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O Retorno dos Reis: Por Dentro da Turnê de Cinquenta e Tantos Anos do Rush – Rolling Stone Brasil

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Em sua longa jornada para voltar a ser o Rush, Geddy Lee e Alex Lifeson superaram a morte, doenças, a idade, a insegurança e, no caso de um deles, um hábito de fumar maconha que remontava a 1966. Eles só não contavam com a neblina.

No início de junho de 2026, a banda ressuscitada estava prestes a fazer seu primeiro show em 11 anos, dando início à turnê Fifty Something. Nos bastidores do Kia Forum, em Los Angeles, naquela noite de domingo, Lee estava tenso; Lifeson, nem tanto. “Surpreendentemente, eu não estava tão nervoso”, diz o guitarrista. Quando chegou a hora do show, as telas de vídeo ao redor do palco começaram a subir, revelando duas silhuetas familiares, acompanhadas de suas guitarras de dois braços, envoltas por espessas nuvens de fumaça. Lifeson colocou o pé no pedal de volume, pronto para liberar as notas crescentes que dão início a “Xanadu”, de 1977.

À medida que mais fumaça se espalhava, ele conseguia sentir o peso de 5,4 quilos de sua guitarra sobre a coluna, mas não enxergava um único traste. Por um instante, pelo menos, o “não estava tão nervoso” se transformou em quase pânico. A poucos metros dali, Lee olhou para um pequeno espelho que deveria permitir que ele acompanhasse a baterista Anika Nilles. Naquela névoa, seu retrovisor havia desaparecido. “Estávamos nos afogando na neblina”, diz Lee, rindo do absurdo digno de Isto É Spinal Tap.

Quase cegos, mas sem se deixar abalar, começaram a música. Nos primeiros momentos de seu primeiro show com o Rush, Nilles passou freneticamente pela longa sequência de viradas de bateria exclamativas da introdução de “Xanadu”. Um minuto depois, ela martelava o acompanhamento pesado nos tons de uma longa passagem instrumental. “Não erre essa virada”, lembra ela de ter dito a si mesma, justamente quando sua mão esquerda perdeu a pegada: “Vi essa baqueta voando por cima dos tons”. Ela perdeu uma única batida, o suficiente para provocar um olhar preocupado de Lee, antes de continuar tocando com uma só mão. No mesmo milésimo de segundo, de alguma forma, ela agarrou a baqueta perdida no ar, virou-a e continuou. “Acontece”, diz ela, ainda sem se abalar. “Você deixa a baqueta cair. Como baterista, você está acostumado com isso.” (“Ela é profissional”, acrescenta Lee. “Ela esteve à altura da ocasião na noite de estreia.”)

Aos 43 anos, Nilles, natural de Aschaffenburg, na Alemanha, é três décadas mais jovem que seus novos companheiros de banda. Quando ela nasceu, o Rush estava prestes a gravar seu décimo álbum, Grace Under Pressure. Ela já sofreu com medo de palco no passado, mas, na noite de maior responsabilidade de sua carreira, estava tranquila o suficiente para abrir um sorriso logo depois de recuperar a baqueta. Ajudou o fato de ela ter meditado por 45 minutos inteiros antes do show, como parte de uma “rotina para se acalmar”. “Em cada parte de cada música”, diz ela, “precisava me orientar um pouco, especialmente no primeiro show, para não sair voando.” Ela tentou não pensar no panorama geral. “Tudo isso ajudou a não pensar demais no tamanho daquele lugar e no papel que estou ocupando nele, no momento em que estou sentada no palco. Esteja no momento, esteja presente, esteja focada.”

O lugar que ela ocupa, é claro, sempre pertencerá a Neil Peart, que morreu de câncer no cérebro em 2020. Aquela noite em Los Angeles foi o primeiro show do Rush sem ele desde sua estreia, em 14 de agosto de 1974. Peart era um virtuose único, um dos maiores bateristas que o rock já conheceu, e suas partes monstruosamente complexas eram tão intrínsecas ao som do Rush que a ideia de substituí-lo durante muito tempo pareceu inimaginável. Ele também era o letrista da banda, dando ao maior power trio do Canadá uma ambição intelectual e uma alma poética, após algumas adoráveis incursões pela ficção científica e fantasia em seus primeiros anos. “Somos imortais apenas”, canta Lee em “Dreamline”, de 1991, “por tempo limitado”.

“Por que você faz isso? É um teste”, diz Lee, que completou 73 anos em julho. “É uivar para a lua! É dizer: ‘Estou nessa idade agora. Será que ainda consigo fazer isso?’ Esses momentos de insegurança, é claro que todos nós temos. Anika tem esses momentos, e ela é muito mais jovem do que nós, aparentemente. Isso é ser humano. Você sempre duvida que consegue se superar e tocar no seu auge.”

Para Lifeson, essa luta foi real e visceral. “No último mês de ensaios”, diz ele, “houve momentos em que eu estava sentado na beirada da cama, às duas da manhã, pensando: ‘Será que tomei a decisão certa? Será que consigo fazer isso? Será que consigo tocar? Será que sou bom o suficiente?’ Foi só no domingo, quando fizemos aquele show, que tudo meio que desceu por esse funil e transbordou. Foi naquele momento que pensei: ‘É, tudo isso valeu a pena. É aqui que eu realmente estou feliz de estar’. Estou cansado esta semana. Mas estou realmente, sinceramente feliz.”

Lee queria voltar aos palcos desde o momento em que a banda se despediu, em agosto de 2015, mas confirmar a turnê significou muitos meses de trabalho árduo. Sua filha, Kyla, disse que mal viu um sorriso de verdade no rosto dele durante um ano e meio. “Na minha trajetória como músico, não acho que tenha ensaiado tanto individualmente e também como banda”, diz Lee. “É claro que precisávamos, porque era uma tarefa monumental… No último mês e meio, acho que em determinado momento fizemos o show 24 vezes em 27 dias. Faz muito tempo que não estávamos em um palco, e colocamos tanto do nosso coração e da nossa alma em moldar o show e aperfeiçoar nossas partes. E quando a cortina sobe, você simplesmente nunca sabe qual versão de si mesmo vai aparecer.”

Deixando de lado o nervosismo da estreia, o primeiro show acabou sendo um triunfo, com o público abraçando Nilles imediatamente e até com gratidão. Na terceira e quarta noites, qualquer nervosismo restante já havia desaparecido. Lifeson percorria o palco, tentando fazer a nova baterista rir. “Estamos muito mais soltos do que já fomos”, diz Lee. “Mais bobos.”


Há apenas dois anos, Lifeson me disse que sua decisão estava tomada. “Não há chance de que vamos arrumar um baterista e voltar à estrada como o renascimento do Rush ou algo assim”, disse ele em maio de 2024. Ele e Lee haviam acabado de voltar a tocar músicas do Rush em particular, mas Lifeson insistia que era apenas por diversão. Ele estava gravando com uma banda chamada Envy of None, mas, fora isso, parecia um homem em paz com a semiaposentadoria. “Eu realmente sentiria que estaríamos cometendo uma injustiça com nossos fãs e que isso seria apenas uma maneira de ganhar dinheiro.” Alguns meses depois, em outra entrevista, foi ainda mais longe, chamando a turnê R40 de um ponto alto: “Acho que prefiro ser lembrado por esse legado a voltar como a melhor banda cover do Rush.”

Em setembro de 2022, durante dois shows-tributo ao falecido baterista do Foo Fighters, Taylor Hawkins, Lee e Lifeson tocaram juntos pela primeira vez desde a morte de Peart, acompanhados por uma formação rotativa de bateristas. Antes disso, eles haviam deixado claro que o Rush tinha acabado: “Terminou, certo? Acabou”, Lee me disse no fim de 2020. Depois de sentirem novamente suas músicas sob os dedos, já não tinham tanta certeza — e não atrapalhou o fato de Paul McCartney tê-los incentivado a voltar à estrada nos bastidores, depois do primeiro show, no estádio de Wembley. Na sequência, Lifeson ficou brevemente empolgado com a ideia, mas depois pareceu mudar de opinião. Lee continuou insistindo e, ao longo do caminho, começou a achar cada vez mais intrigantes os comentários de Lifeson em entrevistas. “Al é ótimo em dizer uma coisa na sua cara e depois dizer outra em público”, Lee diz agora. “Você fica tipo: ‘Ah, isso é interessante’.”

Lifeson dá de ombros. “É, eu meio que faço isso mesmo.” Eles estão sentados lado a lado no estúdio escuro no porão do Sunset Marquis, em West Hollywood, seu hotel de referência desde os anos 1970.

Lee tem um carinho ilimitado pelo melhor amigo, mas havia uma parte dos comentários públicos de Lifeson que ele considerava intolerável. “Eu sei como ele se sente e como se sente há muito tempo”, diz Lee. “Somos amigos antes de tudo. Mas… quando ouvi aquela história sobre tributo? É tipo: ‘São as suas músicas, seu filho da puta!’ Não é uma banda cover! Nós somos donos dessas músicas tanto quanto éramos com Neil. E elas fazem parte de nós. Fazem parte da sua alma. Fazem parte do seu coração. E, quando começamos a tocá-las juntos novamente, isso meio que despertou algo nele.”

Lifeson acha que estava tentando enviar mensagens por meio da imprensa que não tinha coragem de dizer pessoalmente a Lee. “Talvez eu estivesse tentando dar uma espécie de sinal”, diz ele. “Eu queria criar uma barreira que não precisasse ultrapassar, dizendo: ‘Ah, não, não quero estar em uma banda cover do Rush’, blá, blá, blá.”

Como Lifeson me contou em 2024, sua relutância era tanto física quanto emocional. Após duas cirurgias malsucedidas, ele sofreu de paralisia do estômago, a gastroparesia, que o deixava constantemente nauseado. Também enfrentava um problema contínuo de artrite nas mãos, embora medicamentos mantivessem a condição em grande parte sob controle. Ele também percebeu que tinha pavor de pegar a estrada. “Você pode sentir que um quarto de hotel é uma prisão”, diz. “Pode ser um lugar solitário. Eu não sabia se realmente queria fazer isso.”

Ele começou a ceder em 2025, durante uma temporada na VivaMayr, uma renomada clínica de bem-estar às margens de um lago no interior da Áustria, onde a equipe cria programas personalizados de alimentação com baixas calorias, massageia seu estômago diariamente e ensina você a mastigar o pão 40 vezes. Lee decidiu acompanhá-lo, “para dar apoio moral”, e acabou gostando da experiência, apesar da proibição de álcool e cafeína. Lifeson perdeu 13,6 quilos ao longo de duas visitas e aprendeu a lidar com seus problemas digestivos. “Realmente me colocaram nos eixos”, diz ele.

Enquanto estavam lá, a dupla montou um estúdio no quarto de Lifeson, com equipamentos enviados de casa e instrumentos conseguidos em uma loja de música local. Todos os dias, depois dos tratamentos, começavam a fazer música. “Realmante entramos naquilo”, diz Lee. “E, quando você combina essa sensação com o fato de que ele estava se sentindo bem, acho que foi isso que o convenceu de que talvez devêssemos pensar sobre a possibilidade.”

Lee havia acabado de terminar seu terceiro livro, e a inquietação começou a tomar conta. “Não gosto de ficar sem um projeto. Não fico feliz se não tenho algo que me envolva”, diz ele. “Pensei: ‘Certo. Hora de escrever algumas letras e colocar os dedos em forma’.” Por algum tempo, imaginou que poderia estar trabalhando em seu primeiro álbum solo desde 2000, talvez até em sua primeira turnê solo. Algumas das letras que estava escrevendo pareciam pessoais demais para o Rush — sem contar que não cantava suas próprias letras com a banda desde o primeiro álbum, antes da entrada de Peart. “Mas, antes de chegar a esse ponto”, diz ele, “a faísca aconteceu.”

Lifeson teve de admitir. “Quando nos sentamos, não era para fazer parte de uma banda cover do Rush”, diz ele. “Era para ser o Rush. Em uma de suas melhores formas. E isso era uma coisa completamente diferente.”

Lifeson ainda tinha uma mudança de vida pela frente. Ele fumou maconha pela primeira vez aos 13 anos e, embora tenha passado por períodos de abstinência, ela foi uma companhia relativamente constante nos últimos 20 anos. “No estúdio, eu gostava”, diz ele. “Achava que despertava um tipo de criatividade diferente daquela do mundo careta.” Quatro meses antes do início da turnê, aos 72 anos, ele parou.

Quando ficava chapado à noite e pegava a guitarra, como era seu ritual, ele “não estava tocando tão bem. E comecei a ter esses sentimentos negativos sobre minha confiança e sobre o que estava por vir. Estávamos na metade do processo. Era tarde demais para abandonar esse navio que avançava em disparada pelo mar. E pensei: isso está interferindo na maneira como meu cérebro deveria funcionar e no tipo de foco e disciplina que, de repente, eu realmente queria ter na minha vida”.

Ele iniciou uma verdadeira operação de eliminação do THC. “Levantei, fui ao banheiro, peguei todos os meus potinhos de maconha e os cachimbos e joguei tudo em um saco de lixo”, conta. “Depois fui à cozinha, peguei todos os meus cachimbos e joguei tudo no lixo. Então fui ao estúdio e vi um recipiente com cigarros de maconha pré-enrolados e pensei: ‘Ah, gosto muito desses. Talvez eu fique com eles’. E pensei: ‘Al, essa não é a ideia’. Então joguei aquilo também. Fui a todos os lugares onde tinha pequenos esconderijos. Era um saco de lixo cheio de cachimbos, bongs e maconha, maconha, maconha, maconha. Todos os meus amigos disseram: ‘Por que você jogou tudo fora? Devia ter me ligado. Eu teria ficado feliz em pegar’.”

Inicialmente, ele planejava ficar sem fumar por uma semana, depois por um mês. “O THC permanece no seu organismo por, normalmente, 30 dias”, diz ele. “Cheguei a um mês e pensei: ‘Meu Deus, talvez eu simplesmente tente ficar dois anos sem, durante toda a turnê’.” Ele não se arrepende. “Outro dia eu estava no palco pensando: graças a Deus não estou mais fumando maconha, porque estou muito mais lúcido. Não procrastino como antes. Minha memória está muito melhor. É tudo aquilo que dizem sobre a cannabis. Eu nunca acreditei.” Ele também praticamente parou de beber. “Foi realmente uma experiência positiva. Eu não esperava por isso e torcia para que não fosse.”

A atenção de Lifeson aos detalhes pode facilmente rivalizar com a de seu companheiro de banda. Para esta turnê, decidiu abandonar os amplificadores físicos de guitarra em favor de uma emulação digital, com sons configurados para reproduzir com precisão os amplificadores e efeitos usados em estúdio em cada música. “Ele tem essa porra de configuração incrivelmente complicada de pedais e sons”, explica Lee, “só porque quer que cada momento da música seja fiel ao momento original daquela música.”

Lifeson ajustava esses sons durante todos os ensaios, e Lee nem sempre gostava dos atrasos de 30 minutos que isso podia provocar. Mesmo com a turnê já em pleno andamento, ele continua ajustando essas predefinições. “Sempre tem alguma coisa que quero deixar um pouquinho melhor”, revela Lifeson. “E eu gosto disso. É o que me mantém em movimento. E é assim que meu cérebro funciona.”

Lee ri. “Ele é um guitarrista do caralho. Existe uma velha piada de estúdio sobre um guitarrista tentando encontrar um som. O produtor diz: ‘É isso. Está perfeito!’ E o guitarrista responde: ‘Tá bom, vou mudar’.”

Rush
Alex Lifeson e Geddy Lee, do Rush (Foto: Richard Sibbald)

“Como você substitui alguém que não pode ser substituído?” Essa, nas palavras de Lee, era a pergunta que pairava no ar.

No outono de 2022, o técnico de baixo de longa data de Lee, John “Scully” McIntosh, saiu em turnê com Jeff Beck. Beck havia recrutado uma nova baterista com um número expressivo de seguidores na internet, uma tal de Anika Nilles, e Scully imediatamente prestou atenção. Ele entrou em contato com Lee, que acabara de se apresentar nos shows-tributo a Hawkins, sugerindo-a como uma possível colaboradora.

Lee, devidamente, foi procurá-la no YouTube. Nos vídeos da turnê de Beck, Nilles, de óculos escuros, toca com um groove à la John Bonham, passando tranquilamente pelo material mais complexo de Beck e pelos chimbais ligeiros de “Stratus”, de Billy Cobham, disparando uma sucessão de viradas monstruosas. Em vídeos de músicas solo como “Alter Ego”, sua técnica é mais explicitamente elaborada, com partes em constante transformação e um notável senso de melodia percussiva, enquanto brinca com polirritmos e compassos incomuns. Há até um vídeo didático em que ela mostra aos bateristas como pensar em quiálteras de cinco.

Lee, que entende um pouco de grandeza na bateria e de compassos estranhos, ficou impressionado. “Eu fiquei tipo: ‘Meu Deus, ela é muito boa’”, elogia Lee. “Ela é muito interessante. Tem muito carisma, carisma pessoal, e presença.” Ele guardou o nome na memória, mas, durante três anos, diz, “simplesmente guardei isso para mim”.

Quando Lifeson estava totalmente a bordo, o guitarrista sugeriu “alguns outros caras que talvez estivesse pensando que poderiam funcionar para o show”, lembra Lee. Mas pediu a Lifeson que fosse conhecer Nilles, e o guitarrista voltou convertido. “Entendo o que você gosta nela”, analisou Lifeson. “Ela é muito boa.” Scully fez o contato, uma apresentação por Zoom correu bem e Lee fez o convite: “Você gostaria de vir a Toronto para simplesmente tocar juntos e mandar ver?”

Apesar de todo o domínio técnico de Nilles, Lee e Lifeson não estavam completamente convencidos até o quinto dia daquela audição informal. Ela era tão conhecida em seu meio que já havia estampado a capa da Modern Drummer em 2017, mas a turnê com Beck era seu único trabalho de grande visibilidade no mainstream. Beck nunca dizia a Nilles o que tocar ou como tocar, o que a deixou com ideias preconcebidas pouco adequadas ao Rush. “Eu não tinha certeza se deveria preparar cada pequeno detalhe”, diz ela, “ou se deveria dominar as partes principais, mas deixar alguma liberdade aqui e ali.”

Naqueles primeiros dias, a sensação de “Tom Sawyer” inicialmente lhe escapava, embora não as viradas, e, em “Subdivisions”, ela continuava acrescentando complexidade às partes que Peart já havia elaborado minuciosamente. “Muitas notas de graça extras”, diz Lee. “Não acho que ela tivesse entendido completamente qual era a missão dela.” Quando percebeu até que ponto Peart era um “baterista composicional”, como ele próprio se descrevia, com suas partes fundidas à música, “ela passou a ouvir as músicas de uma maneira muito diferente”, acrescenta Lee.

Chegar lá significou desmontar rapidamente algumas das habilidades que ela havia conquistado com muito esforço. Seu método elegante de tocar “aquelas semicolcheias sorrateiras” no chimbal, uma das marcas de “Tom Sawyer”, simplesmente soava errado. Para alcançar o som assustadoramente robótico de Peart, ela precisou bater com mais força, usando o mesmo impacto em cada nota, empregando o antebraço em vez do pulso. Em entrevistas antigas, ela falava sobre usar a técnica para compensar o que acreditava ser uma maior força física dos bateristas homens. Para o Rush, decidiu simplesmente ficar mais forte — e isso pode ser ouvido em cada batida na caixa. “Tenho que tocar mais usando a força muscular”, diz Nilles, que passou meses levantando pesos entre os ensaios.

Seu kit de bateria também continuou crescendo, e ela se apaixonou pelo som brutal dos primeiros discos do Rush. “Gosto de ser baterista de rock!”, disse ela à banda logo no início. O processo exigiu um nível quase assustador de imersão. “Agora, tenho um pouquinho de Neil dentro de mim”, diz ela. “O que aprendi para mim mesma, acima de tudo, foi a parte composicional. Ele era brilhante nisso, de verdade. Ele constrói, constrói e constrói constantemente a parte de bateria até chegar a um ponto em que você pensa: ‘Que diabos está acontecendo?’”

“Há momentos em que fico tão orgulhoso dela”, diz Lee. “Porque, para fazer esse show, sejamos francos, você precisa abrir mão de um pouco de si mesma. Porque está tentando ser fiel à parte de outro baterista… E isso é um sacrifício.”

Para Nilles, é simples. “Não tenho ego, então toco o que é necessário”, pontua. Ainda assim, ela não busca uma replicação minuciosa, à maneira de um clone, das partes de Peart, e continua inserindo algumas reviravoltas extras. “Ao mesmo tempo, sou uma musicista, com meu próprio caráter e meu próprio estilo, e isso acaba aparecendo mesmo que eu não queira.”

Enquanto tentavam ajudar Nilles a se adaptar, Lee e Lifeson ganharam uma nova percepção de como sua abordagem musical podia ser peculiar e fechada em si mesma. “Às vezes, Anika escrevia para mim e perguntava: ‘Em que compasso está essa parte?’ E eu respondia: ‘Porra, não sei’”, confessa Lee. “E percebi que fazíamos uma passagem musical estranha, em um compasso incomum, mas não precisávamos contar, porque simplesmente colávamos um monte de frases umas às outras… Conhecíamos tão intimamente as nuances das partes uns dos outros que tínhamos deixas na maneira de tocar. Mas ela ainda não tinha familiaridade suficiente. Não poderia ter tocado seguindo essas deixas ainda. E agora acho que ela consegue.”

Nilles cresceu cercada de bateristas e começou a tocar aos seis anos. Seus pais reconheceram seu talento, mas temiam a instabilidade da vida de músico. Por isso, ela passou cinco anos estudando serviço social e conseguiu um emprego trabalhando com crianças em uma pré-escola. Continuou tocando à noite e nos fins de semana, enquanto outra vida continuava a chamá-la. Aos 26 anos, recomeçou, matriculando-se na Popakademie Baden-Württemberg, em Mannheim, onde estava convencida de que havia ficado para trás em relação aos colegas mais jovens. “Eu me sentia velha e uma merda”, disse certa vez. Logo os superou, graças à mesma ética de trabalho e humildade que mais tarde lhe renderiam o trabalho mais delicado do rock. Vídeos dela tocando acabaram viralizando, e seu sucesso no YouTube finalmente levou Beck até ela. “Nunca pensei que algo grande assim realmente fosse acontecer”, diz ela. “Eu teria ficado feliz com um trabalho regular como baterista de turnê na Alemanha.”

Após a morte de Peart, mais de um baterista se ofereceu ativamente ao Rush, algo que Lee considerou ofensivo. Nilles nunca desejou o trabalho, nem sequer imaginou que poderia consegui-lo; antes da audição, ela nem conhecia tão bem a música da banda. Para os fãs, todos esses parecem ser pontos a favor dela. É difícil imaginar os exigentes fanáticos do Rush comemorando com tanta euforia um músico de estúdio ou um baterista superstar emprestado de outra banda. “É muito bom ver o público realmente aceitá-la”, diz Lifeson. “E torcer por ela. Eles realmente querem que ela seja bem-sucedida.”

Antes do primeiro show, ela recebeu uma mensagem da viúva de Peart, Carrie Nuttall. “Recebi uma mensagem muito bonita dela, realmente muito carinhosa”, diz Nilles. “Foi muito bom saber que ela está de acordo com tudo e ansiosa por essa jornada.”

Com os primeiros shows já para trás, Nilles finalmente está se permitindo sentir o impacto de tudo isso. “Estou me sentindo realmente energizada”, diz ela. “E aliviada.” Mas isso já era evidente no sorriso largo que ela abria depois de acertar as viradas de bateria de “Tom Sawyer”. Instada a lembrar o que passava por sua cabeça naqueles momentos, ela cai na gargalhada: “Consegui!”

Antes de reconstruir a banda, Lee precisou fazer o mesmo consigo. “Não toquei baixo regularmente em nível profissional por dez anos”, confessa. “Achava que estava em forma, porque ia ao estúdio, pegava um dos meus zilhões de baixos e pensava: ‘Ah, estou mandando muito bem no baixo!’. Você acha que está em forma. Não está. Isso não é estar em forma para tocar. Não é estar em forma para fazer turnê. Só quando você ganha calos sobre calos sobre calos e seus dedos ficam latejando à noite é que está entrando em forma. Então eu já havia tomado a decisão, antes mesmo de Al concordar em fazer qualquer turnê, de colocar meus dedos novamente em forma.”

Sua outra tarefa era mais assustadora e pessoal. Como a voz de Geddy Lee havia chegado a um tom tão agudo? Ele não fazia ideia, mas finalmente teria de descobrir. Nos anos 1970, Lee cantava em um grito que derretia alto-falantes, que soltava sem orientação vocal ou técnica consciente, de alguma forma fazendo tudo certo (ou errado, se você acreditasse em certos críticos mal-humorados) por puro instinto. A partir dos anos 1980, reduziu as notas mais agudas, embora ainda chegasse a um território capaz de estilhaçar vidros no verso final de “Freewill”. Com o passar dos anos, percebeu que seu antigo uivo de banshee estava cada vez mais difícil de alcançar, particularmente neste século. Ele encarou isso como uma parte natural do envelhecimento e simplesmente fazia o melhor que podia, ocasionalmente baixando os tons para se ajudar.

Desta vez, depois de mais de cinco décadas cantando profissionalmente, Lee decidiu fazer suas primeiras aulas. Começou reuniões por Zoom com o experiente preparador vocal Mitch Seekins, que trabalha remotamente a partir da pequena cidade de Ilderton, em Ontário. Fã de longa data do Rush, Seekins percebeu imediatamente que Lee estava muito longe de estar preparado. “Foi chocante”, diz Seekins. “Quer dizer, ele estava completamente fora de forma. Os músculos já não respondiam na região mais aguda.”

Mas o treinador ainda tinha uma ótima notícia para seu cliente: “Eu conseguia ouvir que aquilo ainda estava lá, ele simplesmente não conseguia fazer. Ele não tinha certeza se algum dia seria capaz de fazer o que fazia quando era muito mais jovem… Mas não havia degradação alguma, nem mesmo por causa da idade.” As notas agudas inevitavelmente teriam menos da potência inconsequente dos velhos tempos, mas estavam todas ao alcance. O verdadeiro desafio era convencer Lee de que ele conseguia. “A parte mais difícil da recuperação é o aspecto psicológico”, diz Seekins, cujas técnicas podem parecer saídas de um ensinamento de Yoda. “Porque isso é subconsciente e, se você se convenceu de que não consegue fazer alguma coisa, adivinha? Você não consegue.”

Lee, que já se exercita quatro vezes por semana, começou a entender. “Não é diferente de ir à academia e ficar forte”, compara. “Você precisa fortalecer esse músculo, e foi nisso que trabalhei — além de observar de maneira mais forense como uma voz produz um som e aplicar isso.” Ainda assim, acrescenta: “Eu estava nervoso para tentar algumas daquelas músicas”.

Rapidamente ficou evidente que ele estava conseguindo. “Nós simplesmente olhávamos um para o outro, tipo: ‘Caramba’”, diz o colaborador de longa data do Rush, Dale Heslip, que dirigiu o filme de abertura da turnê e projetou o palco. “É como se ele tivesse voltado no tempo.”

À medida que Lee ganhou confiança, novas possibilidades se abriram, incluindo a volta ao show da faixa-título de A Farewell to Kings, de 1977, que não era tocada havia muito tempo. Ela continua sendo a música mais difícil da turnê tanto para Lee quanto para Lifeson. A ambição juvenil deixou para eles compassos que mudam de maneira imprevisível, uma introdução intimidadora de violão de cordas de nylon, algumas mudanças musicais estranhas durante a seção do solo de guitarra e uma longa lista de outras complexidades. “Você começa o verso e eu tenho que cantar nessa porra de estratosfera”, diz Lee. “Há muita insegurança quando você traz de volta uma música de tanto tempo atrás… Quando você está nessa idade, as pessoas esperam que você seja uma versão inferior de si mesmo, e isso simplesmente não é aceitável para mim.”

Eles tinham a opção de baixar os tons, como fazem com 2112 e “Anthem”, sob o argumento de que ambas soam mais pesadas dessa maneira. “É em parte uma desculpa e em parte a verdade”, diz Lee. Mas eles analisaram “Freewill” de perto e decidiram mantê-la como está. “Não há como eu fazer essa música se não conseguir alcançar o terceiro verso”, diz Lee. “Que é realmente o verso mais agudo que canto durante toda a noite.”

De alguma forma, noite após noite, ele consegue chegar lá. “Os gatos estão miando,” diz Lee.

Rush
Rush (Foto: Richard Sibbald)

 

Ainda há momentos no palco em que Lee olha para trás e se surpreende ao ver uma mulher loira e sorridente na bateria. “Continuo esperando ver o rosto intenso de Neil ali atrás”, diz ele. Na verdade, Peart ainda está muito presente no show. Os momentos mais intensos de cada noite são “Time Stand Still” e “Bravado”, ambas apresentadas como tributos explícitos, com seu rosto nas telas de vídeo e sua voz ouvida antes das músicas, refletindo sobre sua abordagem intransigente à vida e à arte. “Se o sonho for conquistado”, canta Lee na segunda música, “mesmo que tudo esteja perdido / pagaremos o preço, mas não calcularemos o custo”. O solo de Lifeson que vem em seguida é, por si só, uma homenagem. “Precisa ser delicado de certa maneira”, elucida o guitarrista. “E emotivo. E precisa ter esse crescendo. Precisa chegar a um lugar positivo.”

Mesmo sem as homenagens explícitas, a presença de Peart seria inevitável. Como ele me enfatizou em 2015, a longa trajetória do Rush devia tudo ao profundo nível de colaboração do trio, com cada integrante sendo essencial para o triângulo que formavam. “Você sabe como funciona a dinâmica das bandas quando um cara escreve todas as músicas e recebe toda a atenção”, disse Peart, tomando uísque no esconderijo na garagem onde fazia toda a sua escrita. “Para mim, é claro, o cantor recebe [a atenção], mas eu fico ali, tocando junto, vendo todo mundo cantar com Geddy as minhas letras, sabe? O envolvimento compartilhado no que fazemos e a recompensa e o reconhecimento compartilhados pelo que fazemos são enormes, porque nenhuma banda sobrevive. The Police. Talking Heads. Quando alguém é a banda em todos os aspectos quantificáveis, isso realmente não consegue perdurar.”

Se Rush tivesse saído em turnê mais próximo da morte de Peart, poderia ter sido mais complicado incluir alguns dos momentos mais leves incorporados ao show, do filme de abertura cômico à tradição de Cartman, de South Park, contar “Tom Sawyer” antes de “Lil’ Rush”. “Você precisa reconhecer a ausência”, diz Allan Weinrib, diretor criativo da turnê e, por acaso, irmão de Lee. “Ainda assim, no fim das contas, são Ged e Al voltando à estrada, sabe? Quando você decide sair em turnê, decide que vai se divertir novamente.”

“Não queríamos que parecesse um funeral”, diz Lee, que ainda admite ficar emocionado durante uma ou duas músicas. “Porque queríamos que todos se lembrassem dele com felicidade e celebrassem a porra da pessoa incrível que ele foi… Mas ainda estou processando tudo. Se preciso cantar as letras dele, me sinto muito próximo dele. É impossível não se sentir assim, a menos que você esteja meio morto por dentro. Mesmo só de falar sobre isso às vezes, não consigo evitar. É difícil. Há uma parte dele que nunca vai… Esse luto nunca vai desaparecer completamente.”

Nuttall e Olivia, filha de Peart, estiveram nos dois primeiros shows em Los Angeles. “É muito difícil para elas”, diz Lee. “Elas ainda estão sofrendo muito. Para elas, sentar em um show em que estamos fazendo tudo isso novamente é difícil. Compreendo essa dificuldade.”

Até o pôster da turnê, criado por Hugh Syme, que há muito tempo desenha as capas dos álbuns do Rush, faz referência à situação. Ele mostra dois pequenos pássaros em um fio e um terceiro voando para longe. Por coincidência, diz Lee, “tive recentemente um incidente com um pássaro”.

Na manhã seguinte ao primeiro show, Lee entrou na sala de estar da casa onde estava hospedado e encontrou um pássaro no chão, olhando para ele. Ele jura que era exatamente igual ao pássaro do pôster. O animal deu voltas ao redor de sua cama, pousou, virou-se para olhá-lo novamente e saiu pela janela. “Foi superestranho”, recorda Lee, que não conseguiu deixar de pensar naquilo como uma visita de Peart. “Não sou um grande crente em coisas estranhas e místicas, mas foi especial.” Ele pegou o celular para mandar uma mensagem a Lifeson e, no momento em que apertou enviar, o pássaro estava ali novamente, colocando a cabeça por uma porta aberta. Olhou para ele mais uma vez antes de voar para longe de vez.

Dada a quantidade de material escrito por Peart, parece seguro presumir que pode haver letras inéditas suficientes em algum lugar para servir de base a novas músicas do Rush. Mas Lee é cauteloso, e talvez um pouco desconfortável, quando menciono essa possibilidade. “Não pensei nisso nem um pouco”, confessa. “É uma boa pergunta.” Sobre músicas novas em geral, “sempre existe uma faísca”, antecipa Lee. “Mas não posso me adiantar aqui. Quando montamos essa banda, foi com o propósito desta turnê. Depois da tour, podemos reavaliar e ver o que temos e o que queremos fazer. Não consigo dar uma resposta melhor do que essa.”

Há um volume enorme de lágrimas nas arquibancadas durante a turnê Fifty Something. Mesmo enquanto lamentam Peart, os fãs também se emocionam com a improvável e temporária reversão da entropia promovida por sua banda. O século XX e seus músicos continuam desaparecendo — mas o Rush voltou. “É uma turnê milagrosa”, diz Weinrib.

“Sinto isso no palco”, comenta Lifeson. “E sinto isso vindo do público. É lindo ver todo mundo tão alegre, porque estes não são tempos alegres em que vivemos agora, e isso é uma espécie de fuga. E olho para o nosso público, e a família inteira está reunida para esse grande piquenique, e há muitos cumprimentos, risadas e lágrimas, e é um momento lindo no tempo.”

Lee concorda com a cabeça. “As pessoas estão reagindo a essa turnê porque precisam de algo que esteja acontecendo aqui”, diz. “E talvez não haja o suficiente disso no mundo neste momento.” Ou talvez seja mais simples do que isso. “Somos uma banda de rock. Não somos muitos os que ainda estão na ativa.” Ele sorri. “Somos uma banda de rock peculiar, mas ainda estamos por aí. Tentando fazer rock.”

+++LEIA MAIS: A 1ª música do Rush tocada por Geddy Lee e Alex Lifeson em jams de reunião


Fonte: LEIA A NOTÍCIA COMPLETA

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