Em décadas de existência, o Black Sabbath deixou 19 álbuns de estúdio gravados — além de um disco registrado sob o nome Heaven & Hell. Um catálogo que trouxe a contribuição de cinco vocalistas, cinco baixistas e seis bateristas, além de apenas um guitarrista, Tony Iommi, presente em todas as formações.
A obra deixada pelo grupo fundado por Iommi, Ozzy Osbourne (voz), Geezer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria) foi determinante para o desenvolvimento do heavy metal como o conhecemos. Se há discussão em torno do real pioneirismo — já que havia grupos trabalhando naquele tipo de sonoridade antes deste quarteto —, é indiscutível que, com o Sabbath, o gênero musical teve suas bases devidamente estabelecidas.

Não só isso: conforme o desenrolar de sua discografia, o Black Sabbath seguiu a inovar, com novos conceitos sonoros que criaram ou ajudaram na criação de outros subgêneros dentro do heavy metal. Doom e stoner vieram das mãos deles; thrash e sludge surgiram de modo indireto.
Dentro deste catálogo, quais as melhores obras? Um top 5 foi preparado especialmente para a Rolling Stone Brasil.
Os 5 melhores álbuns do Black Sabbath
5) Heaven and Hell (1980)
Sim, a lista começa com alguma polêmica, pois há quem defenda a superioridade dos seis primeiros álbuns do Black Sabbath em relação a todo o catálogo. No entanto, é inegável a contribuição de Ronnie James Dio, primeiro substituto de Ozzy Osbourne, para manter o grupo relevante após uma baixa tão significativa na formação.

Além da dupla dinâmica Dio/Iommi, Heaven and Hell se beneficia bastante da contribuição de Martin Birch, produtor que fez história ao lado do Deep Purple e formaria uma longa obra com o Iron Maiden nos anos seguintes. Com Birch, o Sabbath passou a soar claro e cristalino, mas sem abdicar do peso — o que casou bem com a voz poderosa e quase teatral de Ronnie. O estilo de composição do cantor, com mais contrastes e dinâmicas diferentes, também saiu ganhando com a presença de Martin.
Nada disso adiantaria sem músicas incríveis. A infalível abertura “Neon Knights”, a melódica “Children of the Sea” e a poderosa faixa-título são apenas os destaques de um álbum consistente por completo.
4) Sabotage (1975)
Talvez o álbum mais subestimado do Black Sabbath. Sabotage não é amplamente criticado, mas raramente figura em posição alta nas listas de “melhores discos” do grupo. O caráter experimental e o período conturbado no qual foi criado podem não contribuir tanto, mas basta dar uma chance para perceber a qualidade deste trabalho.

Na prática, Sabotage eleva a outro patamar os experimentos de Vol. 4 (1972) e Sabbath Bloody Sabbath (1973), com mais violões, coros (“Supertzar”) e sintetizadores Moog (“Am I Going Insane (Radio)”), além de composições mais elaboradas, a exemplo de “Megalomania” e seus quase 10 minutos de duração. E quando a banda decidia soar pesada, não brincava em serviço, vide as faixas introdutórias “Hole in the Sky” e “Symptom of the Universe” — esta, para muitos, a primeira canção de thrash metal da história.
O álbum de 1975 ainda guarda um diferencial e tanto: traz a melhor performance vocal da carreira de Ozzy Osbourne. Embora muito talentoso e carismático, o vocalista nunca se notabilizou por seu amplo domínio de técnicas vocais. Em Sabotage, porém, ele se força ao limite ao explorar seu alcance e repertório de canto. A este repórter, o guitarrista Zakk Wylde chegou a dizer que, nesse disco, Osbourne esteve no mesmo patamar de nomes como Robert Plant e Ian Gillan, famosos pelos “malabarismos” diante do microfone. Impossível discordar.
3) Paranoid (1970)
Tem quem possa estranhar Paranoid não estar no topo da lista. Há explicação. Apesar de seu arsenal de hits, a gravação apressada e a produção pouco sofisticada — embora charmosa — de Rodger Bain fazem com que, como álbum, esta obra não fique no primeiro lugar.
Longe de ser demérito. Paranoid é um dos melhores trabalhos da história do heavy metal. “War Pigs”, com sua letra ferozmente politizada e linhas de baixo pesadíssimas está entre as faixas de abertura mais impactantes do rock como um todo. A faixa-título é um clássico instantâneo, assim como “Iron Man”. A dobradinha final “Rat Salad” e “Fairies Wear Boots” mostra por que Bill Ward foi um dos bateristas mais talentosos de seu tempo.

Aqui, aliás, todo o Sabbath mostra o quão diferenciado é. Em “Planet Caravan”, por exemplo, eles trazem elementos psicodélicos e experimentais. A anteriormente citada “Rat Salad” traz nada menos que um solo de bateria. Mais do que no álbum de estreia, em Paranoid dá para notar a forte influência de jazz da cozinha composta por Ward e Geezer Butler.
2) Vol. 4 (1972)
A depender do humor deste escriba, Vol. 4 poderia figurar na primeira posição. O álbum de 1972 representa a primeira ampliação real das influências do Black Sabbath, bem como os excessos vivenciados em um período de drogas e ostentação. Às vezes, fica quase ensolarado, mas nunca abdica do peso.
Tony Iommi é o grande destaque aqui. O guitarrista, visto desde o início como a liderança criativa do grupo, assume a produção e direciona todo o trabalho para além de seus próprios riffs. Vêm especialmente dele as influências mais progressivas ouvidas em “Wheels of Confusion” e “Under the Sun”, bem como a abordagem acústica de “Laguna Sunrise” e o piano de “Changes”. Fora as estruturas de composição ainda menos convencionais.

Como habitual, quando o Sabbath decide soar pesado “à moda antiga” em Vol. 4, não brinca em serviço. Nesses momentos, Bill Ward se sobressai, seja pela condução característica de “Snowblind” ou pela sonoridade porradeira de “Supernaut” — a faixa do grupo que John Bonham, do Led Zeppelin, mais gostava.
1) Master of Reality (1971)
Por incrível que pareça, Ozzy Osbourne não gostava de Master of Reality. Considerava bem inferior a Vol. 4. Mas até o Madman errava em seu julgamento. O terceiro álbum do Black Sabbath soa perfeito justamente por estar no meio do caminho entre a inocência dos dois primeiros discos e o amadurecimento percebido nos trabalhos seguintes.
Em Master of Reality, o Sabbath trabalharia com um pouco mais de tempo pela primeira vez: as gravações duraram duas semanas, não apenas dias (como em Paranoid) ou horas (a exemplo da estreia). Só de contar com um respiro extra, nasceu uma inovação: o uso de afinações mais graves, com um tom e meio abaixo do padrão. A ideia era facilitar a vida de Tony Iommi, pois o guitarrista canhoto não tem as pontas de dois dedos da mão direita, mas trouxe como reflexo uma sonoridade bem mais pesada.
Este disco se beneficia pelo fato de não ter filler. Nada fica sobrando aqui. Seus 34 minutos de duração são redondinhos, seja pela qualidade das composições ou pelos músicos estarem mais integrados. A dinâmica entre Tony Iommi e Geezer Butler deu sinais de evolução, com linhas de baixo que cada vez menos se limitavam a dobrar os riffs de guitarra; Bill Ward volta e meia surpreende com andamentos longe do convencional e Ozzy Osbourne começa a se desafiar mais em termos vocais.

Experimentos como a contemplativa “Solitude” e alguns riffs mais solares de “After Forever” — rara canção desta época a ter letra escrita por Iommi — indicam o caminho dos álbuns seguintes; porém, Master of Reality fica realmente delicioso nas partes mais intensas. “Sweet Leaf” é um arregaço, enquanto “Children of the Grave” e “Into the Void” têm um tipo de peso que, até hoje, nenhuma outra banda conseguiu reproduzir. Passaram-se mais de 50 anos. Ninguém jamais fará igual.
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