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Bares de vinho vivem boom em São Paulo e reinventam a cultura da bebida | Notas Etílicas – Por Saulo Yassuda

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Durante muito tempo, os bares de vinho tinham prazo de validade curto em São Paulo. Eram poucos os que abriam e os que chegavam duravam poucos meses, em muitos casos. Sair para tomar um branco ou tinto significava, na maioria das vezes, sentar-se à mesa de um restaurante. O público estava mais interessado em cerveja e coquetel.

Hoje, a taça ganhou vida própria e se tornou protagonista de muitos estabelecimentos. Em diferentes bairros, concentrados sobretudo na Zona Oeste e no centro — ainda com forte potencial para chegar a outras regiões —, os wine bars vêm se multiplicando. E muito.

Na mais recente edição de VEJA SÃO PAULO COMER & BEBER, foram selecionados treze endereços do gênero entre os melhores da capital paulista, sete deles inaugurados de 2023 para cá (e, desde a publicação, mais casas surgiram). Esse crescimento acontece em paralelo ao incremento do interesse pela bebida no país.

De acordo com a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), enquanto o consumo global recuou 2,7% no ano passado, o Brasil teve o maior volume de consumo de vinho de sua história em 2025, de 4,4 milhões de hectolitros, um aumento de 41,9% (o dado calcula o consumo aparente, que também reflete o baixo patamar de 2024, quando a produção nacional foi afetada pelas enchentes no Rio Grande do Sul).

O balcão do Plou (Masao Goto Filho/Veja SP)

“Esse é um movimento muito orgânico”, observa a sommelière Cassia Campos, da Sede261, casa nascida em 2018 numa garagem de Pinheiros e que ajudou a expandir pela cidade o conceito de beber uma taça sem frescura. “Há esse grande movimento, que é o interesse do brasileiro pelo vinho e dessa nova geração pela bebida.”

O aumento inédito no número de wine bars, casas onde o vinho entra em primeiro plano em relação a outras bebidas, à comida e à música, refletiu o amadurecimento desse mercado e a chegada de um novo público, incluindo os mais jovens. Hoje, é possível escolher tintos, brancos, espumantes e fortificados em uma ampla gama de estilos de lugar e preços — dá para pagar de 10 reais a 200 reais por uma taça, por exemplo.

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As propostas vão de botecos para ficar em pé na calçada, como o Los Perros, na Consolação e no Bixiga, a casas de alta gastronomia, como o Lita, em Pinheiros, passando por endereços com música ao vivo em boa parte da semana, caso do Notre Vin, também em Pinheiros. A fim de uma festinha regada a vinho? Temos. De um endereço dedicado aos líquidos extraídos de torneiras como o chope? Também temos. E de uma casa só de rótulos brasileiros? Temos! (Confira as melhores casas do gênero no decorrer da reportagem.)

Plou: na Vila Madalena (Masao Goto Filho/Veja SP)

Mesmo com tanta diferença de estilo, o grande ativo desses endereços é o cuidado intrínseco com a hospitalidade e, sobretudo, a curadoria do que é oferecido. Muitas casas, como a Sede261, não têm sequer uma carta formal: trabalham com uma seleção de garrafas que varia semanalmente, em diversos tipos e faixas de preço. Nessa mesma toada, o consumo em taça é incentivado. “Hoje as pessoas buscam mais a diversidade do que o álcool em si e a garrafa inteira”, acredita Analu Torres, proprietária do Plou, aberto em agosto de 2024 na Vila Madalena e vencedor do prêmio VEJA SÃO PAULO COMER & BEBER 2025 de Melhor Bar de Vinhos. Dos cerca de 500 rótulos da casa, metade deles franceses, Analu elege cerca de 25 por noite para oferecer em dose. Quase todos da casa são naturais, categoria que vem ajudando os wine bars a bombar pelo maior interesse do público.

A grande variedade de opções ofertada por essa nova leva de endereços só foi possível pelo aumento da diversidade do que era trazido para o Brasil e também pela abertura do público aos rótulos nacionais. “No passado, trabalhávamos com grandes importadoras. Depois começaram a aparecer algumas pequenas, que já cresceram, e hoje temos 29 parceiros”, conta Rafael Ilan, que oferece 96 opções em taça no Bardega, pioneiro da atual geração, fundado em 2012. “Os importadores tinham opções muito clássicas e convencionais, e quem gosta de vinho de terroir via esses rótulos se esgotarem”, conta Analu. Vale observar que, de olho nessa expansão de estabelecimentos, as importadoras seguem a investir em wine bars, caso da La Pastina, que acaba de abrir o seu no interior da Casa La Pastina, nos Jardins. “Aproximar as pessoas do universo da enogastronomia faz parte da nossa história e do nosso propósito. O wine bar é uma forma descontraída e acessível de fazer isso”, diz Juliana La Pastina, CEO do Grupo La Pastina.

Gnomo: ambiente do bar na Vila Madalena (Ligia Skowronski/Veja SP)
Notre Vin, em Pinheiros: mais atrativos ao público (Ligia Skowronski/Veja SP)

Em meio a esse mar de vinhos, os proprietários ainda precisam lidar com a flutuação do dólar e a falta de mão de obra especializada. “Muitos vão fechar se não houver mudança no cenário econômico, pois abrem sem estrutura e acabam sendo ruins para o mercado. Se desesperam na primeira crise, não sabem o que fazer, precificam mal e prejudicam o setor”, critica Rafael, do Bardega. Ainda assim, o momento é de expansão: a bebida virou programa. Sorver uma ou duas taças na companhia de pequenos pratos em um ambiente sem afetação deixou de ser exceção. “Agora estou vendo outro movimento, que é o vinho voltar a ter importância dentro dos restaurantes”, diz Cassia, da Sede261. “Mas de outra maneira, numa nova roupagem. Não como era antigamente.”

Sommelière multiplataforma

Não basta ser um bar. O Plou também é sede de aulas, eventos com importadoras e feirinhas, além de promover viagens a vinícolas da França com os clientes. “É um lugar para quem quer se formar e se informar, e também para quem quer só beber”, define a sócia e sommelière Analu Torres.

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Aberta em 2024, a casa dona do título de Melhor Bar de Vinhos por VEJA SÃO PAULO COMER & BEBER 2025 costuma receber, no salão escurinho na Vila Madalena, de jovens casais pouco entendidos a nerds enófilos, sobretudo os aficionados pelo vinho natural.

A sommelière Analu Torres no Plou: 500 rótulos (Masao Goto Filho/Veja SP)

Plou. Rua Original, 141, Vila Madalena, telefone 91211-1794.

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O playground da variedade

É uma diversão beber no Bardega. Para quem curte vinho, o deleite está em se dirigir a uma das doze máquinas Enomatic e apertar o botão para ter, na taça, um dos 96 rótulos disponíveis, em doses de 30, 60 e 90 mililitros. É nesse estilo selfservice que funciona o bar frequentado por casais e grupos corporativos no Itaim Bibi.

Bardega, no Itaim Bibi: wine bar pioneiro, aberto em 2012, com 96 rótulos (Ligia Skowronski/Veja SP)

Pioneiro da atual geração, o endereço guarda a solenidade dos estabelecimentos da região, mas conseguiu influenciar a cena toda desde que abriu, em 2012, principalmente no hábito de beber mais variedade em doses menores.

“O objetivo do Bardega é, primeiro, apresentar um pouco de tudo — de tudo mesmo — e em diferentes faixas de preços”, explica o sócio Rafael Ilan, que mantém o olhar atento às tendências e trabalha com quase trinta importadoras para garantir essa diversidade. Há desde clássicos europeus até opções de países como Peru e Romênia.

Bardega: 96 rótulos (Ligia Skowronski/Veja SP)
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“No início, não havia um vinho brasileiro. Naquela época ainda existia o preconceito master”, conta o proprietário, que hoje se orgulha de servir opções como o gaúcho Pizzato Semillon, um branco que amadurece parte em barricas de acácia.

Bardega. Rua Doutor Alceu de Campos Rodrigues, 218, Itaim Bibi, telefone 2691-7578. Tem acessibilidade. 

Tudo começou em uma garagem

Um respeitoso “bar de garagem”, a Sede261 funciona, literalmente, em um pequeno espaço de guardar veículos, numa ruazinha tranquila de Pinheiros. Nascida em 2018, a casa comprovou que não era necessário ter jeito de restaurante nem muita solenidade para fazer sucesso servindo vinho — e ainda ganhou imitações pela cidade (nem todas vingaram).

O lugar serve praticamente só a bebida (nem cozinha tem), não há carta — as sugestões variam sempre e são feitas no gogó —, usa apenas um copo por visitante, reaproveitado a cada dose pedida (sim, ali saem mais taças que garrafas), e a maioria dos lugares para sentar é improvisada na calçada. Mas nada funcionaria sem o talento das donas, as sommelières Cassia Campos e Daniela Bravin, que vêm da restauração tradicional e montaram a casa após uma temporada servindo tintos e brancos em eventos.

Cassia Campos e Daniela Bravin: vinho sem frescura na Sede261 (Masao Goto Filho/Veja SP)

A dupla renova semanalmente a seleção de cerca de quarenta títulos, para oferecer uma boa gama de preços e estilos. Em vez de um malbec tradicional, por exemplo, elas podem sugerir da Argentina o Lagarde Criolla, um clarete no meio do caminho entre um rosé e um tinto, a 32 reais a porção. “E o vinho branco aqui é um hit eterno”, comemora Daniela.

Sede261. Rua Benjamin Egas, 261, Pinheiros.

Comida e bebida de mãos dadas

Se no passado, para sobreviver, muitos wine bars faziam o estilo “restaurantes com uma caprichada carta de vinhos”, hoje o cenário amadureceu. Fazem sucesso tanto casas que praticamente não servem comida, como a Sede261, quanto lugares com cardápios melhores que os de muitos restaurantes.

Quem alcança o bom equilíbrio entre o sólido e o líquido é o Lita, inaugurado em setembro, em Pinheiros. Derivado do restaurante vizinho Nelita, tem um ambiente intimista, onde o público encontra quase 400 rótulos selecionados pelo sócio Danyel Steinle e um cardápio variado renovado quase toda semana. “Queríamos que a comida não fosse só um acompanhamento”, afirma a chef e sócia Tássia Magalhães, que não consegue tirar do menu um de seus maiores sucessos: o paccheri alla scarpariello, com molho de tomate e queijo Tulha.

Concorrido salão do Lita (Ligia Skowronski/Veja SP)

Nascido a partir do Nomo, na Vila Madalena, o bar Gnomo tem história parecida. Para acompanhar um dos cinquenta rótulos de pequenos produtores escolhidos pela sócia Paty Werneck, há petiscos bem pensados pelo chef Nando Carneiro, como o babaganuche de jiló com maçã verde e cebola.

Fregola com polvo do Elevado Bar (Laís Acsa/Divulgação)

Recentemente, entrou no grupo da boa gastronomia o Elevado Bar, um dos melhores da região central. Se à época da abertura, em 2019, a intenção do local era manter uma cozinha mais básica, o endereço sofreu uma reviravolta em março e ganhou receitas mais elaboradas, com massas frescas e grelhados. A partir de terça (21), ganha um menu degustação, servido apenas no mezanino e com reservas, com pratos como a fregola com polvo.

Lita. Rua Ferreira de Araújo, 333, Pinheiros, telefone 99886-2384.

Gnomo. Rua Rodésia, 206, Vila Madalena, telefone (31) 99121-6648. Tem acessibilidade.

Elevado Bar. Rua Jesuíno Pascoal, 16, Vila Buarque, telefone 99234-0145.

De olho no bolso

Não, beber vinho não é barato. Longe disso. Mas, entre os bares do gênero, há alguns que levam em conta o custo-benefício em primeiro lugar. Um deles é o Los Perros, vencedor do prêmio Melhor Bom e Barato no guia VEJA SÃO PAULO COMER & BEBER 2025. São duas unidades: a matriz, num antigo pé-sujo perto da Avenida Paulista, e uma filial mais recente, ao lado do escadão do Bixiga. Servem cerca de noventa vinhos selecionados pelo proprietário e sommelier Fabiano Aurélio, com garrafas que, em geral, custam entre 80 e 120 e poucos reais, caso do branco italiano Custom Vigneti delle Dolomiti, de müller-thurgau e chardonnay, a 119 reais.

O público, que tem entre 20 e 30 anos, adora beber em pé na rua, sem girar a taça nem seguir outros rituais do vinho — por mês, as duas casas recebem por volta de 8 000 clientes.

Los Perros, na Bela Vista: bom custo-benefício (Masao Goto Filho/Veja SP)

Com uma proposta parecida, o Prosa e Vinho também mira os rótulos que dificilmente passam dos 200 reais, boa parte nacional e descomplicada. Em vez de ocupar a calçada, a galera invade os corredores da Galeria Metrópole, onde a casa fica, no 3º andar.

Los Perros — Vinho no Boteco. Rua Bela Cintra, 806, Consolação, telefone 99599-1972; Rua Treze de Maio, 752, Bela Vista, telefone 99599-1972.

Prosa e Vinho. Avenida São Luís, 187, 3º andar (Galeria Metrópole), centro, telefone 3151-3692. Tem acessibilidade.

Para interesses específicos

Motor do interesse de um novo público por vinho, os rótulos naturais têm público fiel. E, embora a oferta desse tipo de bebida — elaborada com uvas cultivadas de forma sustentável e pouco ou nenhum uso de aditivo na vinificação — tenha se espalhado na cidade, os devotos encontram um ponto certo para ela no Beverino. Nascido na Vila Buarque, o bar oferece desde 2018 uma seleção rotativa, mas acurada de etiquetas.

Oferta do Beverino: só etiquetas naturais (Clayton Vieira/Veja SP)

Outros endereços “nichados” encontram espaço no universo dos wine bars. A Enoteca Nacional, na Bela Vista, serve apenas variedades brasileiras e tem lançado rótulos próprios de tiragens limitadíssimas. “Tem muito estrangeiro que vem nos procurar”, afirma o sócio Paul Pensabene. “Estamos procurando um segundo ponto, em Santa Cecília ou Barra Funda.” Fã de borbulhas? Pinheiros ganhou, em 2025, o Xampers. A bebida sai direto da torneira e também há garrafas de pét-nat, cava e até champanhe. Tem espaço para todo mundo.

Beverino. Rua General Jardim, 702, Vila Buarque, telefone 96308-9918.

Enoteca Nacional. Rua Professor Sebastião Soares de Faria, 32, Bela Vista, telefone 95666-1536. Tem acessibilidade.

Xampers. Rua Simão Álvares, 786, Pinheiros.

Ao gosto do público

A evolução da cena do vinho só foi possível com o aumento do interesse do público — que, cada vez mais, busca algo além da bebida ao frequentar um bar. As casas oferecem, então, algo a mais. No Notre Vin, aberto em 2024, a galera aparece não só pela excelente seleção líquida, mas pelo jazz ao vivo no sótão. “Era aos sábados, depois começou sextas e agora temos de quinta, sexta e sábado”, conta o anfitrião Danilo Camargo.

Ambiente do Clementina (Gui Galembeck/Divulgação)

Na mesma rua de Pinheiros, o Clementina foi ampliando seus atrativos desde a inauguração, em 2023. A carta de vinhos — com boa oferta de brancos e laranjas — ganhou o complemento de coquetéis, e a casa passou a promover festinhas e ampliou o cardápio de comidas, tudo em sintonia com o público jovem. As decisões são baseadas em relatórios de frequência e consumo. “Minhas viagens e conexões também vão norteando (as novidades)”, conta o sócio Marcel Forte.

Mais um exemplo de que o universo vínico está longe de ser espartano é o da Casa Tão longe, Tão Perto, na Barra Funda, que acaba de lançar uma carta de coquetéis preparados com vinho, criada pelo bartender Fabio la Pietra. “Minha ideia foi a de complementar nossa oferta com mais diversidade de produtos, mas, claro, mantendo o diálogo com o vinho”, diz a sócia Gabriela Monteleone.

E quem acha que bar de vinhos não é lugar de fazer festinha de aniversário? O Saída de Emergência, em Pinheiros, acabou virando um reduto para soprar as velinhas, com cerca de vinte reservas por mês. “A razão da procura é a variedade de preços, somada a um cardápio prático, e, principalmente, comanda individual”, acredita o sócio Guilherme Mora.

Notre Vin. Rua João Moura, 1086, Pinheiros, telefone 93313-1223. Tem acessibilidade.

Clementina. Rua João Moura, 613, Pinheiros, telefone 99101-2903.

Casa Tão Longe, Tão Perto. Rua Doutor Sérgio Meira, 7, Barra Funda, telefone (19) 99973-5760.

Saída de Emergência. Rua dos Pinheiros, 808, Pinheiros, telefone 99484-4234. Tem acessibilidade.

Publicado em VEJA São Paulo de 17 de julho de 2026, edição nº 3004.

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