Poucos músicos no mundo podem dizer: “eu tive uma banda com um integrante do Led Zeppelin“. Dave Grohl é um desses privilegiados. O frontman do Foo Fighters e ex-baterista do Nirvana tocou com o baixista John Paul Jones no projeto Them Crooked Vultures.
Curiosamente, Grohl conta com o raro privilégio de ter dividido palco com dois membros do Zeppelin. Ele conseguiu trazer Jones e o guitarrista Jimmy Page para uma participação especial durante um show do Foo Fighters no estádio de Wembley, em Londres, Inglaterra, no ano de 2008.
Isso, por si só, torna Dave bastante apto para falar sobre Led Zeppelin. Retrata o quão fã ele é do grupo completo pelo vocalista Robert Plant e o saudoso baterista John Bonham.
Portanto, é curioso observar qual música Grohl cita como a melhor de seus ídolos — ao menos em sua opinião. Em artigo escrito no ano de 2010 para a Rolling Stone, o artista destacou “Black Dog” como a canção que “representa tudo o que o Led tinha de melhor”. Ele declarou:
“A ‘Black Dog’, do álbum Zeppelin IV (1971), representa tudo o que o Led Zeppelin tinha de melhor em seus momentos mais pesados: é um exemplo perfeito de sua verdadeira força. Não precisava ser extremamente distorcida nem extremamente rápida; bastava ser Zeppelin — e isso já era incrivelmente pesado. Depois existe o lado sensível da banda, algo que muita gente ignora, porque pensamos neles como monstros do rock.”

Houve espaço, porém, para exaltar um álbum que chama atenção por sua sonoridade nada pesada: Led Zeppelin III (1970), majoritariamente acústico. Ele complementou:
“Zeppelin III é repleto de uma beleza delicada. Aquele disco foi a trilha sonora da época em que abandonei o ensino médio. Eu o ouvia todos os dias no meu Fusca, enquanto refletia sobre que rumo daria à minha vida. Por alguma razão, aquele álbum preservou uma luz dentro de mim que ainda existe até hoje.”
Dave Grohl fala sobre Led Zeppelin
Leia o texto completo de Dave Grohl sobre o Led Zeppelin:
O heavy metal não existiria sem o Led Zeppelin — e, se existisse, seria uma droga. Led Zeppelin foi muito mais do que apenas uma banda: foi a combinação perfeita dos elementos mais intensos possíveis: paixão, mistério e maestria. Sempre parecia que o Zeppelin estava em busca de alguma coisa. Eles nunca se contentavam em permanecer no mesmo lugar e estavam sempre tentando algo novo. Eram capazes de fazer qualquer coisa, e acredito que teriam feito de tudo se sua trajetória não tivesse sido interrompida pela morte de John Bonham.
O Zeppelin servia como uma grande válvula de escape para muita coisa. Havia um elemento de fantasia em tudo o que faziam, e isso era uma parte fundamental do que os tornava tão importantes. É difícil imaginar o público de todos aqueles filmes de O Senhor dos Anéis se não fosse pelo Zeppelin.
Eles nunca foram aclamados pela crítica em sua época, porque eram experimentais demais e estavam à margem demais. Em 1969 e 1970 havia muita coisa maluca acontecendo, mas o Zeppelin era o mais maluco de todos. Eu considero Jimmy Page mais excêntrico do que Jimi Hendrix. Hendrix era um gênio em chamas; Page, por sua vez, era um gênio possuído. Os shows e os discos do Zeppelin eram como exorcismos para eles. Hendrix, Jeff Beck e Eric Clapton já deixavam o público completamente atordoado, mas Page levou isso a um patamar totalmente diferente — e fez isso de uma maneira lindamente humana e imperfeita. Ele toca guitarra como um velho blueseiro sob efeito de ácido. Quando ouço bootlegs do Zeppelin, os solos dele podem me fazer rir ou me fazer chorar. Qualquer versão ao vivo de “Since I’ve Been Loving You” é capaz de arrancar lágrimas e, ao mesmo tempo, encher você de alegria. Page não usa a guitarra apenas como um instrumento: ele a usa como se fosse algum tipo de tradutora das emoções.
John Bonham tocava bateria como alguém que não fazia ideia do que aconteceria no instante seguinte — como se estivesse cambaleando à beira de um precipício. Ninguém chegou perto disso desde então, e acho que ninguém jamais chegará. Para mim, ele será para sempre o maior baterista de todos os tempos. Você não faz ideia do quanto ele me influenciou. Passei anos no meu quarto — anos pra car*lho — ouvindo a bateria de Bonham e tentando reproduzir seu swing, seu jeito relaxado de tocar ligeiramente atrás do tempo, sua velocidade e sua potência. Não apenas decorando o que ele fazia naqueles discos, mas tentando me colocar no mesmo estado mental para desenvolver o mesmo tipo de instinto musical que ele tinha. Tenho tatuagens de John Bonham espalhadas pelo corpo inteiro: nos pulsos, nos braços, nos ombros. Fiz uma delas em mim mesmo quando tinha 15 anos. São os três círculos que formavam sua insígnia na capa de Zeppelin IV e também apareciam na pele frontal de seu bumbo.
“Black Dog”, de Zeppelin IV, representa tudo o que o Led Zeppelin tinha de melhor em seus momentos mais pesados: é um exemplo perfeito de sua verdadeira força. Não precisava ser extremamente distorcida nem extremamente rápida; bastava ser Zeppelin — e isso já era incrivelmente pesado. Depois existe o lado sensível da banda, algo que muita gente ignora, porque pensamos neles como monstros do rock. Mas Zeppelin III é repleto de uma beleza delicada. Aquele disco foi a trilha sonora da época em que abandonei o ensino médio. Eu o ouvia todos os dias no meu Fusca, enquanto refletia sobre que rumo daria à minha vida. Por alguma razão, aquele álbum preservou uma luz dentro de mim que ainda existe até hoje.
Ouvi o Led Zeppelin pela primeira vez no rádio AM, nos anos 1970, justamente na época em que “Stairway to Heaven” fazia enorme sucesso. Eu tinha seis ou sete anos, quando estava começando a descobrir a música. Mas só na adolescência conheci os dois primeiros discos do Zeppelin, que chegaram às minhas mãos por meio dos verdadeiros maconheiros. Havia muitos deles nos subúrbios da Virgínia, assim como havia muitos muscle cars, festas regadas a barris de cerveja, Led Zeppelin, LSD e maconha. De algum modo, tudo isso parecia andar junto. Para mim, o Zeppelin era uma inspiração espiritual. Eu estudava em uma escola católica e questionava Deus, mas acreditava no Led Zeppelin. Eu não comprava muito essa história de cristianismo, mas tinha fé no Led Zeppelin como uma entidade espiritual. Eles me mostraram que seres humanos podiam canalizar aquela música de alguma forma, e que ela vinha de algum lugar. Não vinha de um cancioneiro. Não vinha de um produtor. Não vinha de um professor. Vinha de quatro músicos levando a música a lugares onde ela jamais havia estado antes — era como se viesse de outro plano. É por isso que eles são a maior banda de rock de todos os tempos. Não poderia ter acontecido de outra maneira.
