Ao ouvir apenas alguns minutos de Marrow Deep, o tempestuoso nono álbum de estúdio do Mastodon que chega nesta sexta-feira, 28, fica claro rapidamente que eles simplesmente não sabem mais como se sentir. O álbum chega aproximadamente um ano após a morte do guitarrista, vocalista e fundador Brent Hinds, demitido de forma conturbada alguns meses antes, além da morte da mãe do baterista e vocalista Brann Dailor em fevereiro de 2025. Compor um disco nessas circunstâncias não era novidade para o grupo.
Quase todos os álbuns da banda retratam o luto dos integrantes: eles lamentaram a morte do empresário Nick John em 2018 em seu álbum mais recente, Hushed and Grim (2021), a perda da mãe do guitarrista Bill Kelliher em Once More ‘Round the Sun (2014), a tragédia do irmão de Hinds em um acidente de caça em The Hunter (2011) e o suicídio da irmã de Dailor, quando ele era adolescente, em Crack the Skye (2009) e Remission (2002). Hinds morreu em um acidente de moto cerca de uma semana antes de a banda entrar em estúdio para gravar Marrow Deep.
Então, quando o vocalista e baixista Troy Sanders rosna “We don’t get over this” [“Não dá pra superar isso”] em “In the Ruins”, uma dor genuína ressoa em sua voz. De certa forma, Marrow Deep é a “Shine On You Crazy Diamond” do Mastodon. Uma homenagem a um companheiro de banda crucial para o início do grupo, mas que se perdeu, como eles explicaram recentemente de forma eloquente em um vídeo, além de um reconhecimento da fragilidade da vida.
Quando Dailor canta “I saw your ghost again, followed by crushing feelings of regret” [“Eu vi seu fantasma de novo, seguido por uma sensação esmagadora de arrependimento”] para Hinds em “Ghost Again”, sua voz soa crua. E após um breve alívio musical, a canção se consolida nos riffs estridentes, cortantes e mordazes que a encerram. É pesado. E também estranhamente emocional, pelo menos para um álbum de metal.
Marrow Deep carrega todas as características sonoras da discografia do Mastodon — vocais roucos e potentes, riffs variando entre encorpados, viscosos e irregulares, ritmos excêntricos e solos em abundância — mas há algo na maneira como eles executam as músicas que permite sentir sua angústia. Isso não é algo ruim. Eles estão tocando no auge de suas habilidades, com o tecladista brasileiro João Nogueira e o guitarrista solo Nick Johnston, que se juntaram ao grupo este ano, mantendo o trio original sempre alerta. Mas seus instrumentos frequentemente choram, uivam e ululam tanto quanto os vocais.
Embora a linguagem do rock progressivo tenha sido uma parte importante do som do Mastodon nos últimos 20 anos, os solos ousados do grupo ganham ainda mais destaque em Marrow Deep. Nogueira assume tantos solos quanto Kelliher e Johnston. E ecos de bandas com forte presença de sintetizadores e teclados, como Pink Floyd, Deep Purple e até mesmo Yes, são muito mais proeminentes no álbum do que anteriormente.
Nogueira consegue evocar sintetizadores analógicos sombrios, à la John Carpenter (“Barbarian’s Blood”, a balada “Moth and Bone”) e melodias sedutoras à la Dream Theater (“Snakes for Dinner”), às vezes adicionando elementos às músicas (sons reminiscentes de sinos em “In the Ruins”) e de vez em quando deixando a coisa fluir livremente (a faixa de encerramento “The Three Fates”, basicamente uma jam progressiva).
Os guitarristas exploram seus sentimentos com motifs de blues, explosões pirotécnicas e, seguindo a alusão a “Shine On”, frases longas e sussurradas, à la David Gilmour. Mas eles não fazem tudo sozinhos. Como de costume, a lista de convidados do Mastodon neste álbum é extensa. Com Kurt Ballou, do Converge, coproduzindo o disco com a banda e Patrik Berger (Lana Del Rey, Charli XCX), não é surpresa que Ben Koller e Nate Newton, também do Converge, façam participações especiais, tocando percussão e contribuindo com vocais guturais, respectivamente. O álbum também conta com participações de peso de bandas como Gojira, Lamb of God, Queens of the Stone Age e Clutch.
Marrow Deep, por vezes, soa turbulento, ornamentado, ponderado, caótico e catártico. Acima de tudo, maduro. Sumiu a raiva imatura e as aspirações de rebeldia que os levaram a escrever Leviathan (2004) sobre Moby Dick. Podem até tentar disfarçar algumas músicas com referências a tragédias gregas, mas os destinos e as fúrias aqui são próprios do Mastodon, incontroláveis e únicos. Tudo o que você pode fazer é ouvir e se perguntar: “Quanto uma banda consegue aguentar?”, enquanto você uiva junto com eles.
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