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Guns N’ Roses corta baladas e faz show acima de sua média no Monsters of Rock

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Desde os anos 2000 o Guns N’ Roses é citado como uma banda irregular no palco. Transita entre noites boas e ruins, normalmente devido ao vocalista Axl Rose. Tal avaliação se manteve até mesmo após as aguardadas voltas do guitarrista Slash e do baixista Duff McKagan em 2016, a exemplo de uma performance abaixo do esperado no Rock in Rio 2022 — a ponto de Rose ter de se desculpar, via redes sociais, alegando uma “indisposição” naquele dia.

Isso nunca foi o suficiente para espantar o público brasileiro, que sempre compareceu em peso aos shows do grupo em território nacional. O Brasil, diga-se, é o quarto país onde o GN’R mais se apresentou, atrás apenas de Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. E, surpreendentemente, uma de suas turnês mais elogiadas foi justo a do ano passado, com cinco datas entre outubro e novembro. Chama atenção porque Axl, o componente mais frágil da equação, agora é um sexagenário (64 anos) e, de modo natural, pode apresentar limitações em seu canto.

O que se viu na noite de sábado, 4, durante a performance que encerrou o Monsters of Rock 2026, confirmou a boa impressão deixada em 2025. Rose, Slash e Duff McKagan, acompanhados de Richard Fortus (guitarra), Isaac Carpenter (bateria) e Dizzy Reed (teclados/piano), justificaram a posição de headliner no festival realizado no Allianz Parque, em São Paulo, com uma performance acima de sua média, seja pela execução em si ou por gratas escolhas de repertório.

Um setlist surpreendente

A respeito do setlist, começa-se com o óbvio: encurtar o espetáculo em 30 minutos se provou uma sábia decisão. Diferentemente dos últimos anos, em que ofereceu três horas (ou até além) de música, o Guns foi um pouco mais “direto ao ponto” ao escolher 25 canções. Chegou a deixar de lado as baladas “Don’t Cry” e “Patience”, bem como todas as faixas do álbum Chinese Democracy (2008) — ao menos a faixa-título e/ou “Better” surgiam em tempos recentes.

Não quer dizer que músicas lentinhas ou composições do século 21 tenham ficado completamente de fora. Cabendo à segunda definição, por exemplo, foram tocados os singles recentes “Perhaps”, “Atlas” e “Nothin’” — esta última, possivelmente, a melhor entre os seis lançamentos desta década. Mas o acerto mesmo vieram a partir das faixas que podem ser consideradas “substitutas” de ausências supracitadas:

  • “Dead Horse”, um dos singles finais dos álbuns Use Your Illusion (1991), foi tocada pela quinta vez na história do Guns desde 1993;
  • ainda mais surpreendente, “Bad Apples” acabou lembrada na primeira ocasião em 35 anos (!);
  • até o cover de Black Sabbath, presença cativa no setlist desde a participação no festival Back to the Beginning, mudou: saiu “Sabbath Bloody Sabbath” em prol da pouco óbvia “Junior’s Eyes”.

Tudo isso junto dos clássicos e lados B já aguardados. “Welcome to the Jungle”, na abertura, provocou catarse até então não obtida por Lynyrd Skynyrd, Extreme, Halestorm, Yngwie Malmsteen, Dirty Honey e Jayler, responsáveis por anteceder o Guns no lineup. As rockers “Slither” (Velvet Revolver), “It’s So Easy”, “Mr. Brownstone” e “Bad Obsession” tiveram em seu miolo a célebre e explosiva versão para “Live and Let Die” (Wings), tudo isso no bloco inicial.

Em “Rocket Queen”, tocada pela primeira vez no ano, outra surpresa: o solo de Slash com seu talkbox mostrou-se um pouco mais enxuto. Fãs preocupados com a ausência de “You Could Be Mine” durante o show no México — que abriu os trabalhos de 2026 — se tranquilizaram algum tempo depois. Já no pedaço final do set, hits enfileirados: “Sweet Child O’ Mine”, “Estranged”, “November Rain”, “Nightrain” e “Paradise City”, com a já mencionada “Bad Apples” felizmente perdida ali no meio.

Guns em boa noite

Boas escolhas de setlist adiantariam de nada se Axl Rose e companhia não estivessem em boa noite. O cantor, em especial, provou equilíbrio dentro de sua situação atual. Seu alcance vocal continua notório, mas os agudos rasgados jamais retornarão. Ao vivo, a chamada “voz de Mickey” incomoda bem menos, seja por compor a amálgama sonora ou pelo próprio repertório favorecer mais seu tom natural, mais grave. É por isso que “Mr. Brownstone”, “Bad Obsession” e “Double Talkin’ Jive”, para citar algumas, devem seguir presentes nos shows.

De resto, tudo estável. Slash ainda é um dos maiores guitarristas da história do hard rock, seja executando suas antigas criações ou em improvisos. Só foi afetado pelo volume mais baixo de seu instrumento. Duff McKagan, dono de timbre marcante, oferece solidez e amarra-se naturalmente a Carpenter. Richard Fortus teve seus 25 anos de serviços prestados ao Guns citados por Rose durante o solo de “Knockin’ on Heaven’s Door” (Bob Dylan) — e, para além de sua firmeza e competência nas seis cordas, tem química incontestável com o real solista. Dizzy Reed, cereja do bolo, oferece o apoio necessário nas teclas e tem apenas um momento de destaque, mas valendo por dez: o solo de piano em “Estranged”, único momento em que recebe holofotes e ocupa os enormes telões laterais.

A noite de sábado, 4, foi tão boa que Axl parecia mais brincalhão que o usual. Disse que dançaria macarena com “Double Talkin’ Jive”, explicou que Ozzy e Sharon Osbourne não entenderam de onde o Guns tirou “Junior’s Eyes” para tocar no Back to the Beginning, reforçou que “New Rose” (cover do The Damned cantado por Duff) é “a primeira música punk”“é verdade; isso é educação musical; é por isso que estamos aqui” —, fez trocadilho com horsing around antes de “Dead Horse” e cravou: “esta é uma noite incrível e todos os nossos amigos estão aqui.”

Poderia estar se referindo às bandas que compuseram a programação do festival, desde influências como Lynyrd Skynyrd a colegas de turnês, vide Dirty Honey. Ou a familiares, já que era possível ver pelos telões as esposas de Slash e Duff McKagan no fundo do palco por diversas vezes. Mas provavelmente o cantor fazia alusão aos fãs. Afinal de contas, a relação entre Guns N’ Roses e Brasil transcende a música. O 47º show da banda neste país em toda a sua história apenas confirma isso.

Repertório — Guns N’ Roses no Monsters of Rock 2026

1. Welcome to the Jungle
2. Slither (Velvet Revolver)
3. It’s So Easy
4. Live and Let Die (Wings)
5. Mr. Brownstone
6. Bad Obsession
7. Rocket Queen
8. Perhaps
9. Dead Horse
10. Double Talkin’ Jive
11. Nothin’
12. You Could Be Mine
13. Civil War
14. Junior’s Eyes (Black Sabbath)
15. Knockin’ on Heaven’s Door (Bob Dylan)
16. New Rose (The Damned)
17. Atlas
18. Solo de guitarra de Slash
19. Sweet Child O’ Mine
20. Estranged
21. Bad Apples
22. November Rain
23. Nightrain
24. Paradise City

Próximos shows no Brasil

  • 07/04: São José do Rio Preto – Recinto de Exposições (com Raimundos)
  • 09/04: Campo Grande – Autódromo Orlando Moura (com Raimundos)
  • 12/04: Cariacica (ES) – Estádio Kleber José de Andrade (com Raimundos)
  • 15/04: Salvador – Arena Fonte Nova (com Raimundos)
  • 18/04: Fortaleza – Arena Castelão (com Raimundos)
  • 21/04: São Luís – Arena Castelão (com Raimundos)
  • 25/04: Belém – Mangueirão (com Raimundos)

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