Em 2015, Lin-Manuel Miranda enfrentava um dos períodos mais turbulentos de sua carreira. Após o sucesso de seu primeiro musical, In the Heights, em que contava a história de Washington Heights, um bairro novaiorquino formado por latinos em busca do “sonho americano”, o então ator e compositor sentia a pressão de colocar de pé uma proposta ousada: contar a história de Alexander Hamilton, um dos quatro pais fundadores dos Estados Unidos, em um musical majoritariamente cantando no estilo hip-hop que, caso desse certo, seria a revolução da Broadway.
Hamilton, por mais fora da curva que fosse (ou, talvez, exatamente por isso), não só deu certo, como se tornou um fenômeno de público e crítica, rendendo a Miranda algumas estatuetas no Tony Awards, maior prêmio do teatro musical, incluindo a de Melhor Musical, e uma fama com a qual não sabia lidar.
“Hamilton foi uma experiência insana. Foi aquele tipo de fenômeno que acontece uma vez a cada 20 anos, em que todo mundo que sai do teatro fala do espetáculo para todo mundo que conhece. E havia muita atenção voltada para nós dentro do teatro”, relembra em entrevista à Rolling Stone Brasil. “Para ser sincero, dava até um certo receio. Quer dizer, quando alguém faz um grande filme e é uma estrela de cinema, ninguém sabe onde a pessoa está a cada dia, certo? Já no nosso caso, todo mundo sabia que estávamos naquele prédio todas as noites, e havia muita energia e intensidade em torno de tudo aquilo.”
No meio do processo, a vida profissional de Miranda se tornou ainda mais atribulada, com a tarefa hercúlea de escrever Moana, um novo musical para a Disney, uma de suas grandes inspirações para a carreira que escolheu:
“Comecei realmente a me apaixonar por musicais não apenas por meio dos álbuns com as trilhas sonoras que meus pais traziam para casa quando eu era criança, mas também ao assistir a A Pequena Sereia quando tinha nove anos e ficar maravilhado“, conta. “Eu estava na idade perfeita para a segunda Era de Ouro da Disney, com A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladdin e Tarzan. Eu cresci com essas obras. Então, fazer parte desse legado foi a realização de um sonho.”
E, embora a responsabilidade fosse enorme, Miranda relembra que, na verdade, escrever a trilha sonora de Moana o ajudou a manter os pés no chão e não enlouquecer como sucesso de Hamilton: “Moana significava tudo para mim”, afirma. “Mas, além disso, o momento em que o filme surgiu realmente salvou a minha vida.”
“Hamilton estreou e eu ainda tinha que compor todas aquelas músicas”, completa. “E acho que uma das razões pelas quais o sucesso não me subiu à cabeça foi o fato de eu ainda ter as músicas de Moana para fazer. Então, eu estava compondo para Moana enquanto fazia sete apresentações por semana em Hamilton. E acho que isso me manteve com os pés no chão durante um período em que era muito difícil manter essa estabilidade.”

Dez anos depois, agora consolidado como um dos maiores compositores do teatro e do cinema deste século, Miranda retorna ao universo de Moana para uma despedida (ou um agradecimento, por assim dizer), com a inédita “Along the Way”, que embala os créditos do live-action inspirado na animação de 2016.
Diretor da novidade, Thomas Kail, que trabalhou com Miranda em In the Heights e Hamilton, foi quem sugeriu a nova música, com a intenção de promover uma transição entre passado e futuro, reunindo Auli’i Cravalho, voz de Moana na animação, e Catherine Laga’aia, que estreia nas telonas protagonizando o live-action, em um dueto.
“Não queríamos incluir uma música só por incluir. E então veio a ideia do Tommy. Ele disse: ‘Olha, temos a Auli’i. Ela é produtora do filme. Temos aqui a oportunidade de promover uma passagem de bastão entre as duas’. Assim que ele falou isso, eu disse: ‘Cala a boca. Para de falar comigo. Vou te ligar daqui a uma semana’, porque aquela era a ideia”, relembra.
LEIA TAMBÉM: No Brasil, Dwayne Johnson confirma Moana 3: “Mas vai levar um tempo”
