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‘7 Gatinhos’ faz jus ao espírito libertário e ritualístico do Teatro Oficina – Rolling Stone Brasil

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Antes mesmo de o espetáculo começar, 7 Gatinhos já anuncia que não será uma experiência convencional. A Bateria Mirim do Bixiga recebe o público ainda na fila do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona e conduz um cortejo até o interior do teatro, fazendo da chegada parte da encenação. É uma recepção que sintetiza a essência do Teatro Oficina: não há separação rígida entre palco e plateia, entre espetáculo e vida. A arquitetura concebida por Lina Bo Bardi deixa de ser apenas um espaço para abrigar a peça e passa a integrar sua própria dramaturgia.

Joana Medeiros, criadora e diretora, compreende como poucos a vocação libertária e ritualística do Teatro Oficina. O elenco ocupa cada centímetro do espaço, atravessa arquibancadas, escala estruturas metálicas, canta, dança, corre e faz do local um organismo pulsante. O público deixa de ser mero observador para compartilhar a mesma energia dos atores, envolvido por uma encenação que transforma o clássico de Nelson Rodrigues em uma experiência física, sensorial e coletiva. Não se trata de uma montagem que poderia acontecer em qualquer palco: ela pertence ao Oficina e faz dele um de seus protagonistas.

‘7 Gatinhos’ faz jus ao espírito libertário e ritualístico do Teatro Oficina (Foot: Pedro Martins)

A trama acompanha Dona Aracy, a Gorda (Viviani Gangá), e Seu Noronha (Joana Medeiros), que vivem em um cortiço do Bixiga ao lado das cinco filhas — vividas por Ana Clara Cantanhede, Bianca Terraza, Zizi Yndio do Brasil, Larissa Silva e Marina Wisnik. Enquanto o pai faz vista grossa para tudo o que acontece dentro de casa, desde que a engrenagem familiar continue funcionando, todas as esperanças são depositadas em Silene (Zizi Yndio do Brasil), mantida em um internato como símbolo de pureza e promessa de um futuro melhor. Quando ela retorna para casa após ser expulsa do colégio, o frágil equilíbrio daquela família desmorona e faz emergir toda a violência, a hipocrisia e os segredos escondidos entre as paredes do cortiço.

Essa nova leitura, criação do grupo Viradas da Encruza y Teatro Oficina Uzyna Uzona encontra novas camadas ao reunir uma equipe criativa marcada pela presença expressiva de um elenco formado por artistas negros, trans e cisgêneros. Essa diversidade amplia a dimensão política da montagem justamente porque evidencia como os conflitos imaginados por Nelson continuam atravessando diferentes corpos e identidades. O resultado é um espetáculo profundamente contemporâneo sem abrir mão da força do texto original e que faz jus ao espaço libertário e transgressor onde é apresentado.

Escrita em 1958, a peça permanece desconcertantemente atual. A obra já ganhou uma conhecida adaptação para o cinema em 1980, dirigida por Neville d’Almeida, reunindo Lima Duarte, Antônio Fagundes e Regina Casé entre seus protagonistas. Décadas depois, o patriarcado, a hipocrisia familiar, o controle sobre os corpos femininos e as relações marcadas por poder e violência continuam ecoando com força. A escolha de deslocar a ação para um cortiço do Bixiga aproxima ainda mais essa realidade do público paulistano, reafirmando a impressionante capacidade de Nelson Rodrigues de expor as fissuras da sociedade brasileira.

‘7 Gatinhos’ faz jus ao espírito libertário e ritualístico do Teatro Oficina (Foto: Pedro Martins)

Sobre o elenco, seria injusto destacar apenas um integrante, pois poucas vezes se vê um grupo tão entregue física e emocionalmente, transformando o espetáculo em um organismo vivo que ocupa cada centímetro do Teatro Oficina. Ainda assim, alguns momentos se impõem pela potência de suas interpretações e pela forma como dialogam com a proposta ritualística da montagem. A Silene de Zizi Yndio do Brasil amplia a dimensão política da montagem ao colocar uma artista trans no centro de uma personagem que simboliza a pureza idealizada pelo patriarcado.

A dimensão ritual também atravessa um dos momentos mais arrebatadores da montagem. Em dado momento, Ana Clara Cantanhede parece entrar em transe. Ela se contorce, se revira e ocupa o espaço como se estivesse incorporada por uma força impossível de explicar racionalmente. Não é apenas uma demonstração de entrega física, mas um momento em que teatro, performance e rito se confundem. O resultado é uma presença simultaneamente assustadora e hipnotizante, capaz de suspender a respiração da plateia.

‘7 Gatinhos’ faz jus ao espírito libertário e ritualístico do Teatro Oficina (Foto: Cassandra Mello)

Quem também hipnotiza é Jup do Bairro, que atravessa toda a encenação como uma espécie de trilha sonora viva. Sua presença amplia a pulsação do espetáculo. Sua interpretação de “Os 7 Gatinhos”, de Erasmo Carlos, ganha novos sentidos dentro da narrativa, enquanto “Mulher do Fim do Mundo”, eternizada por Elza Soares, encerra a montagem de maneira arrebatadora. É um daqueles finais recompensados por uma longa salva de aplausos do público presente.

Mais do que revisitar um clássico de Nelson Rodrigues, 7 Gatinhos reafirma aquilo que faz do Teatro Oficina um dos espaços mais singulares do teatro brasileiro: a capacidade de transformar uma peça em experiência, celebração e rito coletivo. Em tempos de montagens frequentemente contidas, esta escolhe o excesso, o corpo, a música e o risco. E sai vencedora justamente por compreender que alguns textos não devem apenas ser encenados — devem ser vividos em comunhão.

Serviço

A temporada de 7 Gatinhos foi estendida no Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Rua Jaceguai, 520 – Bixiga, São Paulo, SP
As sessões acontecem até 16 de agosto de 2026
S
extas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h.
Ingressos no Sympla


Fonte: LEIA A NOTÍCIA COMPLETA

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