“Há quanto tempo estou fora?” A pergunta é feita por Odisseu — pai, marido, guerreiro, rei e a alma perdida no centro de A Odisseia, de Christopher Nolan. O homem em trajes da Idade do Bronze não é outro senão Matt Damon, ostentando uma barba de eremita e exibindo o visual de alguém que viu coisas demais, esqueceu mais do que gostaria e não deseja nada além do conforto familiar daquilo que um dia chamou de lar.
A pergunta é dirigida a uma guardiã chamada Calipso — que pode ou não tê-lo mantido em cativeiro —, interpretada por Charlize Theron. Calipso encara Odisseu com tristeza antes de lhe entregar uma flor de lótus e informar que muitos e muitos anos se passaram desde a última vez que ele pisou nas praias de Ítaca.
Essa troca de palavras, breve mas extremamente pertinente, ocorre perto do final da adaptação de Nolan para essa obra literária de referência. Ou talvez aconteça em algum ponto próximo à metade. Quem sabe se situe no que normalmente se classificaria como o terceiro — ou possivelmente o quarto — ato, caso o filme seguisse algo próximo a uma estrutura cinematográfica tradicional.
Ao conferirmos nossas anotações, temos quase certeza de que isso acontece logo após o final da segunda hora, mas certamente antes do início da décima ou décima primeira hora. Francamente, podem se passar dias, ou até semanas, dentro da sala de cinema até que o espectador finalmente chegue à conversa que levará Odisseu de volta ao lugar a que ele pertence.

O tempo tem sido a grande obsessão temática do cineasta por trás de Amnésia e Tenet: sua passagem, sua fluidez, o preço que ele cobra. E, enquanto você — o espectador — está sob o domínio dessa grande tragédia, é praticamente impossível acompanhar quanto tempo passou na companhia dos heróis, vilões, deuses e monstros de A Odisseia. A experiência de assistir — se é que esse verbo não é passivo demais para este caso — a uma obra colossal e imersiva, feita para a tela IMAX, é inebriante, transportadora e beira a dissociação. Há quanto tempo estamos longe?
Tudo o que sabemos é que entramos em um filme de Christopher Nolan — uma frase que ainda mantém um peso imenso em uma era em que filmes são assistidos em dispositivos de bolso e o conceito de cinema é sinônimo de uma Era de Ouro tão distante quanto a Grécia Antiga.
Dizem que, ou se faz algo grandioso, ou nem vale a pena tentar. Nolan oferece um contraponto àqueles que se aventuram em sua interpretação da “Pedra de Roseta” das jornadas do herói: por que não fazer as duas coisas?

“Fale-nos de um homem complicado”, exige o primeiro verso do poema. (Isso vem da extraordinária tradução de 2017 da professora Emily Wilson da Universidade da Filadélfia, que atraiu controvérsia não solicitada de trolls que fazem os habituais fã de Nolan online parecerem totalmente cavalheirescos.)
Há muito tempo, Odisseu governou Ítaca ao lado de sua rainha, Penélope (Anne Hathaway). Eles tiveram um menino chamado Telêmaco (Tom Holland). O rei Agamenon (Benny Safdie, brevemente vislumbrado sem um capacete que obscurece o rosto) e seu irmão, Menelau (Jon Bernthal), alistaram Odisseu como seu estrategista militar quando decidiram travar guerra em Tróia — houve toda essa coisa com uma senhora chamada Helena (Lupita Nyong’o), seu rosto lançou mil navios, blá, blá, blá. Leia A Ilíada, ela lhe contará os detalhes.
Assim, Odisseu parte, deixando para trás sua família e seus súditos leais. Ele ajuda os gregos a vencerem a guerra após uma década de combates, graças a um plano astuto que envolvia um cavalo de madeira oco. Após a vitória, a maioria dos guerreiros gregos retorna às suas terras de origem. No entanto, Odisseu e suas tropas sofrem graves contratempos na viagem de volta — para dizer o mínimo.

Já adulto, Telêmaco não suporta esses parasitas hedonistas, nem a maneira como eles vêm esvaziando os cofres e as adegas do castelo com banquetes noturnos que duram anos. Tanto ele quanto seu mentor, Eumeu (John Leguizamo), acreditam que Odisseu ainda está vivo. Aproveitando a proteção da noite, Telêmaco parte para Esparta em busca de seu pai, desaparecido. O tempo — essa palavra novamente — é um fator crucial.
Exceto por um vislumbre do famoso Cavalo de Troia — retratado como uma obra de arte quase abstrata, semissubmersa em uma praia, em uma das dezenas de imagens capazes de tirar o fôlego mesmo sem contexto —, Nolan inicia sua Odisseia no ambiente doméstico, e não no calor da batalha. Ele estabelece pacientemente a tensão e os riscos antes de abordar os aspectos mais míticos e aventureiros familiares aos leitores: o cerco a Troia, a caverna do Ciclope, o canto das sereias e o sacrifício de meia dúzia de tripulantes a uma besta de tentáculos.
A ênfase inicial na angústia de Telêmaco e na resignação melancólica de Penélope, em meio às intrigas do palácio, sinaliza que — apesar do espetáculo que logo será apresentado em grande escala — Nolan está, essencialmente, concentrando esse poema épico em um drama familiar de proporções monumentais. Despojada de tudo o mais, a obra é uma história sobre o reencontro de uma família. Nolan quer que essa noção íntima — um marido desesperado, uma esposa esperançosa e um filho em busca de respostas — sirva como base. Todo o resto é apenas som e fúria.

Bem, não se trata exatamente apenas de som e fúria. O cineasta pode ter deixado de lado o ritmo frenético e acelerado típico dos blockbusters modernos em favor de cadências mais lentas e fluidas, como as de uma canção de bardo — sua Odisseia reproduz o lirismo em estrofes da obra original melhor do que se esperaria de uma superprodução de 250 milhões de dólares —, algo que alguns espectadores podem considerar excessivamente contemplativo.
No entanto, Nolan empreende um ataque total aos olhos, ouvidos e sistemas nervosos; ele e o diretor de fotografia vencedor do Oscar, Hoyte van Hoytema, exploram ao máximo a imensidão das imagens em IMAX (é o primeiro longa-metragem de ficção filmado inteiramente nesse formato). Tudo — desde a visão claustrofóbica de dentro de um “cavalo de Troia” lotado até um navio sendo castigado pela fúria de Poseidon — é ampliado a proporções máximas.
Uma figura minúscula em uma paisagem vasta transforma o espaço negativo em uma galáxia de vazio. Uma cena de batalha “comum” dá a sensação de se estar contemplando o teto da Capela Sistina. Nolan e sua equipe técnica querem impressionar você. Se não conseguirem isso, certamente irão deixá-lo atordoado pela grandiosidade. Sim, em sua essência, é uma história humana. Mas seria impossível separar essa intimidade da apresentação maximalista, mesmo que você quisesse.

Esta é uma versão monumental de Homero — uma obra épica entre todas as épicas —, além de um filme repleto de estrelas em meio a paisagens grandiosas e interpretações de um realismo obstinado sobre mitologias antigas e fantásticas. Rostos conhecidos surgem magicamente para fornecer explicações ou dar corpo a arquétipos; tal como acontece com os ônibus, se você não gosta da estrela de primeira grandeza que está na tela, basta esperar alguns minutos e outra aparecerá. Lá vem Zendaya no papel para o qual nasceu: a deusa Atena; logo depois, Corey Hawkins como um pretendente ao trono de temperamento difícil, Elliot Page como um soldado destinado ao sacrifício e Mia Goth como uma criada intrigante.
Pattinson assume aquele jeito choroso e repulsivo que aperfeiçoou em diversos projetos de estética crua pós-Crepúsculo; o cara entrega uma vilania perfeita, daquelas que dão vontade de socar a cara. Leguizamo praticamente rouba a cena sempre que aparece. A interpretação arrepiante de Samantha Morton como Circe ajuda a transformar uma sequência de horror corporal em um pesadelo genuíno e de tensão crescente. Poderíamos ter assistido ao seu jogo de gato e rato com Damon por dias a fio. Talvez tenhamos assistido mesmo por dias.

Quanto aos protagonistas, Hathaway e Holland já dominam com naturalidade — quase de olhos fechados — a expressão da ansiedade angustiada e do deslumbramento juvenil temperado pela resiliência de quem enfrentou duras adversidades. Felizmente, nenhum deles cai no piloto automático; percebe-se a determinação de ambos em imprimir sua própria marca aos papéis.
O mesmo vale, em grau ainda maior, para Damon. O ator tem um talento especial para interpretar homens durões marcados por feridas emocionais. Até mesmo seu grande momento de ação — uma sequência digna de Jason Bourne, mas com o personagem vestindo uma couraça — durante o clímax da batalha épica é equilibrado pelo que o antecede: uma conversa tranquila e cifrada com uma pessoa amada, tão grandiosa em sua ressonância emocional quanto em seu impacto visual.

No entanto, há apenas um nome de peso absoluto aqui. Você pode revirar os olhos diante do culto a Nolan ou ver o homem por trás de A Origem como a reencarnação de Kubrick. Críticos e céticos certamente gritarão “soberba” e soltarão os cães de guerra das redes sociais; quem ainda guarda mágoas da leve incoerência nas cenas de ação de Batman: O Cavaleiro das Trevas fará a festa com algumas das sequências de combate corpo a corpo mais caóticas.
O mesmo vale para quem se incomoda com um filme que se esforça ao máximo para exibir credenciais antibélicas enquanto, simultaneamente, entrega um momento de retribuição do tipo “diga oi para seus amigos no inferno”, feito para arrancar aplausos movidos a sede de sangue. Outros, por sua vez, simplesmente gritarão hosanas até perder a voz antes mesmo de chegar à metade do filme.
A sensação predominante ao assistir a A Odisseia — possivelmente a melhor obra de Christopher Nolan desde Dunkirk (2017) — é de puro deslumbramento. É um dos filmes mais dinâmicos dos últimos tempos, justamente pela forma como tenta equilibrar — e, em grande parte, consegue — picos de intensidade avassaladora e momentos de delicada calmaria: explosões ensurdecedoras de ira divina alternadas com pausas silenciosas de contemplação, e momentos episódicos de fantasia à moda antiga das matinês de sábado misturados a interações realistas, típicas de produções de menor escala.
Um crítico ácido e sarcástico poderia, mesmo sem ter visto o filme, ironizar dizendo que foi preciso recorrer a uma das maiores epopeias de todos os tempos para finalmente encontrar um material à altura das ambições de Nolan. No entanto, uma vez que você mergulha na obra e se deixa levar por ela, é impossível negar a grandiosidade do que ele realizou nas telas. Ao final da sessão, você talvez nem saiba quanto tempo passou; só sabe que quer voltar para vivenciar tudo de novo.
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