Anos mais tarde, durante uma temporada no Brasil, Lucélia sentiu vontade de procurar a mãe biológica de John Rafael e, depois de uma alguns meses, conseguiu o telefone de sua mãe biológica, que também queria conhecer John Rafael. O primeiro contato aconteceu perto do aniversário de sete anos do menino. Lucélia fez a ligação e passou o celular para ele, que já atendeu dizendo: “Alô? Mamãe?”.
“Foi uma decisão difícil, tive medo de estar colocando o John em uma situação delicada. Mas fui percebendo que sua família biológica também queria se reconectar com ele, e fomos nos aproximando. Pensei: se ele pode ter duas famílias, por que não?”, lembra.
A relação seguiu entre trocas de fotos e conversas por vídeo até que, em 2021, John Rafael já com 15 anos, decidiu que era hora de ir ao Brasil para o reencontro.
“Eu queria que minha mãe, minha prima, meu irmão e outros parentes também fizessem parte desse momento, então tive a ideia de juntar todo mundo em uma casa na praia”, explica Lucélia. O espaço escolhido foi dentro de um condomínio de frente para a praia de Lagoinha, em Ubatuba (SP). A mãe biológica de John Rafael e seu segundo filho voaram de Fortaleza (CE), onde vivem, para São Paulo (SP), e de lá partiram para o litoral. Foram três dias intensos, “que pareceram uma semana toda”.
“Todos os abraçaram como uma extensão da nossa família, e a casa possibilitou essa convivência. Eu adorei porque tinha uma mesa de café da manhã quilométrica, onde a gente podia começar o dia juntos”, lembra Lucélia.

A viagem foi um divisor de águas: eles puderam sentar e conversar olho no olho, pela primeira vez, e esclarecer dúvidas e angústias sobre o passado. “E o irmão do John acabou virando um grande amigo. Para mim, é como se fosse meu segundo filho. Porque pra gente, família é feita de escolhas, não precisa ser de sangue, só precisa ter amor”.



