Para Silvana Estrada, o Brasil tem algo de mítico. É uma mistura de admiração, mistério e um fascínio que vem de longe. Ela cresceu ouvindo Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa. Cresceu encarando o país como um destino improvável, quase inalcançável. “Tenho a impressão de que o Brasil é como um país dos sonhos”, conta a cantora mexicana de 28 anos, em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil. “É o meio da América Latina, um continente onde se fala o mesmo idioma de ponta a ponta”.
Agora, dois anos após a primeira passagem pelo país, Silvana retorna ao Brasil com a turnê de Vendrán Suaves Lluvias, que acompanha seu segundo álbum de estúdio e a colocou na capa da edição Rolling Stone Espanha.
Mas, mais do que divulgar o disco — aclamado pelos fãs e indicado ao Grammy Latino —, ela está realizando um sonho antigo: aproximar México e Brasil. E, desta vez, traz um segredo. “Agora estou fazendo algumas colaborações com alguns artistas brasileiros”, revela. “Não posso dizer quem, mas estou muito contente e animada, porque sempre sonhei em conectar o México com o Brasil de alguma maneira”.
Vulnerabilidade coletiva
A recepção do público brasileiro surpreendeu até quem já tocou pelo mundo todo. Em dois anos, algo mudou. O que antes era curiosidade virou uma comunidade forte e consolidada. “Sinto que há um fandom muito forte e uma comunidade que nasce dos shows. As pessoas fazem amigos, conversam entre si”, conta Silvana.
E não é exagero. Nos shows em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, o público canta todas as letras. Em espanhol. “Te juro que me dá vontade de chorar. Sabem as letras de um disco que saiu há apenas quatro meses, já sabem tudo e cantam em espanhol”.
Há algo nos shows de Silvana Estrada que vai além da música. Ela define como “uma espécie de serviço”. Não é religioso, faz questão de frisar. Mas é ritual. “Acho que gero uma intimidade com o público, e essa intimidade vira vulnerabilidade. E acredito que, nessa vulnerabilidade compartilhada, ou vulnerabilidade coletiva, tento gerar isso em todos os shows”.
O processo é consciente. “Não sei. Estou no meio desta cidade onde não falo o idioma, é a primeira vez que conheço todas essas pessoas, mas, de alguma maneira, vou colocar minha vulnerabilidade, meu corpo, minha honestidade e minha transparência, para que as pessoas também possam fazer o mesmo”. É isso que cria comunidade. É isso que faz pessoas se conhecerem nos shows, virarem amigas e cantarem juntas letras em outro idioma.
E, no meio de tudo, veio um encontro que Silvana não esperava. Durante a passagem por Santiago, no Chile, a equipe de Gilberto Gil se aproximou: “Gil quer conhecer”. Embora tenham sido apenas 50 segundos, Silvana descreve como “50 segundos muito mágicos”.
“Ele é uma pessoa incrível. Tem uma energia de templo, é como se ele mesmo fosse um templo. Está acima de tudo, muito elevado”. Silvana perguntou como ele estava. A resposta ficou marcada: “Eu estou sempre tranquilo. Eu só quero cantar”.
Disciplina e foco
A turnê de Vendrán Suaves Lluvias é a maior que Silvana já fez. São 60 shows até o fim do verão europeu, e isso exigiu mudanças. “Estou improvisando um pouco, porque nunca tinha feito tantos shows em tão pouco tempo”. Nada de álcool. Dormir cedo. Cuidado extremo. “Estou mais saudável do que nunca, com energia e vontade de fazer as coisas”.
Mas o cuidado maior é mental. “Me preparo mentalmente. Penso: estes são meses em que eu preciso me doar 100%. Não se trata de mim, mas dos shows, do serviço, de dar, de encher o coração das pessoas”. Isso exige gestão de energia. “Quando há tanto trabalho, a música é um pouco como fazer esporte: é muito físico. É preciso ter disciplina, se cuidar e gerir a energia da melhor forma possível”.
Do México ao Brasil, da admiração à distância à colaboração de perto, Silvana Estrada constrói a ponte que sempre quis. Brasileiros cantam suas letras em espanhol, choram com ela, formam comunidade. E Silvana, com 60 shows pela frente e colaborações secretas com artistas brasileiros, prova que o intercâmbio cultural entre duas das maiores potências musicais da América Latina não é mais um sonho distante.
É a realidade acontecendo agora, no palco, na vulnerabilidade compartilhada, no serviço de preencher corações. “Acho que na América Latina há uma admiração muito forte pelo Brasil”, resume. “E sinto que é bonito vir e abrir esse diálogo”. O diálogo está aberto. E a música, como sempre, é quem guia.
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