Há pouco mais de dez anos, o nome de Lin-Manuel Miranda não soava como hoje. Então ator e compositor , ele também não era nenhum zé-ninguém: tinha um pequeno musical chamado In the Heights, em que contava a história de Washington Heights, um bairro novaiorquino formado por latinos em busca do “sonho americano”.
Indicado a 13 categorias no Tony Awards, maior prêmio do teatro musical, e vencedor de quatro delas, incluindo a de Melhor Musical, a obra colocou o nome de Miranda — filho de pais port0-riquenhos e um sonhador, assim como os seus personagens — no mapa e, anos depois, em rota para ilha de Motunui, onde encararia o seu maior desafio até então: escrever para quem o inspirou a se tornar quem é.
“Comecei realmente a me apaixonar por musicais não apenas por meio dos álbuns com as trilhas sonoras que meus pais traziam para casa quando eu era criança, mas também ao assistir a A Pequena Sereia quando tinha nove anos e ficar maravilhado”, relembra em entrevista à Rolling Stone Brasil. “Eu estava na idade perfeita para a segunda Era de Ouro da Disney, com A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladdin e Tarzan (sobre o qual não falamos o suficiente como cultura, embora o [compositor] Phil Collins tenha feito um trabalho incrível nele). Eu cresci com essas obras. Então, fazer parte desse legado foi a realização de um sonho.”

C0mo se escrever o próximo grande musical da Disney não fosse desafiador o suficiente, Miranda se viu frente a frente com mais um obstáculo. Moana contaria a história de uma jovem destemida em um missão para salvar o seu povo e a ilha Motunui, inspirada na região da Polinésia e as suas diversas ilhas, o que obrigaria o compositor a sair de sua zona de conforto e mergulhar de cabeça em uma nova cultura.
“Eu sabia que teria de fazer muita pesquisa. Aquela era uma parte do mundo que eu desconhecia. [Mas] o que me deixou mais tranquilo foi saber que já havia outros dois compositores incríveis no projeto”, conta. “Mark Mancina, que trabalhou em O Rei Leão, compôs a trilha sonora de Velocidade Máxima — um compositor de cinema extremamente experiente. E Opetaia [Foa’i], que representa tão lindamente esta parte do mundo com sua banda Te Vaka, cria músicas que são autênticas a essa região. Então, eu sabia que, nós três juntos, faríamos uma boa representação.”
Com a ajuda dos colegas, Miranda esmiuçou a cultura polinésia para entregar a homenagem em seus mínimos detalhes, como em “You’re Welcome” (“De Nada”), cantada pelo semideus Maui, vivido por Dwayne Johnson (The Smashing Machine: Coração de Lutador). “Toda a letra se baseia em mitos reais sobre Maui“, explica. “Há, por exemplo, o mito de Maui descobrindo o fogo e levando-o aos humanos, e o mito de Maui criando os coqueiros. Tudo isso é fruto de pesquisa. Você faz toda essa pesquisa, assimila o conteúdo e o transforma em uma música cativante para o The Rock. É sempre essa mistura de pesquisa e empatia.”
“Vou dar um exemplo bem engraçado. Saíram os primeiros desenhos do Maui. Ele era careca. Careca no estilo do The Rock. E o conselho cultural disse: ‘Vocês não podem fazer isso’. O Maui tem um cabelo incrível e poderoso, e a sua [força vital] mana vem do cabelo. Então, ele precisava ter cabelo”, relembra. “Aí, avançando no tempo até o lançamento do trailer, todo mundo ficou tipo: ‘Uau, o The Rock tem cabelo’. E eu pensava: “É, ele tem que ter cabelo. Ele não é o The Rock. Ele é o Maui.’”
Dez anos depois, agora autor de Hamilton, um dos musicais mais premiados e celebrados da última década; um novo musical (Warriors, inspirado no longa Warriors: Os Selvagens da Noite, de 1979) e um filme (Octet, com Amanda Seyfried, Rachel Zegler e Jonathan Groff) em produção; e a uma estatueta de ouro do Oscar para entrar para o restrito grupos de vencedores EGOT, Miranda retorna ao universo de Moana para uma despedida, com a inédita “Along the Way”, que embala os créditos do live-action inspirado na animação de 2016.
Diretor da novidade, Thomas Kail, que trabalhou com Miranda em In the Heights e Hamilton, foi quem sugeriu a nova música, com a intenção de promover uma transição entre passado e futuro, reunindo Auli’i Cravalho, voz de Moana na animação, e Catherine Laga’aia, que estreia nas telonas protagonizando o live-action, em um dueto.
“Não queríamos incluir uma música só por incluir. E então veio a ideia do Tommy. Ele disse: ‘Olha, temos a Auli’i. Ela é produtora do filme. Temos aqui a oportunidade de promover uma passagem de bastão entre as duas’. Assim que ele falou isso, eu disse: ‘Cala a boca. Para de falar comigo. Vou te ligar daqui a uma semana’, porque aquela era a ideia”, relembra.
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