Apesar das piadas feitas por fãs de música mais pesada, poucas vertentes do punk tiveram tanta influência sobre o rock do século 21 quanto o emo. Alguns dos maiores artistas dos últimos 25 anos são expoentes da cena ou foram profundamente influenciados.
Isso sem falar no impacto no Brasil. Bandas emo atingiram um nível de sucesso no país a ponto de mudarem todo o paradigma do rock por aqui.
Mas o que faz a música ser emo?
Características do emo
- Letras confessionais com foco em aspectos emocionais, seja relacionamentos partidos, trauma ou a condição humana;
- Influência de punk, pop punk, hardcore ou post-hardcore, com uma ênfase maior em melodia;
- Vocais expressivos e carregados;
- Guitarras que podem mesclar acordes pesados e distorcidos com dedilhados mais suaves;
- Alternância entre momentos mais calmos e fortes (loud-and-soft);
- Performances intensas, seja no estúdio ou ao vivo;
- Bases de fãs com perfil fanático.
Origens do emo
O emo nasceu na região de Washington D.C., Estados Unidos, por volta de 1985. Ao menos esse é o consenso entre especialistas. O termo tem suas origens num nome mais longo, emocore (emotional hardcore), em si um apelido maldoso dado por integrantes da cena local a um tipo particular de hardcore.
Em entrevista ao livro Nothing Feels Good: Punk Rock, Teenagers and Emo, de Andy Greenwald, o dono do selo Jade Tree Records, Darren Walters, explicou o diferencial do emocore. Segundo ele, era uma questão de foco e abordagem musical:
“Originalmente era um gênero de punk hardcore que era menos focado em política e música pesada e mais em questões pessoais e melodia. Procurava falar de assuntos emocionais sendo ignorados na cena punk extremamente política da era Reagan.”
Entretanto, o nome emo continuou sendo pejorativo na cena punk, usado para tirar sarro de qualquer grupo que ousasse falar de sentimentos. Talvez isso também fosse inveja, porque artistas vítimas dessa alcunha nos anos 1980 e 1990 eram aqueles com fãs mais ardorosos.
No livro Nothing Feels Good: Punk Rock, Teenagers and Emo, Greenwald argumenta que emo não se trata de um gênero musical. Bandas associadas ao termo têm laços musicais mais fortes com punk, pop punk, hardcore e post-hardcore. Segundo o autor, o traço comum é a relação entre o fã e o artista:
“É o desejo de transformar um monólogo em diálogo, de fazer parte da arte que te afeta e se conectar a ela em todo nível possível – sentimentos particularmente relevantes numa cultura cada vez mais corporativa, suburbana e difusa quanto a nossa. Emo é um tipo específico de desejo adolescente, uma necessidade romântica e egocêntrica de compreender a vastidão do mundo relacionada a você. Tira suas deixas do tapa na cara do mundo que foi o punk comunitário, a pompa emocionada das power ballads e a nostalgia inocente do pop de guitarra. Emo é tão específico quanto adolescência e dura tanto quanto.”
Isso ficou ainda mais intenso quando houve a explosão de bandas nos anos 2000 que eram identificadas como emo. Fall Out Boy, Panic! at the Disco, Paramore, My Chemical Romance popularizaram além da música um estilo visual influenciado por gótico e new wave adotado pela cultura em geral. Inevitavelmente, veio mais uma vez a reação negativa.
No Brasil
Emo chegou em terras brasileiras no começo dos anos 2000. Uma das primeiras bandas nacionais a ser descrita como tal foi o Dance of Days. Liderado por Nenê Altro, o grupo ganhou fama no underground junto a uma geração de adolescentes ao mesmo tempo que foi sujeita a diversos insultos de cunho homofóbico, dada a natureza emocional das letras e o histrionismo das performances de Altro.
O desconforto da cena hardcore ficou ainda maior quando uma geração de artistas como Pitty, CPM 22 e Hateen começou a obter sucesso. Por fazerem uma música melódica com letras tratando de questões pessoais, esses grupos passaram a ser taxados de emo — mesmo não trazendo tantos elementos do estilo.
Isso porque uma das bandas mais populares do Brasil na década de 2000 era o NX Zero, que de fato se enquadrava ao emo ao mesmo tempo em que se enquadrava em outras ramificações mais pop. Isso sem falar da Fresno, grupo gaúcho mais identificado com o gênero e alavancado ao sucesso através de redes sociais como Trama Virtual e MySpace.
A indústria, então, tentou capitalizar em cima da estética e criou os grupos de emo colorido como Restart e Cine. Aí a imagem do gênero ficou queimada e perdeu sua popularidade na época. No entanto, um revival do estilo como um todo tem ocorrido ao longo da década, levando artistas e bandas do segmento para palcos tão grandes quanto — ou até maiores que — os ocupados no auge.
Grupos que podem ser chamados de emo
Rites of Spring e Embrace
Os precursores de tudo. Ambos os grupos foram formados em Washington D.C. nos anos 1980 e começaram a brincar com as estruturas rígidas do hardcore, experimentando com melodia e tempos tortos. Acima de tudo, letras de cunho pessoal.
Jawbreaker
Banda da cena pop punk de San Francisco que ficou famosa por suas letras extremamente pessoais, cortesia do vocalista e guitarrista Blake Schwarzenbach. Além disso, o grupo foi taxado de “vendido” por assinar com gravadora grande, mas influenciou gerações por vir graças ao trabalho lançado em major.
American Football
Expoente daquilo posteriormente conhecido como midwest emo. A música é marcada por melodias pouco convencionais, uso de riffs dedilhados e mais influência de indie ou math rock.
Fall Out Boy
Formado em Iowa no começo dos anos 2000, a banda se tornou o maior artista de rock nos Estados Unido durante a década. Misturam post-hardcore, pop punk, R&B e até mesmo elementos de hair metal. O nome do jogo para o grupo é excesso.
Panic! at the Disco
A banda de Las Vegas ganhou sua chance quando o guitarrista Ryan Ross enviou uma demo para o baixista do Fall Out Boy, Pete Wentz, que gostou tanto a ponto de trazer o grupo para seu selo, Decaydance. Tentaram uma guinada sessentista no seu segundo álbum de estúdio, Pretty. Odd. (2008), mas a saída de Ross sinalizou um retorno ao emo e pop rock.
My Chemical Romance
A mais dramática das bandas emo de sucesso dos anos 2000, a mais visualmente marcante e a mais ambiciosa. Quatro álbuns de estúdio, com dois deles sendo conceituais. Retornaram em 2019 para turnês, mas nada de disco desde então.
Paramore
Mais pop punk, mas vale listar porque a vocalista Hayley Williams se tornou um símbolo da moda emo na década. Conforme o desenrolar da carreira, a banda mudou sua sonoridade para algo mais pop rock com traços de indie ao longo da carreira.
NX Zero
Uma das bandas brasileiras mais populares do anos 2000. Seguia o modelo visual e musical do emo característico, ainda que tenham mostrado apelo pop desde o início e agregado mais elementos dessa ramificação em sua sonoridade. Encerrou atividades em 2017, retornando de forma pontual para turnês.
Fresno
Grupo gaúcho que expandiu sua fama além do underground graças a redes sociais como MySpace e Trama Virtual. Com o passar dos anos, absorveram influências mais amplas do rock alternativo, mas nunca se distanciaram do emo.
Outros nomes nacionais: Dance of Days, Rancore, Emoponto, Granada, Gloria (mais orientado ao metalcore), Sugar Kane, Hevo84, Hori, Fake Number, entre outros.
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